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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Por que sou contra o aborto e a favor da legalização


Sempre fui contra o aborto como ato per se. Assim como a esmagadora maioria dos anti-aborto, meus motivos são basicamente religiosos. Os cristãos, em especial católicos e protestantes, acreditam que toda vida humana deve ser protegida a partir do momento da concepção (o que já é polêmico, pois é impossível definir exatamente em que etapa da fecundação começa a vida). Também acredito na defesa da vida. Mas vou além: dentro de uma perspectiva espiritualista, na qual me insiro, não vejo apenas a rejeição da vida como uma afronta à criação Divina. Acredito na Lei de Causa de Efeito (vulgo carma) e em reencarnação. 

Dentro desse parâmetro, toda gravidez é a possibilidade de um espírito voltar ao plano físico para reparar seus erros pregressos, o que por si só já é uma concessão de grande valia e ansiosamente esperada por muitos no plano extrafísico. Além disso, nada seria por acaso. Aquela criança tenta nascer naquele seio familiar em específico porque precisa, grande parte das vezes, unir-se àqueles com quem, outrora, estabeleceu relações conflituosas.  

Negar a oportunidade de reencarnação já concedida pela Força Criadora e rejeitar a oportunidade de reunir-se a um espírito com cuja convivência estão designados ensinamentos traz prejuízos ao progresso espiritual da mãe, pai e demais envolvidos no aborto. Uma gravidez indesejada revela uma relação onerosa entre os espíritos envolvidos (principalmente progenitores e filha/o), e a gravidez é a oportunidade de reunião (seja em que condição for, mesmo fruto de estupro). Renegar este resgate cármico é fortificar o ônus de uma relação que já é onerosa, além de apenas postergar um reencontro inevitável. 



Mas isso tudo é irrelevante. O Estado é laico. O Direito é materialista. Não posso propor leis jurídicas baseadas em crenças sobrenaturais. A todos é concedido o direito de liberdade de crenças, mesmo que isso signifique a total ausência delas.  E os ateus? E as pessoas que não acreditam em absolutamente nada além de seu corpo físico, que acreditam que, após a morte, não existe absolutamente nada além de um corpo que virará pó e uma mente que se apagará eternamente? Não seria injusto fazer essas pessoas se submeterem a certas regras e convenções baseadas nas crenças sobrenaturais dos outros? Obrigar uma mulher a ter um filho indesejado em nome de um carma, julgamento final ou Deus que ela sequer acredita?!


Tendo isso em vista, faz-se mister desenvolver um raciocínio mais abrangente para se poder ter um posicionamento mais imparcial. Discutirei aqui os temas principais. 

Contra o aborto e a favor da pena de morte

Muita gente é contra o aborto em função do princípio de “direito à vida” e, ao mesmo tempo, a favor da pena de morte, o que não faz o menor sentido. Alguns dirão: “mas o detento condenado à morte era um bandido”. Isso é infundado. O princípio “direito à vida”, por si só, é incondicional. Esse direito seria concedido apenas pelo fato de se estar vivo, ou seja, não há exceções ou requisitos. O próprio postulado é fechado em si mesmo. E, mesmo se houvesse uma brecha conceitual para essa discussão, cairíamos em um jogo de relativismos sem fim. O que faria alguém perder o direito à vida e merecer a morte?Ter assaltado um banco?Ter matado uma pessoa?Ter matado pelo menos duas pessoas?Assistir programas de auditório? O direito à vida é inflexível.


O Brasil aprova o aborto em casos de gravidez decorrente de estupro e em caso de risco à gestante

A atual legislação brasileira permite o aborto em casos de gravidez decorrente de estupro e risco de vida à gestante. Essas exceções já anulam o pressuposto de “direito à vida” que resguarda a proteção legal do feto. “O feto tem sempre direito à vida, salvo...” não tem fundamento lógico; logo, a proibição do aborto em função do pressuposto de “direito da vida” é inválida quando concomitante à sua liberação em determinadas circunstâncias. 

Se o aborto é proibido porque é a vida do feto que está no centro da discussão e, mesmo assim, admitem-se situações em que ele não pode ser protegido pela legislação, nota-se a necessidade urgente de se alterar velhos paradigmas e flexibilizar a discussão acerca do assunto. Desta vez, trazendo à tona também os interesses da mulher, e não só da criança.

“Sabia o que estava fazendo, agora arque com as consequências”


Duvido que as pessoas que falam isso estariam preparadas para aceitar um filho que fosse gerado de todas as relações sexuais que tivessem. Duvido mais ainda que deixem de fazer sexo porque a concepção de uma criança seria provável e, pior ainda, que façam apenas quando pretendem ter um filho. “Mas me protejo”, defendem-se alguns. Ótimo. Acontece que nenhum método anticoncepcional é 100% confiável, então ninguém está ileso. Nem mesmo os que repetem esse frase em negrito.


Somos donas de nossos corpos – mas só quando convém ao patriarcado



Ainda há o consenso de que a mulher é culpada pelos assédios e abusos que sofre, até pelo próprio estupro do qual tenha sido vítima. “Mas também, andando na rua com essas roupas, estava pedindo!”, “Foi ficar bêbada na festa cheia de homem, queria o quê?”, “Aceitou ir na casa dele”, “Entrou no carro dele porque quis” – são exclamações que rodeiam o senso comum – machista – que legitima os abusos. Ok, a menina desmaiou na festa de tanto beber. Isso significa que isso dá concessão para os homens abusarem? Vamos focar no algoz, pessoal?

Mesmo vítima de um abuso, a mulher tem sempre culpa porque, supostamente, “é dona do seu corpo, sabe o que faz com ele, como usá-lo e para quê”. O engraçado é que esse axioma só é válido para justificar as diversas formas de violência contra a mulher. Quando se trata de empoderá-la, como, por exemplo, permitir que decida sobre a continuação ou não de uma gravidez, aí é o Estado – e a Igreja – que assume a responsabilidade por seu corpo. 

Para legitimar os abusos sofridos, a sociedade confere à mulher a autonomia sobre seu corpo: foi ela quem tomou decisões relacionados à ele que culminaram no episódio de assédio ou violência sexual física. Para poder discernir sobre a continuidade de uma gravidez indesejada, entretanto, a sociedade oferece o oposto: espera-se que a mulher distancie-se de seu corpo e seja alienada deste.




Se os homens engravidassem, o aborto seria legalizado



Essa afirmação pode soar audaciosa e puramente circunstancial, mas reflete sobremaneira a estrutura patriarcal vigente. Não é difícil perceber como praticamente tudo é feito pelos homens e para os homens. O exemplo principal que quero dar, pois tem a ver com o tema, é a pílula anticoncepcional.

            A Medicina relega o controle de natalidade às mulheres, sendo a pílula anticoncepcional um dos métodos contraceptivos mais comuns. Elas precisam tomar a pílula quase todos os dias do mês, sem falhar e no mesmo horário por todos os meses do ano, durante todos os anos de sua vida fértil (até a menopausa). Os comprimidos estão repletos de carga hormonal que, adicionada aos já excessivos hormônios presentes no corpo da mulher, dada sua natural instabilidade devido aos ciclos menstruais, se tornam, a longo prazo, verdadeiras bombas potencializadoras de diversas doenças, especialmente o câncer. 

 


          Todo esse incômodo para evitar que uma mulher tenha, no máximo, uma gestação por ano. Os homens, em contrapartida, podem gerar, no mínimo, um filho por dia. Podem fecundar inúmeras mulheres no mesmo dia – falando apenas biologicamente, claro. Isto é, em um ano, uma mulher pode gerar uma criança; um homem, no mínimo 365. E a quem é dada a maior responsabilidade de fazer controle de natalidade? Não há interesse algum em mercantilizar uma pílula anticoncepcional masculina. O paradigma científico já permite o desenvolvimento dessa técnica, mas “as mulheres que fiquem com essa chatice”. Sim, afirmo com veemência que se o aborto fosse de interesse dos homens, caso engravidassem, já seria legalizado.

O aborto já é permitido - para homens abortarem filhos nascidos



A sociedade condena a mulher que pratica o aborto, mas não com a mesma ênfase que condena o homem que aborta simbolicamente seus filhos nascidos. São comuns as histórias de homens que renegam os filhos, que abandonam as companheiras enquanto ainda estão grávidas, que limitam-se a pagar pensão (ou nem isso), que acham entediante passar tempo de qualidade com os filhos, ou que levam as crianças pra tomar sorvete no sábado à tarde achando que é o suficiente. Esses homens não são estigmatizados. Eles não tem sua vida social condenada por causa disso.

Por que essa sociedade que vocifera tanto contra o aborto não faz o mesmo em relação aos homens que abortam os filhos nascidos, cenário que é tão comum? Se o foco é o bem-estar da criança, por que a razoável apatia diante de homens que não nutrem afeto pelos filhos? A resposta é fácil: o homem pode renegar os filhos. O homem pode abortar. É a mulher que não.


Quem é contra a legalização do aborto tem obrigação moral de ser vegetariano

É contra o aborto, mas a  favor de tudo isso(!)


  
 Incoerência é o que ronda uma sociedade que recrimina a terminação de uma vida embrionária com tanto vigor, mas aceita o holocausto diário perpetrado contra os animais usados na indústria alimentícia. Além de incondicional, o princípio do direito à vida deve ser universal e não se limitar à espécie humana. O ensinamento de não se poder acabar com uma vida inocente deve se estender às tantas vidas não-humanas, mas de semelhante complexidade e vontade de viver. Todos os animais são sencientes. Quanto maior a complexidade do animal, menos respostas meramente instintivas ele apresenta: maior sua consciência de si mesmo, sua experiência de dor e tristeza e sua capacidade de desenvolver afeto por outros seres fora de sua própria espécie.
               
            Os animais mortos na indústria alimentícia, vestuário, cosméticos e nas práticas de caça – esta última até hoje absurdamente vista como “esporte” (e me expliquem a virtuosidade de um esporte que tem como finalidade matar outros seres pelo simples prazer de matar e ver sofrer) – estão mais conscientes e sencientes das experiências de dor do que um embrião humano de algumas semanas.

           O porco, visto apenas como um delicioso pedaço de bacon para muita gente, já se provou um dos animais mais inteligentes do mundo, quase no mesmo nível de gorilas e chimpanzés. Sua inteligência é equivalente à de uma criança de 3 anos, tendo o poder de compreender a linguagem simbólica simples e aprender combinações complexas de símbolos para ações e objetos. Além disso, demonstram grande empatia e facilidade em desenvolver afeto por outrem. 

        Bois, vacas, galinhas, dentre outros, experienciam não só a dor plenamente, mas a angústia da iminência da morte quando vêem o sacrifício de seus pares. Angústia, tristeza, mal-estar e desespero também estão presentes no dia-a-dia desses animais dentro dos abatedouros, granjas e fazendas industriais. Eles vivem enclausurados em celas minúsculas onde mal podem se mexer ou usufruir de uma existência minimamente digna.

       As fêmeas são relegadas à função de reprodução, sendo mantidas continuamente grávidas por sucessivas fecundações contra sua vontade – vulgo estupro -, o que lhes confere as mais diversas enfermidades: doloridas infecções mamárias devido à incessante e eterna ordenha,  estresse, dores generalizadas e redução significativa da expectativa de vida. Quando não mais úteis ao processo reprodutivo, são impiedosamente enviadas ao abate, como peças quebradas descartadas e esquecidas no lixo.   


          Certamente terão aqueles alegando que uma vida humana não pode ser comparada a de um animal, que humanos são mais importantes do que as demais espécies. Essa afirmação é equivocada, reacionária e especista. Especismo é o que caracteriza o pensamento de que o ser humano domina o planeta e todas as demais espécies existem para lhe servir. É esse axioma perversamente antropocêntrico que legitima a exploração animal e põe a vida humana, seja em sua etapa mais rudimentar, em posição de infinita superioridade em relação a uma vida não-humana, mesmo em seu grau mais complexo.


Mamíferos complexos como vacas e bois tem menos direitos do que um blastocisto.


Porcos são inteligentes e afáveis, mas o Estatuto é para a Mórula. 
       
          Até hoje animais são usados para satisfazer os desejos humanos porque a sociedade ainda segue a premissa estipulada por Descartes, no século XVII, segundo a qual animais não sofrem por não possuírem a razão e serem, portanto, seres autômatos, o que permitiria sua dissecação viva para fins científicos e diversos, uso em cruéis testes laboratoriais e o bárbaro abate. Seria interessante evoluirmos e mudarmos nosso paradigma ético-moral em relação aos animais. Afinal, já se passaram 400 anos.

          Entretanto, poucos se importam com os animais. Importa mais, inclusive para muitos anti-aborto “pró-vida”, o suculento hambúrguer sangrento, a porção de asinhas de frango bem temperadas e o gostinho de uma linguiça no ponto. “O animal que sofra para me satisfazer”, repetem a maioria, mesmo que inconscientemente. Só humanos estão resguardados do sofrimento, mesmo que sejam apenas uma mórula. 


               
Holocausto animal diário: tudo para servir os humanos!


Animais mantidos em confinamento: bem-estar e dignidade zero. 




Em nome da Ciência

Vaca servindo ao único propósito permitido pelos seres humanos; servi-los.



Estados Unidos, Canadá, Europa > Todos pró-aborto

Brasileiro adora dizer que Estados Unidos e Europa são lugares magníficos e que tudo que vem de lá é super “prafrentex” e deveria ser aplicado aqui.  Tem aqueles que gostariam que exatamente tudo no Brasil fosse igual aos Estados Unidos - até a pena de morte - já que lá “as coisas funcionam”. Mas esquecem que todos esses países “prafrentex” já legalizaram o aborto há quase meio século. Por que a seletividade?

No continente europeu, apenas Polônia e Malta criminalizam o aborto. Polônia (de forte influência católica) aprova o aborto em caso de estupro e quando há risco para a gestante, enquanto Malta, nada menos do que propriedade do Vaticano, proíbe-o em qualquer circunstância. À exceção destes dois, absolutamente todos os países da Europa, além de Estados Unidos e Canadá, permitem o aborto à pedido livre da gestante. Se esses países são “prafrentex” e legalizaram o aborto, isso deve significar alguma coisa.



“Legalizar o aborto vai aumentar o número de abortos”, “aborto vai virar método anticoncepcional” e outros chavões

             Abortos acontecem diariamente, seja contra a lei ou não. Ninguém deixa de abortar porque os hospitais públicos não prestam esse serviço. Ao contrário, todas que desejam realmente descontinuar a gravidez o fazem de qualquer maneira, seja nas clínicas clandestinas onde altos pagamentos possibilitam um procedimento seguro, seja nos becos sem o mínimo de higiene e estrutura, onde muitas mulheres vem a sofrer consequências nefastas como esterilidade ou mesmo a morte.

            Não é possível garantir que legalizar o aborto acarretaria na maior procura pelo procedimento. Muitos países onde o aborto já foi descriminalizado detectaram que o número de abortos não aumentou depois da legalização. Tampouco deve-se supor que o aborto viraria método contraceptivo.  

Pensar que alguma mulher irá usar o aborto como método anticoncepcional é de uma infantilidade enorme. O aborto é extremamente invasivo e deixa profundas sequelas corporais e psicológicas. Nenhuma mulher em sã consciência iria preferir recorrer a este procedimento periodicamente ao invés de experimentar outros métodos contraceptivos. Além disso, o controle de natalidade deve ser responsabilidade do casal, e não recair somente às mulheres. 

Se entende-se que os abortos aumentariam, entende-se necessariamente que os homens também estão falhando na prevenção. Logo, o que é necessário, mais do que a proibição, é enfatizar a necessidade do controle contraceptivo do casal para que os abortos sequer sejam necessários, mesmo se legais. De todo modo, mesmo legalizando o aborto, o Estado poderia regulamentá-lo, estipulando limites de ocorrências por mulher em um determinado período de tempo, por exemplo.

Considerações finais

Feministas não são a favor do aborto. Somos a favor da descriminalização da decisão da mulher de descontinuar a gravidez.  Ser a favor da legalização do aborto não é necessariamente ser a favor do aborto. Ao contrário, é apenas esperar que o Estado possibilite à mulher que tomou a decisão de descontinuar uma gravidez indesejada os meios dignos de fazê-lo, além de não ser presa por isso.  Não defendemos o aborto como método contraceptivo, tampouco como ferramenta de uso indiscriminado para dar fim a qualquer gestação.

Se você é contra o aborto, assim como eu, não o faça. Mas permita que o outro decida o contrário quando isso só afetará a vida dele, e não a sua. Permita que as pessoas possam tomar uma decisão tão íntima e privada sem que haja intervenção estatal. Se é pecado, assassinato e se acarreta em débitos perante uma Divindade, o outro que preste suas contas, seja no Juízo Final, na próxima encarnação ou onde sua religião define. O Estado não pode legislar neste domínio.

Voto a favor da legalização do aborto, embora seja contra o ato em si. O avanço legislativo precisa acompanhar os passos que muitos países, séculos à nossa frente, já deram. Especialmente porque a legislação vigente não é a favor do feto; é contra a mulher.






quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Os reaças vão à loucura com as questões de gênero abordadas pelo ENEM

          UMA MULHER É ESTUPRADA A CADA 11 MINUTOS NO BRASIL, mas estima-se que esse índice seja até 10 vezes maior, haja vista que apenas 10% dos casos de estupro chegam a ser denunciados (por motivos óbvios: medo, vergonha, ameaças). Casos de estupro nas festas universitárias, especialmente de calouros, são recorrentes nas mais diversas instituições de ensino de todo o país. Todos se lembram dos casos de estupro nos trotes da USP, por parte dos alunos veteranos. Igualmente comuns são aqueles nas próprias dependências dos campi, em situações diversas. Não é fato isolado - esse cenário é recorrente na vida das universitárias.

           O Brasil é o 5o país que mais mata mulheres no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde citados no Mapa da Violência. Quase 30% dos feminicídios são ocorridos no lar, o que corresponde ao tripo do índice de assassinatos a homens dentro do mesmo âmbito doméstico. A violência contra a mulher, aquela em que o fato de ser mulher é determinante na perpetração do crime (uma atendente de caixa de supermercado morta a tiros por se recusar a entregar o dinheiro durante um assalto, por exemplo, não configura violência contra a mulher), é diária, independe de classe social e grau de formação - nem da vítima, nem do algoz. 

            O Caso Eloá foi só um dos inúmeros exemplos de mulheres vítimas de violência - em seus diversos níveis - por parceiros ciumentos ou inconformados com o fim do relacionamento. Ex-parceiros que ameaçam e perseguem; psicopatas que ficam à espreita de mulheres andando sozinhas nas ruas; assédios de raiva e lesões físicas cometidas por homens que se sentiram rejeitados. Não é difícil notar que existe uma violência perpetrada especialmente ao gênero feminino, à parte da violência generalizada.





        
          Como se isso não bastasse, também lidamos com a violência não-física: a violência simbólica e psicológica, que podem ser ainda mais perniciosas dada sua complexidade e sua característica de permanecer velada e despercebida conscientemente. A falta de credibilidade em muitos meios acadêmicos e profissionais pelo simples fato de ser mulher; a desonestidade de muitos prestadores de serviço perante nossa suposta ignorância naquele domínio; assédio nos ônibus e locais públicos onde encoxadas (e coisas piores) são comuns; o medo de andar sozinha nas ruas; a objetificação sexual da mulher na mídia; a mulher como enfeite sexual e estratégia para vender qualquer coisa; o condicionamento social perverso que impõe que temos que ser bonitas acima de tudo e que se não nos adequarmos ao padrão de beleza alienante não adianta sermos mais nada; a coerção social para ter filhos, mesmo quando não os desejamos, e a culpa imposta caso seguimos com nosso real desejo; assédio nas ruas, onde ouvimos em voz alta o que o imbecilzão pensa de nosso corpo, como se fôssemos frutas expostas numa prateleira de quitanda à mercê da opinião e apalpe alheios. 

Estar na rua é estar nos holofotes da opinião alheia sobre nosso corpo. 
Todo comentário é agressivo e aviltante, mas velado de "elogio".


Assédio sexual no âmbito profissional são comuns. "Se pegar, pegou".



Mulher objetificada na mídia.


As indústrias de entretenimento e consumo transformando as mulheres em bonecas de pano moldáveis a todo e qualquer requerimento estético. Nunca estar satisfeita com seu corpo - esse é o lema.

A sociedade ensina as mulheres a se protegerem, enquanto deveria ensinar os homens a  não estuprarem. O que resta é viver no medo. 
           
          Mas ainda tem gente que acha que falar em direitos das mulheres é frescura. Pior: indignam-se ao ver "a persistência da violência contra as mulheres" como tema de redação do ENEM. Revoltam-se, mais ainda, com uma questão de múltipla escolha pedindo tão somente que se associasse a obra "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir ao movimento feminista. Alegam que a prova fez doutrinação marxista e que os organizadores da prova são "feminazis". Outros se incomodam em levantar o tema pois "é necessário falar dos homens também". Restringir-se ao debate da questão das mulheres, alegam, é dar privilégios a elas. 



           Bonecos de ventríloquo da Revista Veja que acham que tudo é doutrinação marxista; Neandertais que ainda vivem entre nós e torcem o nariz para qualquer tentativa de empoderamento da mulher; reaças em geral, simpatizantes de Bolsonaro e afins, entendam uma coisa: a reivindicação pela dignidade humana, seja de qual grupo for, ultrapassa qualquer posicionamento politico e econômico. Falar em direitos das mulheres não é marxismo, petismo, "machismo ao contrário", "feminazismo" ou qualquer outra alucinação que suas mentes insanamente férteis para a imbecilidade poderiam defender. Violência contra a mulher não é brincadeira. Negá-la é, justamente, comprovar sua existência. Sua negação é a violência em si mesma.



Fonte: 
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/6-dados-que-revelam-a-gravidade-da-violencia-contra-a-mulher

http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151108_violencia_mapa_brasil_2015_fd?ocid=socialflow_facebook

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/mulherio/quando-as-universidades-vao-levar-o-tema-do-estupro-a-serio-o-caso-da-ufpr/

http://akina.jusbrasil.com.br/noticias/150973214/alunas-denunciam-estupros-em-festas-da-medicina-da-usp

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/maringa/classe-alta-ainda-esconde-a-violencia-contra-a-mulher-diz-secretaria-c0ffc55x5c24ujp9jm9v7rkge

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/maringa/classe-alta-ainda-esconde-a-violencia-contra-a-mulher-diz-secretaria-c0ffc55x5c24ujp9jm9v7rkge

domingo, 24 de novembro de 2013

Mulheres ainda querem homens das cavernas


Tem mulher que ainda quer um parceiro homem das cavernas. Pelo menos é isso o que eu deduzo quando fico sabendo que alguém deu um fora em um homem porque ele sugeriu dividir a conta no encontro, e não pagá-la sozinho. Ou, ainda, que alguma mulher teve um encontro ótimo com um cara super interessante, mas que afirma que não dará certo porque ele não tem emprego fixo.
 
 

Ora, para uma mulher dessas, teria algo melhor do que retroceder ao período Neolítico? Nessa época, a divisão de trabalho era marcantemente definida por sexo. Não restavam dúvidas de que o homem era responsável pela proteção e sustento das famílias. Do ponto de vista evolutivo, seria mais vantajoso perder uma mulher do que um homem, pois sem este último o bando teria as possibilidades de provento e sobrevivência fortemente afetados. Poderia haver papel com caráter mais limitante e subordinativo a se conferir às mulheres?

Em 2013, não muita coisa mudou. Não é raro ver mulheres com cara de paisagem quando o garçom traz a conta. Alguns carnês parecem até carregar consigo doenças infecciosas, pois muitas sequer ousam tocá-los. Muitos homens compartilham da mesma linha de pensamento – acreditam que é seu dever pagar a conta, talvez como uma forma de retribuir financeiramente o tempo passado junto (embora eu tema que exista outro nome para isso – e não é bonito). Outros apenas fazem porque é isso que se ouve dizer ser a atitude corriqueira, embora nunca tenham refletido sobre isso. Tantos outros, em contrapartida, acreditam que a mulher deveria compartilhar dessa responsabilidade; quase todos desse grupo, no entanto, preferem se render e ir contra seus princípios caso sintam que isso ameace suas chances de tirar uma calcinha no fim da noite.


Pra você que está procurando um namorado “que te dê segurança”: o da direita é mais gatinho. Fica a dica.

          É tão difícil perceber que a tal “segurança financeira” que as mulheres ainda hoje esperam dos homens não difere em nada da segurança (e controle) outrora oferecida –brutamente – pelos homens que viveram em 10 milênios antes de Cristo?

            O grande conflito paradigmático da atualidade, contudo, é o seguinte: as mulheres nascidas a partir da década de 1980 não esperam mais um homem que lhes forneça tudo para que possam se dedicar exclusivamente ao lar. Ao contrário. Elas desejam ter empregos, profissões, renda própria e até carreiras. Mas ainda assim esperam que o homem seja sempre MAIS: mais estável financeiramente, mais importante, mais bem sucedido, mais poderoso, enfim. Inevitavelmente, até mesmo as relações conjugais se transformam em relações de poder.

            Se este é o paradigma – defendido pelas próprias mulheres – quem de fato está lutando pelas tão aclamadas melhores condições de trabalho para as mulheres? As reivindicações por igualdade em cargos e salários para homens e mulheres não faz sentido, partindo desse princípio. Para que remunerá-los igual, se as próprias mulheres não aceitam ter as mesmas responsabilidades? Para que poder ter as mesmas oportunidades no mercado de trabalho, se a ideia é manter os homens no poder?

Mulheres, meu recado é o seguinte: a sociedade evoluiu. Muita coisa mudou desde o período Neolítico - e deve continuar mudando. As relações sociais ficaram muito mais complexas, os recursos para se viver se tornaram muito mais acessíveis e às mulheres foi concedido o direito à vida pública, que expandiu seu papel social enormemente.

Assumam a responsabilidade e controle de suas vidas. Mudem de paradigma. Pois, da mesma forma que vocês acham “justo” trocar de parceiro por outro que ofereça mais proteção e estabilidade, igualmente “justo” seria um homem trocar sua parceira (você mesma) por uma mulher mais jovem, mais bonita e mais fértil– apenas por esse motivo. Ora, é a lei da selva. Não é essa lei que vocês tanto defendem?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meu sonho de ser aeromoça



A primeira profissão que quis ter, ainda quando criança, foi a de comissária de vôo. Abandonei a idéia conforme fui crescendo, mas no fundo sempre mantive a mesma atração por este trabalho. Na verdade, até hoje, quando me deparo com um destes profissionais, sinto um friozinho na barriga. É, deve ser amor.
A mulher e o mercado de trabalho nos anos 80 e 90

Minha infância se passou no final dos anos 80 e início dos 90. Apesar de ter tido uma mãe bem sucedida profissionalmente, muitas meninas da mesma idade ainda tinham mães donas-de-casa naquela época. Na mídia, especialmente nas telenovelas e comerciais, a imagem que se passava ainda era a de que as mulheres eram românticas, sonhavam com um marido (“bom partido”, de preferência), de que o ápice da vida de uma mulher seria o dia de seu casamento, de que eram elas as responsáveis pelo lar, etc.
Já era uma época em que as mulheres não enfrentavam relutância da sociedade em trabalhar fora –salvo em certas profissões – mas suas atividades profissionais ainda eram encaradas como sendo de menor relevância e direcionadas para ocupações consideradas “femininas”: subalternas, de baixa remuneração e geralmente ligadas a atividades de afeto. Não preciso lembrar que até hoje as meninas são direcionadas para as áreas que não envolvem raciocínio lógico e liderança.
De todo modo, os valores familiares ainda pregavam que o chefe da família era o homem; que quem “botava comida na mesa” era o marido; que a mulher, se trabalhasse, visava apenas ajudar nas despesas da casa. Daí obviamente surgia a noção, na mente das próprias mulheres, de que prescindiam de um emprego que exigisse grande responsabilidade ou grande remuneração. Poderiam ser secretárias ao invés de executivas, professoras primárias ao invés de professoras universitárias, enfermeiras ao invés de médicas...comissárias de vôo ao invés de pilotos.

Ser ou não ser comissária de vôo: eis a questão.
Aos 19-20 anos, já universitária, vivi um momento muito difícil, de muitas dúvidas, pois não me identificava com a profissão que havia escolhido. Cogitei largar tudo e fazer o que sempre amei, desde os 7 anos de idade: ser comissária de vôo.
       Foi quando finalmente procurei uma escola profissionalizante que desisti da idéia. Os homens iam até aquele estabelecimento para aprender a pilotar aviões. Eu, como mulher, estava indo para aprender a servir passageiros e tripulantes. Dentro do avião, os homens eram pilotos; as mulheres, as “mocinhas bonitas” que serviam as pessoas. Era um sentimento contraditório aos meus ideais feministas.  


Após muita reflexão, percebi que o que eu queria mesmo era trabalhar em escritórios, mexer com computador e papéis. Eu queria ser executiva! Como não tive muitos modelos de mulheres assim em minha infância, principalmente pela televisão, o que mais se aproximava disso era a imagem de comissária de vôo. Esteticamente, elas parecem mulheres de negócios. Entretanto, a falta de modelos me impossibilitou sequer cogitar esse desejo.

Comissárias de vôo e mulheres de negócios: não são parecidas?
O problema não é escolher uma profissão subalterna. O problema é escolher algo porque se é homem ou mulher.
Quero deixar claro que de forma alguma desmereço a importância das professoras primárias, enfermeiras ou secretárias. Todas as ocupações são importantes e gozam de grande mérito. O que coloco em questão é que existe uma incontestável estereotipia sexual de profissões, e muitos homens e mulheres ainda escolhem suas carreiras em função de códigos sociais e estereótipos de gênero.
A própria profissão de comissário de vôo é um grande exemplo. É uma profissão tão sexualizada, no sentido de generizada (gendered), que até pouco tempo atrás era uma ocupação quase que exclusivamente feminina. Felizmente, a flexibilização das diferenças de gênero possibilitou que muitos homens adentrassem no ramo. Isso afetou até a denominação do cargo: passou a chamar-se “comissário (a) de vôo”, e não mais “aeromoça”.
O perigo da sexualização de profissões.
Muitas mulheres ainda não ousam enveredar pelas ciências exatas, mesmo tendo habilidade para tal, por não se sentirem pertencidas àquele universo predominantemente masculino. Muitas se contentam com o curso de Secretariado Executivo, quando na verdade poderiam ter sido grandes empresárias e gestoras. 
Em contrapartida, a educação dos meninos os afasta de ocupações com pouco prestígo social e baixa remuneração. A sociedade rechaça os homens que não correspondem ao ideal masculino de sucesso: rico e bem sucedido. Tendo isso em vista, muitos homens amam a arte, mas optam pela carreira de Direito que a família tanto espera. Muitos seguem infelizes na profissão de médico, pois na verdade desejavam ser biólogos. Outros tantos cursam Engenharia, mesmo sem talento algum, apenas em função da identificação de gênero (Parece brincadeira, mas muitos ainda seguem a lógica: “Sou homem. Logo, serei engenheiro”). 

Ser médico ou biólogo? O status social conferido pela profissão de médico certamente pesará na escolha dos homens.

Identificações e estereotipias de gênero sempre haverá. Todavia, o que espero é que sejam reduzidas ao máximo, especialmente no que tange às ocupações profissionais. Só assim não veremos mais o simples fato de ser homem ou mulher restringir escolhas, sobretudo as profissionais. Só assim não veremos mais sonhos impedidos, desejos reprimidos, habilidades inutilizadas e talentos desperdiçados.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Chega de mordomias!

         


          Fico indignada quando vejo casais em que a mulher não paga nada. Desde uma bola de sorvete até a prestação da casa, tudo é responsabilidade do homem em muitos relacionamentos. Todavia, esse protecionismo que a sociedade confere às mulheres não se restringe a isso. Elas usufruem de diversas mordomias aparentemente benéficas para elas mesmas em diversos outros contextos.

          Em casas noturnas, as mulheres pagam valor de entrada inferior ao dos homens, sem contar as entradas livres. Ao contrário de ser um privilégio para as mulheres, o é para os homens, já que a intenção é disponibilizar o maior número possível de raparigas no ambiente, para que assim os homens possam escolher à vontade, tal como fazem com frutas em frutarias. A legislação de divórcio permite à mulher usufruir de pensão do ex-marido, mesmo quando têm condições  para sustentar a si mesma. Inúmeros são os exemplos.

          E isso é ótimo, não? Claro que não. O que ingenuamente soa como um benefício para as mulheres e algo que as valoriza, só, ao contrário, as minimiza. São instrumentos que as mantêm na condição de inferioridade, que as infantilizam, que as isentam de responsabilidades e deveres, que as impedem de crescer.



          O homem ter o dever de pagar a conta do restaurante, consenso ainda irrefutável para muitas pessoas, é o exemplo clássico de um ato paternalista infantilizante visto como um ”ato de gentileza e educação do parceiro” sob os olhares do senso comum. Mas é, na verdade, um ato de manter a mulher – e todas as demais mulheres, conseqüentemente – na estagnação, na infantilidade, na privação do enfrentamento de deveres e responsabilidades.


          Qualquer ser humano só amadurece quando abandona a educação paternalista que o mantém sob os domínios de uma proteção excessiva. É como o ato de educar uma criança: para permitir que nossos filhos cresçam e amadureçam, precisamos incumbí-los de responsabilidades e privá-los de medidas protetoras demasiadas. Eles devem aprender a se vestir sozinhos, fazer a própria comida, arranjar um emprego, enfrentar o mercado de trabalho, sair para o mundo, andar com as próprias pernas. Sair da zona de conforto, enfim.

          Acobertado sob uma criação paternalista e superprotetora, ninguém vai a lugar algum. Todavia, é isto que ocorre com as mulheres, porém durante toda a vida, inclusive – e principalmente - na idade adulta. Elas são resguardadas de diversas responsabilidades, sobretudo as financeiras, sob o disfarce de polidez e gentileza. O que se resguarda, na verdade, é a possibilidade da mulher crescer e exercer sua cidadania plena. Direitos iguais também significam deveres iguais. Não há bônus sem ônus.

          Mulheres, saiam da zona de conforto. Paguem a conta do restaurante, dividam a prestação da casa, façam a baliza sozinhas sem passar o volante a um homem, vão vocês mesmas até o local onde precisam ir sem esperar que o homem seja seu motorista particular. Queiram direitos e, conseqüentemente, deveres. Não queiram mordomias.