quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Europe em São Paulo – o melhor show até agora



O dia 05 de novembro de 2010 ficará em minha memória para sempre porque foi o dia em que fui para São Paulo para assistir ao show do Europe. Foi uma apresentação única e pela primeira vez no Brasil desta magnífica banda de hard rock cujo trabalho é pouco conhecido até pelos amantes do gênero (eu mesma, que sou “farofeira” assumida desde os 12 anos de idade, só fui dar a devida atenção a eles há pouco mais de 3 anos). São deles algumas das músicas mais conhecidas deste planeta: “The Final Contdown” e “Carrie” (esta última, hoje, até virou música de supermercado), mas certamente as 3 décadas de carreira lhes garante inúmeros sucessos, muito melhores até do que estes dois clássicos que os consagraram.

Como adoro a banda, fiz alguns sacrifícios para ir vê-los: trabalhei no feriadão de finados para poder folgar na sexta, abri mão dos shows do Kip Winger, que seria em Ribeirão Preto, em outubro, e do Creedence, que aconteceria aqui em Curitiba em novembro. Mas isso não era nada em comparação com o que estava por vir.

Chegando em São Paulo ao meio-dia, enfrentamos o já esperado engarrafamento tipicamente paulistano. “É porque é hora do almoço”, pensamos. Uma hora e meia depois estávamos chegando no hotel. Depois dessa, prometi que nunca mais xingaria ninguém nos congestionamentos de 15 minutos (!) da Avenida das Torres às 07h30.

Tentando fugir do trânsito das 18h, saímos do hotel às 20h para chegar ao HSBC Brasil às 22h. Ficamos parados num congestionamento absurdo na Rua da Consolação (rua que, justamente por isso, proporciona qualquer sentimento, menos consolação) e no túnel Fernando Vieira de Melo até às 21h45. O mar de carros não tinha fim, e se às 21h45 ainda estávamos presos num túnel que ficava na metade do caminho, daríamos sorte se chegássemos para ver as últimas 3 músicas. Foi então que tomamos uma decisão muito porca, porém inevitável naquelas circunstâncias: fomos mais da metade do trajeto pela canaleta do ônibus (aquela cercada de enormes placas escrito “SÓ ÔNIBUS”). Foi apenas por causa disso que, mesmo enfrentando aquele congestionamento absurdo de 2 horas (para percorrer menos de 10 km) às 9 horas da noite, conseguimos chegar às 22h15. Cinco minutos depois o show começara. Muita sorte.

O que mais me chamou a atenção no show foi a quantidade – pequena, porém significativa – de mulheres. Aqui em Curitiba estou acostumada a ser sempre uma das únicas quinze mulheres nos shows, por isso estranhei ver cerca de 10% de público feminino. É claro que muitas não eram roqueiras e estavam ali só para acompanhar o namorado. A própria guria que estava na minha frente era uma dessas, e ficava me impedindo de ir mais para frente (embora ainda tivesse um espaço considerável para ocupar) porque, na visão dela, show não é lugar para pular, cantar e gritar junto. Era daquelas mulheres que saem de um show cheirando a sabonete. Como há algum tempo perdi a tolerância com mulher fresca e não meço mais as palavras – nem atitudes- quando acho necessário, falei bem alto, num intervalo entre músicas, na direção de seus ouvidos: “essas pagodeiras vêm aqui só para acompanhar o namorado....Nem conhecem a banda!”. Curiosamente, quando a banda voltou a tocar a próxima música, ela começou a dar uma “remexida” no corpo, fingindo que estava curtindo. É claro que não conseguiu fingir por mais de 30 segundos. Sua apatia perante o show conseguia fazer com que ela estivesse a poucos metros de uma das melhores bandas desse mundo, com cara de quem está assistindo novela. Com exceção dessas, havia sim algumas mulheres que estavam lá porque gostavam da banda, e que realmente conheciam as músicas. Elas cantavam junto e realmente sabiam as letras, não ficavam apenas balbuciando qualquer coisa como a maioria das pessoas faz quando tem que cantar o Hino Nacional.

Essa é uma questão relevante porque tem tudo a ver com as questões de gênero que discuto. A escassez de mulheres roqueiras – ou alternativas, em linhas gerais- tem tudo a ver com a questão cultural da feminilidade. A imbecilização provocada na população em geral (em peso propiciada pela mídia) aparentemente tem seus efeitos mais devastadores nas mulheres, as quais passam a acreditar que, para serem femininas, tem que ouvir axé, só usar roupa de academia (para qualquer situação), ser fútil, fresca, bonequinha de luxo (ou inflável, no caso das siliconadas). Essa relação da música com a identidade de gênero, aliás, rende assunto para um texto só sobre isso, e certamente o farei mais adiante.

A maioria absoluta ainda era homem, obviamente. Mas foi o show de rock com o maior número de mulheres que já vi. A dúvida que me ficou, foi: as mulheres se atraem pelo Europe por causa da romântica “Carrie”, ou as paulistanas são menos pagodeiras/sertanejas/frescas/odiaboaquatro que as curitibanas e por isso estão em maior peso no cenário rock? Acho que é um misto dos dois, mas acredito muito na segunda hipótese.

Apesar dos percalços que tornaram minha viagem semelhante ao filme “Detroit Rock City” (filme que mostra a aventura de um grupo de adolescentes para assistir a um show do Kiss), certamente valeu muito a pena. A sonoridade perfeita, o profissionalismo da banda, a potência de voz, o carisma (e a beleza!) de Joey Tempest superam qualquer coisa. Não me arrependo de um minuto sequer que levei para vê-los, tampouco das multas que provavelmente estarão chegando em minha residência em breve. Mas espero que eles passem por Curitiba da próxima vez, pois só enfrentarei São Paulo e seu trânsito caótico novamente se for pelo Gary Moore. Afinal, “é Deus no Céu e Gary Moore na Terra”.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

03/10/2010: Dia de se vestir de palhaço


Diante da enorme palhaçada que se tornaram as eleições de 2010, pensei que nada seria mais digno do que ir votar com nariz de palhaço. Se o eleitor é feito de palhaço, chega a ser uma questão de honra ir vestido à caráter.


As pessoas reagiram de formas diversas: muitos elogiaram a atitude, fizeram gestos de aprovação e comentários acolhedores. Alguns até pediram um nariz de palhaço (como eu tinha no bolso mais alguns, dei). Muitos apenas olhavam com um sorriso afável, expressando claramente no olhar que pensavam consigo mesmos que era assim que gostariam de ter saído de casa, mas lhes faltava coragem. Outros tantos olhavam e fingiam que nada estava acontecendo (e não é difícil deduzir que é também dessa forma que eles reagem a qualquer outra coisa).


É claro que sempre tivemos motivo de sobra para nos sentirmos palhaços em todas as demais eleições que já se passaram, já que a falta de ética e seriedade política são problemas que afligem o país por toda sua história, a começar pela época da colonização. Mas esta eleição, que deu voz à Tiririca (e agora não apenas voz, mas o cargo de Deputado Federal), Mulheres-Fruta e demais apelações estúpidas ao ridículo, foi demais. De qualquer forma, para mim já é absurdo o próprio fato de existirem “mulheres-fruta” (ícones do machismo tal como ele se expressa atualmente) ou um Tiririca (ícone da música brega-alienante fortemente amparada pela grande mídia).


Os que votaram no Tiririca certamente o fizeram por protesto. Mas são tão imbecis que não percebem que esse é um tipo de protesto que piora as coisas ainda mais. É claro que não defendo que devemos votar nos playboys de “família com carreira política” (para muitos, esse fator é um motivador de voto, por incrível que pareça). Mas não existem apenas os 2 extremos “Tiririca X Fernando filhodaputa Carli Filho”. Existem muitos candidatos bons que querem fazer mudanças positivas e que encaram a candidatura com seriedade. São poucos, certamente, e justo estes não fazem campanhas milionárias que os evidenciam, mas é só saber procurar. É ir atrás das propostas, é debater com conhecidos. Certamente haverá um candidato com cujas propostas nos identificaremos.


Sou totalmente a favor de protestos. Mas sou contra protestos imbecis, que não levam a lugar nenhum e, pior, conseguem piorar a situação. Muitos poderão alegarão que ir votar com nariz de palhaço é um protesto imbecil que não leva a lugar nenhum. Leva, sim. Leva as pessoas a verem que não podemos ficar reclamando apenas com nossos vizinhos. Leva as pessoas a verem que devemos dar nossa opinião sem medo e sem vergonha. Leva as pessoas a verem que, para conquistar qualquer coisa para a coletividade, devemos deixar de lado nossas ansiedades e medos individuais. Para conquistar algo pela coletividade, devemos pensar como coletividade, mesmo que isso signifique “pagar mico”, “ser abordado pela polícia” ou qualquer outra coisa que aflija apenas o “eu”.


Mas em tempos de extrema individualidade, isso soa como utopia. Em tempos de egocentrismo doentio, de supremacia da vaidade, de egoísmo exacerbado, de preocupação com “o que é divertido para mim”, independente do fato de que essa diversão por vezes seja um arsenal de valores e hábitos prejudiciais à sociedade, dentre outras coisas, propor que as pessoas levantem a bunda da cadeira para tomar uma atitude em relação a algo que vai além de seus próprios umbigos, soa como piada.


Muitos se alegram com o fato de que vivemos uma democracia e que o povo tem o direito de votar em quem quiser, entusiasmando-se por essa ser, supostamente, uma situação melhor do que a de muitas outras nações. Mas pouco adianta gozar de democracia se a população não sabe escolher, não sabe protestar. E se não sabem escolher ou protestar, muito é porque não foram ensinados a isso. Pelo contrário. Somos ensinados a aceitar tudo, a agir passivamente, a sermos padronizados para nos adequarmos ao que esperam de nós, a acreditar que “nada podemos fazer”.


Tiririca alega que “pior que está, não fica”. Como boa pessimista – e realista - que sou, garanto que fica pior, sim. E já ficou.

sábado, 21 de agosto de 2010

Jeff Blades e Tommy Shaw: por pouco se safaram do sertanejo

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Confiram estes vídeos recentes do Jeff Blades e Tommy Shaw (membros do antigo Damn Yankees) tocando “High Enough”, e do Nelson Brothers cantando “Love and Affection”. As versões originais datam de meados dos anos 80/início dos 90 e são mais “pesadas” do que estas, já que nestes vídeos a reprodução é apenas na voz e violão.


Notem como, nessa forma de interpretação, as duas versões soam ao estilo sertanejo. Os refrões com notas altas, o esquema de terça e até o manejo dos vibratos gozam de uma similaridade inegável com a forma de cantar de nossas duplas sertanejas (além, claro, da semelhança inquestionável – e não coincidente- entre os vocais de Nelson Brothers com Bon Jovi!).


A questão que coloco, e que me angustia, é a seguinte: se esses caras fossem brasileiros, estariam no mesmo ramo de atuação de Edson e Hudson, Rick e Renner e afins. Ao contrário disto, como estão em outro contexto, tiveram a chance de casar seus belos timbres e invejáveis extensões vocais ao rock, ajustando tais elementos aos enérgicos arranjos de guitarra e bateria.

Isso me angustia por dois motivos. O primeiro tem a ver com a indústria fonográfica brasileira, que promove apenas o que é passível de ser enlatado e comercializado pela massa. Tendo isso em vista, muitos bons artistas ficam à deriva no mundo musical, pois não conseguem o apoio das gravadoras que, respondendo ao poder de uma indústria fonográfica tendenciosa e imbecilizante, rejeitam tudo aquilo que não se enquadre nos padrões exigidos por esta. Tal postura ainda é revoltantemente justificada pela mentira de que “é isso o que o povo quer ouvir”, como se a relação de causa e efeito fosse esta e não a contrária, ou seja, a de que “o povo acredita que é isso que quer ouvir porque são essas as (faltas de) opções dadas a eles”. É uma indústria composta por pessoas que trabalham pelo marketing, e não pela arte. O resultado é desanimador: artistas como Alexandre Pires, Bello, Calcinha Preta, Ivete Sangalo, Banda Calypso, Latino, dentre outras porcarias, imperando como as referências musicais da maioria da população. Pior ainda: NX Zero, Pitty e afins como referências de rock (?!).


Não é à toa que todos os bons músicos dos quais já ouvi falar foram para outro país tentar uma carreira musical sólida. O maior exemplo disso é o Rafael Moreira, um guitarrista paranaense (que orgulho!) que foi para os EUA e gravou até com o Paul Stanley (!!). Se ele permanecesse no Brasil, quem sabe conseguisse um contrato com o Bruno & Marrone ou qualquer dupla sertaneja, em que os instrumentistas ficam lá atrás, tocando escondidos no escuro, enquanto os mato-grossenses ficam ali na frente, cantando (ou fingindo que estão cantando, no caso do Marrone) sob os holofotes e grites histéricos dos fãs que deles facilmente esquecerão tão logo parem de tocar nas rádios. Ou talvez ainda permanecesse na realidade dos demais bons músicos que temos aqui: conquistar, no máximo, o posto de atração principal das casas noturnas nos sábados à noite.


Como a esmagadora maioria das pessoas é massa de manobra e esse comportamento, conseqüentemente, estende-se à música e ao gosto musical delas, elas compram o que quer que seja esse “produto” musical que está sendo vendido a elas. E é aí que entra o segundo motivo que me angustia. As pessoas vão ouvir aquilo que as facilita fazer parte de um grupinho (de idiotas, claro). Que graça tem uma pessoa que, quando lista seus artistas prediletos, deixa os outros com cara de paisagem diante de tantos nomes nada familiares? Para ser mais aceito no grupo, ser mais passível de identificação com os outros, ser chamado para as “baladinhas” e shows de artistas que estão fazendo o maior “S-U-C-E-S-S-O, amigaaa!”, você tem que seguir a onda – ouvir sertanejo, pagode, funk, ou seja lá qual lixo esteja na moda no momento e faça você se sentir super “in”.


Essa postura, por sua vez, reforça os mecanismos da indústria fonográfica para criar tal experimento de pessoas alienadas e imbecis, das quais qualidades como senso crítico e originalidade já se dissociaram há um bom tempo. É um ciclo vicioso: a indústria fonográfica - juntamente com sua grande aliada para a perpetuação de comportamentos patéticos, a grande mídia – imbeciliza as pessoas. As pessoas, em estado de imbecilidade, reforçam essa indústria que as deixou imbecis (comprando CD’s em cujas capas tem-se mais exploração sexual da mulher do que qualquer referência à música propriamente dita; mudando de gosto musical em função do que está em voga no momento; se interessando tão somente por aquilo que está na grande mídia; tolerando e, no pior dos casos, promovendo verdadeiras aberrações que ousam classificar como música, etc).


Certo dia encontrei o orkut de uma conhecida. No campo música, ela escreveu: “Sou muito eclética”- como se isso fosse uma virtude e não falta de personalidade -, “gosto de tudo um pouco. Mas no momento estou gamada em sertanejo”. Ora, é claro que no momento ela está gamada em sertanejo, afinal, no momento, e nada coincidentemente, sertanejo é o que está na moda. Há uns 12 anos, quando a moda era ouvir pagode, eu tenho certeza, plena convicção, mas boto minha mão no fogo mesmo, que ela dizia: “Sou muito eclética, gosto de tudo um pouco. Mas no momento estou ouvindo pagode”. Assim como ela devia fazer quando a moda era ouvir reggae (lembram no ano de 2000 e 2001, em que todo mundo ouvia Dazaranha e afins, se fantasiavam à caráter diariamente com roupas de “surfistinha” e até brincos de pena?!). É pertinente lembrar-vos ainda que, quando o sertanejo carregava consigo o estereótipo de "música de diarista", nenhuma adolescente de classe média se interessava pelo estilo. Mas é só coincidência, né?!


O que me preocupa é que sei que dá para contar nos dedos a quantidade de pessoas que não são como ela. A esmagadora maioria das pessoas pensa exatamente como ela. Dessa forma mesmo, bem caricaturizada. E pior: realmente acreditam que suas escolhas são genuinamente individuais, que estão ouvindo determinada coisa pura e simplesmente porque apreciam e que estão sempre ouvindo justamente o que está na moda “por coincidência mesmo”.


Agora questiono: se as pessoas são assim com seu gosto musical, que é algo tão peculiar de cada um, imaginem com o resto. Se permitem padronizar até o gosto musical, que é algo tão sinceramente intrínseco a cada um, tão elementar de nossa individualidade, imaginem como reagem a temas mais complexos. A postura da sociedade em relação à música é apenas mais um fragmento de sua postura em relação aos demais temas e contextos que norteiam nossa vida em grupo. Estes temas e contextos, aliás, são os que venho discutindo em meus textos.


A teoria que defendo é a de que as pessoas ouvem qualquer lixo porque não têm referências musicais. O que não tocou no Faustão ou não virou trilha sonora de novela é considerado alternativo. Como nunca foram apresentadas a coisas boas, não foram acostumadas a apreciar música (sim, música deve ser apreciada, e não apenas ouvida). Isso, como já defendi, é culpa da grande mídia e da indústria fonográfica que ganham muito (muito me$$$mo) em manter o povo na resignação e ignorância cultural.

Mas também não vitimizo as pessoas. Existem outros meios à disposição das pessoas para sair da dormência cultural (quer meio melhor para se aprofundar musicalmente do que a internet?!),basta ir atrás. Mas sair da superficialidade e da padronização tem um preço: custa ser crítico, custa sentir angústia em relação a certas coisas (se “a ignorância é uma bênção” por não trazer sofrimento, o senso crítico causa muito sofrimento aos os que têm olhos mais apurados), custa não se permitir influenciar, custa tomar atitudes com consciência e não apenas “para se divertir”. Custa, principalmente, ser diferente. E, para a maioria, esse preço é alto demais.


Certamente haverá aqueles leitores que, não convencidos da magnitude da mediocridade humana, alegarão que “grande parte da população brasileira é pobre e tem como única forma de entretenimento a televisão (quando tem)”, justificando-se, então, os repertórios tão limitados. Acontece que a questão que coloco transcende as estruturas de classes sociais. Quem está ouvindo funk, sertanejo, “bunda music” em geral, são os playboyzinhos de Audi A3, as estudantes de Medicina de universidades particulares, as adolescentes que torram suas gordas mesadas no shopping, dentre outros exemplos elucidativos.

Vivo o privilégio de me permitir ser diferente, me permitir respeitar a minha individualidade e meu gosto musical sinceramente verdadeiro, sem medo da diferença e de não atender aos padrões que me são exigidos. A sensação de adequação consigo mesmo não tem preço e é infinitamente mais gratificante do que poder trocar CD’s com qualquer um ou ser chamada para as festinhas populares. Graças a pessoas assim, pelo menos em alguns lugares um dia houve – e ainda há, embora de forma bem mais restrita – espaço para músicos excelentes como Tommy Shaw e Jeff Blades fazerem sua música sincera. Graças a pessoas assim, eles não precisaram se tornar cantores sertanejos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A escassez de (bons) formadores de opinião na mídia


É fato que, pelo menos no Brasil, a televisão é a maior formadora de opinião da sociedade. Em nosso país, via de regra, as pessoas se apropriam do mundo (e com esse conceito me refiro à construção dos valores, opiniões, gostos, padrões de comportamento, etc) pelo que assimilam através da televisão. Isso não é, em tese, necessariamente ruim, já que a televisão pode sim –quando interessa aos grupos de poder que controlam a mídia- ser usada como um instrumento para intelectualizar, conscientizar e agregar valor à população. O problema é que, na prática, o que acontece é justamente o oposto disso.


Estou ciente de que isso acontece em outros países também, seja em maior ou menor grau, e até nos mais desenvolvidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe um canal chamado VH1, que é transmitido pela NET. Devo admitir que fiquei bem consternada com certos programas que eles veiculam que se assemelham muito com programas decadentes e apelativos que temos aqui. A despeito disso, até mesmo neste canal (que é demasiadamente nauseante pelo motivo que citei acima), são veiculados programas que, por mais simples que sejam, conseguem ser infinitamente superiores às melhores atrações brasileiras, principalmente no que se refere à música. Já assisti, neste canal, alguns programas de música tão bons que até eu, que, modéstia à parte, conheço muito de música, descobri novas bandas excelentes que até então não conhecia.


Aqui no Brasil, em contrapartida, é sempre aquela mesmice padronizada. Os mesmos estilos de música sendo veiculados, a “bundalização” de tudo, os atorezinhos todos idênticos (na forma de atuar, no tipo físico e nas opiniões) que só o nome muda, a mesma “rasgação de seda” em cima de todo mundo, todos sempre concordando com tudo, tudo sempre ”está sendo uma experiência maravilhosa”, e blá blá blá. Ninguém diz algo diferente, ninguém pensa diferente, ninguém se posiciona de maneira diferente aos demais sobre o que quer que seja. Algumas declarações, pior do que serem neutras, chegam a ser negativas. Darei aqui alguns exemplos.


Certo dia, há uns 3 meses, vi que estava passando “K9”, aquele filme do cachorro do James Belushi. Alegre, precipitei inocentemente o seguinte pensamento: “que legal, então o mundo ainda não está tão perdido assim, as crianças ainda podem ver televisão sábado à tarde. Se tiver uma criança assistindo televisão agora, está presenciando um raro momento de entretenimento sadio e inocente, avesso aos habituais lixos irresponsáveis e gratuitamente sexualizantes”. Ironicamente, no intervalo do filme apareceu uma vinheta do Big Bosta Brasil (isso mesmo que você leu: Big BOSTA Brasil) e uma repórter perguntou ao Rubinho Barrichello o que ele tinha achado de sua visita à zona. Ops, desculpem o ato falho, quis dizer a casa.


Para não perder o costume de concordar com tudo e dizer que tudo é maravilhoso, ele respondeu: “Foi uma experiência maravilhosa” (!)- comecem a reparar como essa frase é incansavelmente repetida - "pois eu assisto o programa há tanto tempo que fiquei até emocionado de conhecer aquelas pessoas pessoalmente”. Eu levei alguns segundos para assimilar o fato de que o que eu acabara de ouvir tinha realmente acontecido. Olhem a gravidade dessa declaração: ele não só está afirmando implicitamente que assistir BBB é legal (o que já é suficientemente preocupante), como está declarando que o ato de conhecer pessoas que não contribuem em nada para a sociedade, que não tem compromisso algum com a intelectualidade e que ainda fazem qualquer coisa por dinheiro – qualquer coisa mesmo - são sujeitos tão virtuosos ao ponto de ser emocionante conhecê-los pessoalmente.


Outra declaração absurda (esta eu descobri em um blog) foi da Débora Secco. Ela aconselhou publicamente sua amiga Juliana Paes, que iria casar, a fazer o papel de esposa “direitinho”. Nas próprias palavras dela: "Sou antifeminista. Vou ficar no pé dela para ser fiel. Acho que mulher tem que saber o que tem para o almoço e, mesmo cansada, ir jantar com o cara. Em troca, eles levam o carro para consertar (...) Sou mulherzinha, gosto de ficar em casa, cozinhar, servir, agradar. Acho péssimo a igualdade entre os sexos. A gente só saiu perdendo, ficou sobrecarregada."

Acho que pior do que a apologia à figura de Amélia, foi a associação do feminismo com infidelidade. Tal associação só deve fazer algum sentido na cabeça de pessoas que aprenderam o que é feminismo assistindo “Casseta e Planeta” e, por conta disso, têm a seguinte visão estupidamente estereotipada da mulher feminista: feia, masculinizada, peluda e petista.


Outro elemento incoerente da declaração foi o da mulher estar sobrecarregada após a revolução feminista. Isso acontece, realmente, mas só é vivido pelas mulheres que tiveram seus papéis ampliados – agora também são profissionais, gestoras, empreendedoras, etc - mas que, paradoxalmente, continuam fundamentalmente machistas: trabalham fora, mas acham que o dever de cuidar da casa continua sendo só delas. Continuam achando que homem não precisa saber cozinhar, trocar a fralda do bebê, nem lavar suas próprias cuecas. A mulher que acredita que seu marido tem o direito de não fazer nenhum trabalho doméstico, já que “é homem”, certamente está muito sobrecarregada. Mas isso não é culpa do feminismo, como a atriz defende. É, ao contrário, culpa do machismo que continua enraizado. Os horizontes da mulher se ampliaram, mas é preciso reforçar que não foi só o papel da mulher que mudou. O papel social do homem não pode permanecer intacto e deve acompanhar essas mudanças.


Outra declaração inconsistente foi da Fernanda Young. Já a comentei aqui, mas a situação convém repeti-la, já que é um conceito compartilhado por muitas mulheres, principalmente da mídia. Defendendo o direito de posar nua, ela afirmou: "Queria fazer algo contrário da proibição, da burca. O erótico faz parte da liberdade feminina. Triste é o país que não permite a nudez da mulher".

O machismo e a imagem da mulher como objeto está presente em muitos comportamentos que as pessoas acreditam, equivocadamente, ser "liberdade sexual feminina". Uma cultura (como a brasileira, por exemplo) que defende o lema “posar nua como trabalho integrante e imprescindível do currículo profissional” é tão machista quanto uma cultura que impõe que a mulher não deve nem mostrar o rosto. Apesar de pregarem justamente o oposto uma da outra, compartilham o mesmo fundamento: ver o corpo feminino como mercadoria.


É claro que sou a favor da liberação sexual da mulher. Mas isso, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, é justamente conquistar o direito - e sobretudo, a consciência- de que nosso corpo não deve ser usado como instrumento para o sucesso. Muito do que se está pregando como "liberação sexual da mulher" (como a moda de posar nua como trabalho esperado no currículo profissional, como citei) é, justamente, objetificação da mulher. Nunca vi os homens precisarem posar nus para terem sua sexualidade respeitada, para se manterem na mídia ou para terem seu trabalho artístico reconhecido. Logo, não há motivo para acreditar que isso se configura como liberação sexual no caso das mulheres. Isso em nada pode ser libertador. Ao contrário: só aprisiona a mulher em sua condição de objeto consumível.


Outra declaração infeliz, que me foi informada por outra pessoa que estava assistindo MTV no momento, foi da VJ Kiká. Mostrando fotos da cantora Lily Allen, ela comentou: “podemos ver que ela tem uma barriguinha...”. Os outros VJ’s não só concordaram, como fomentaram a discussão em cima da “reprovável” saliência abdominal da moça. Isso foi bem preocupante, principalmente levando-se em consideração que o canal é assistido majoritariamente por adolescentes, ou seja, pessoas que estão passando pelo momento da vida em que são construídos os valores e é formada a identidade. Esse comentário, aliás, confirma o que mencionei em meu texto “Geração anos 90”: vergonha, hoje, é estar acima do peso, ter uma barriguinha, ter seios pequenos, não ter um tênis de R$ 500,00. Escrever português errado, se orgulhar de nunca ter lido um livro, desrespeitar professores, dentre outras coisas execráveis, não causam vergonha.


Citei poucas declarações (até porque não assisto televisão e não leio revistas sobre famosos, então não estou colecionando declarações de celebridades), mas acredito que elas tenham sido suficientes para o leitor ter uma noção do que quero dizer. Além disso, as frases que citei se referem apenas ao temas que este blog abarca. Imaginem, então, se considerarmos a falta de bons formadores de opinião em outros aspectos, como política, economia, meio ambiente, sistema educacional, etc. Também há que se considerar o fato de que estou levando em consideração apenas as declarações verbalmente explícitas. Se eu estivesse me referindo a atitudes (pois atitudes são o espelho dos valores da pessoa e, portanto, comunicam opiniões tanto quanto os discursos), a lista ficaria exponencialmente maior.


Pouquíssimos, dentre os que estão na mídia, pensam diferente. E dentre os já poucos que têm opiniões transgressoras sobre alguma coisa, raros são os que as expõem. Por medo. Medo de não mais ser chamado para dar entrevista no Domingão do Faustão, medo de não mais estampar a capa da Revista Caras, medo de se indispor com as colegas do elenco da novela, medo de perder fãs. Medo, portanto, de fazer a diferença.


Nunca ouvi ninguém na mídia fazendo uma declaração acertada sobre feminismo ou abordando devidamente questões que deveriam ser relevantes; nunca ouvi falar de ninguém que publicamente respondeu “eu não assisto essa porcaria” à repugnante e habitual pergunta “quem você acha que vai para o paredão essa semana?”; nunca vi ninguém criticar a atitude de ninguém, por mais reprovável que tenha sido tal atitude; nunca ouvi ninguém declarando que musicalmente gosta de algo que seja substancialmente diferente do repertório da trilha sonora da novela em exibição no momento; nunca soube de ninguém que se recusou a se apresentar em algum programa escroto de auditório por não simpatizar com o conteúdo do mesmo; nunca soube de ninguém que declarou não gostar de funk (pelos motivos que deveriam ser óbvios, como sexualização infantil,incentivo à pedofilia, apologia ao tráfico de drogas, etc); nunca vi ninguém se declarar contra o uso de peles de animais e trazer esse assunto seríssimo à tona; nunca ouvi uma sequer pessoa recriminando os que jogam lixo no chão; nunca ouvi ninguém no showbiz se manifestar contra apelação sexual na televisão, ditadura da beleza, imposição nazista do silicone (sim, essa moda é fundamentalmente igual ao ideário de raça ariana do nazismo), etc. Aliás, minto. Carolina Dieckmann se posicionava contra a moda imposta do silicone, mas ela mesma colocou próteses há poucos meses.


No Brasil impera a paspalhice, ou seja, uma tendência de não questionar nada, de não discordar de nada e, sobretudo, de não tomar atitudes transgressoras em relação à nada. Como o princípio “a televisão imita a vida real” se inverteu há algum tempo (hoje a vida real é que imita a televisão), não é difícil intuir que o que as pessoas na mídia estão promovendo – nada além de conceitos equivocados, futilidades, idéias, gostos e comportamentos padronizados- é o que está se dissipando dentre a sociedade em geral que, como comentei, tem na televisão sua maior fonte de formação de opinião. Se a esmagadora maioria da população ouve as mesmas músicas, pensa e se comporta de forma mediocremente semelhante, é porque ninguém está ensinando a ser crítico, não há referências para agir e pensar de modo diferente. Todos que estão expostos na grande mídia em geral (televisão, revistas, jornais) são formadores de opinião. O que está em falta, porém, são pessoas que comecem a exercer esse papel de forma positiva.


Para concluir minha explanação de uma forma otimista, cito, como alguns dos pouquíssimos formadores de opinião crítica, Pedro Cardoso (lembram da polêmica que ele causou ao denunciar a nudez desnecessária que os diretores, “perversamente”, segundo ele, exigiam das atrizes?), Lya Luft (ela aborda algumas questões que eu discuto, embora eu acredite que ela devesse fazê-lo mais incisivamente), Regis Tadeu (grande, coerentíssimo e destemido crítico musical), Lobão (critica publicamente muitas políticas governamentais e é assumidamente contra o jabá, e não tem medo de criticar nem mesmo seus colegas por sempre terem sido coniventes com essa prática) e Herbert Vianna (escreveu um poema espetacular sobre ditadura da beleza e inversão de valores). Estes são os que tenho em mente, mas não me perdoaria se tivesse esquecido de mencionar alguém do mesmo nível. Alguma sugestão?



quinta-feira, 29 de abril de 2010

A polêmica do vídeo "Baixaria na TV"

Tenho 2 vídeos postados no youtube. Um deles, que fala sobre a apelação sexual na TV e o uso da imagem da mulher como um objeto de consumo, está causando certo alvoroço perante as pessoas que não tem capacidade de enxergar o problema – tampouco a gravidade- do caso. Como o vídeo está recebendo muitas críticas, o mais viável a se fazer é respondê-las por aqui, onde não tenho limites de caracteres para escrever e onde posso, sobretudo, reiterar a mensagem do vídeo.


Eu poderia dar uma de imbecil e dizer que nem vou perder meu tempo rebatendo críticas tão medíocres, haja vista a superficialidade e ignorância dos comentários (e comentaristas). De fato, os argumentos – se é que posso chamá-los assim- são tão desprezíveis, que não sei o que é mais preocupante: as idéias (absurdas) defendidas ou os erros de português. A despeito disto, desejo e irei responder, mesmo que muitos considerem que estou “dando murro em ponta de faca”.


Para facilitar as argumentações, uni os comentários em categorias.


MORALISMO

Tmangia: moralismo na enésima potencia esse video. Sente-se inseguro de não ter controle dos filhos. Tens vontade de impô-los na sua projeção de conceitos pré-determinados, que, possivelmente possam machucar o próximo a mercê de interesses próprios?

Você construiu seu argumento a partir da premissa de que faço isso por meus filhos. Como não tenho filhos, o que fundamenta sua premissa de fato não existe. Logo, seu argumento não tem validade alguma.

Em segundo lugar: me chamar de moralista é justamente a postura que espero das pessoas que já perderam o senso crítico. Aliás, a mensagem principal do vídeo é mostrar que as pessoas não sabem mais diferenciar senso crítico de moralismo, e que é justamente devido a isso que tantos absurdos são banalizados. Você me chamar de moralista é um ótimo sinal, porque prova ser legítimo tudo que estou constatando, prova ser verdadeiro tudo o que eu disse no vídeo (ou seja, que senso crítico é confundido com moralismo). Ao me chamar de moralista, portanto, você está justamente confirmando minha teoria.


LIVRE-ARBÍTRIO

tmzzl5: Cada um tem o livre direito de escolher o que quer fazer da vida, ainda bem que essas idéias tradicionais não predominam na sociedade. Eu não assisto mais este tipo de programa mas acho muito bom a liberdade que a midia e as novas tecnologias trazem para a sociedade.

Liberdade? Que liberdade? O cara está tão mergulhado na alienação que realmente acredita que nossa mídia pretensiosa nos confere opções de escolha sobre alguma coisa.

fcfc12: ah! a culpa é da tevê?
não sabia.
Pensei que a culpa era nossa mesmo!
Eduque seu filho longe da tevê ou com o mínimo de tevê.
Já ouviu falar em livros.
Sexo é pra adultos.
Não seja moralista (não me diga que não é porque você é), somente faça o que você julga correto e não gaste energia criticando a tevê. A televisão não precisa de você!!!
!

Lobao5: É só a televisão do brasil que faz isso? kkkkkkkk

Olha, quem deixa os filhos assistirem é os próprios pais, as crianças devem assistir desenhos da tv cultura......

Deleo036: Vc e nem ninguem e obrigado a ligar a tv, e colokar no tv fama, programa do gugu, panico, ou qlqr outro programa citado no video.
No msm horario q esta passando o tv fama, na globo esta passando jornal nacional.
na msm hora do panico, na record passa domingo espetacular.
a tv possui diversas alternativas de entetrernimento c/ qualidade sem qlqr teor chulo q vc possa assistir sem problemas com seus filhos ou com qm vc quiser. Portanto axo q esse video e sem fundamento nenhum. Pura babaquice

jemusic12: aos comentarios só acho seguinte se voce odeia televisão arrume programas uteis para assistir e faça dela bom uso assim como computador com internet etc...

Max2009Foda: é muito simples, o livre arbítrio nos permite desligar a tv ou ler um livro, ou ainda escutar uma musica, ligar para um amigo...não necessariamente temos que assistir á esse monte de lixo....



Qualquer pessoa que tenha completado pelo menos a quinta-série deveria ter compreendido que essa é justamente a proposta que ofereci no vídeo: que podemos -e devemos- não dar ibope para esses programas, buscando outros programas ou até outras formas de entretenimento, e que está nas mãos de cada um fazer sua parte. Não construí uma imagem da mídia como sendo um ser transcendente e maligno que obriga os inocentes mortais a agirem ou pensarem de determinada forma. Defendi que ela é pretensiosa e prega valores aéticos - justamente por ser desenvolvida por pessoas e responder a uma estrutura de poder dominada também por pessoas-, mas que somos nós, telespectadores, que, assistindo a esses programas, sustentamos e reforçamos a cultura e os valores veiculados.

O argumento de que “tem outras coisas pra você ver ou fazer, então não há do que reclamar” é tão simplista que beira a lógica infantil. A questão não é se eu posso ver outras coisas, mas a questão é: isso existe, está lá, mesmo que eu não esteja assistindo. E se está sendo transmitido, mesmo que não para mim, isso já se configura como fundamento para debate. Minha intenção não é apenas excluir isso do “meu mundo”, mas do “mundo de outras pessoas” que provavelmente nunca refletiram sobre isso porque nada nem ninguém estimulou essa reflexão.




GENÉRICOS

alexandre7298: acorda bruna o brasil e assim desde o imperio.adoro uma puta........a mulher faz oq quer,mas aq vc com dinheiro tem tudo?sou nordestino e adoro a minha cidade joao pessoa.

Peço por favor para, no começo no post, me avisarem se tiverem retardo mental. No que ser nordestino e morar em João Pessoa é relevante para o assunto, exatamente? Me assusto de ver como a esmagadora maioria das pessoas não sabe interpretar textos. Deve ser conseqüência de tantas horas ocupadas com entretenimento barato.

“O Brasil é assim desde o Império” (tomei a liberdade de reescrever corretamente,ok?). Essa é a típica premissa que fundamenta toda e qualquer falta de ética, em qualquer contexto que seja: “foi sempre assim”. As pessoas nela firmadas são as que não se dão o trabalho de mudar nada (pior: reforçam as coisas erradas) já que “sempre foi assim mesmo”. Depois reclamam dos políticos.


TriplohX: Desligar a tv mesmo que é bom, nem pensar, né?????


Mas eu já desliguei minha televisão, sim. E faz tempo. Próxima sugestão, por favor.

maconherou: ZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzz........................
q tedio axa q vai mudar algo com esse vidiozinho patetico


Sim, realmente acho que vou mudar alguma coisa. E só pelo fato de você ter se dado o trabalho de deixar um comentário, é porque a mensagem do vídeo te afetou de alguma forma.

kabula1000: MANO IDAI???!!!?!??!?!? VAI ME DIZER QUE VC NUNCA BEIJO NA BOCA?? OU NUNCA QUIZ? A DA LISENÇA fii larga de ser gay anao ser se tu for pastor _!_ AQUI oOOOoo vai se lasca vc so deve ser gayzao entao se for assim i filho vai nascer viadao aff vai dar o ...

É difícil dar credibilidade a alguém cujo número de erros de português é maior do que o número de linhas escritas. E beijar na boca? Pastor gay?? Não é nem preciso tentar argumentar contra isso, creio que a publicação de seu comentário já é humilhação suficiente pra você.

Fortunatomurakami: hoje em dia muitas crianças tem brasileirinhas em casa kkkkkkkkkkk

E isso deveria ser engraçado?


merlinunos: eu acho que a mulher mostrando sua beleza e apreciar as coisas belas da vida.
exaltar as coisas bonitas e belas da vida. como chorao fala.
imagina um castelo com luiz. e o mesmo.
vamo botar algo util no programa mas deixa as mina ficar bonita.
fala de comida, eventos sociais cultura e tradicao com pessoas lindas na camera.
educacao agradavel.


Seu comentário é tão medíocre que as 3 primeiras linhas dariam perfeitamente uma letra de pagode.


Phernandustrong: Muita gente no nordeste nem tem dinheiro pra ver televisão menina.... Faz algo útil!
Se vc não gosta há quem goste né...

Eu por acaso sou contra vulgaridades tb... Mas acho que tenho muito mais com o que me preocupar, em criar bem a minha filha por exemplo, Alienados é que veem tv destrutiva...



Esse comentário é incrivelmente incoerente. Você se diz contra a vulgaridade e interessado em criar bem sua filha, mas não vê relação da apelação na televisão com educação, cidadania e ética. Pior: acha que isso é simplesmente uma questão de gosto (e deixa implícito em seu discurso que gosto não se discute, máxima esta que também é discutível).


E mais: discutir a influência da televisão é dispensável porque algumas pessoas nem a possuem? Deixa eu ver se eu entendi: então, seguindo sua lógica, se tem gente que nem tem carro, é perda de tempo discutir o efeito da emissão de gases poluentes pelos automóveis?

boucejour: Essa é só a sua opinião (Bruna)...
Mas o vídeo ficou bom...


Não, isso não é questão de opinião. É um fato.



INVEJA


Bachelo2: Vc ta com inveja pq é feia demais pra isso sua feminista babaca, não serve nem pra ser puta. Se mata.

TriplohX: Realmente são dois extremos: as pessoas que comercializam imagens erotizadas como se fosse o melhor que há na vida e as pessoas chatas e invejosas como vocês, se remoendo na própria impotência, sem compreender que tudo isto é consequencia direta da lei da oferta e da procura.


jrcarloswan: deve ser uma solteirona, com dor de cotuvelo

impactdvd: tem muita gente com dor de cotuvelo..ser gostosa não é pecado não..malhem..coloquem silicone..fiquem gostosas



Em primeiro lugar, acredito que vocês desejaram dizer COTOVELO.
Foi bom essa questão da inveja ter sido trazida à tona. Sempre quis escrever um texto sobre a relação da inveja com a propagação da cultura da mulher-objeto. Vou usar este espaço, então, para colocar no papel – ou melhor, na tela – minhas reflexões sobre isso. Sempre me foi uma incógnita compreender porque as mulheres pagam pau pras mulheres-objeto. Sim, as mulheres pagam pau pras mulheres-objeto.

Lembro que, quando eu era mais nova e viciada em Bon Jovi e Skid Row, comentar estes gostos soava como um pecado mortal aos ouvidos dos homens. O engraçado era que bandas como Cinderella e Motley Crue, por exemplo – para quem não conhece, elas seguem o mesmo estilo das mencionadas anteriormente- eram aceitas e até admiradas por essas mesmas pessoas. A questão era: os homens rechaçavam as bandas cujos vocalistas eram bonitões.

Os homens mostram profundo desconforto quando outros homens se colocam como meros objetos sexuais. As mulheres, em contrapartida, não só aceitam as mulheres que se portam como objetos como, pior que isso, ainda “pagam pau” para elas. Eu realmente acho surpreende como mulheres como Tiazinhas, Feiticeiras, Carlas Perez, etc, têm fãs do sexo feminino. E o motivo principal para as mulheres pagarem pau pras mulheres-objetos é que, se não o fizerem – e, pior, se as criticarem- serão chamadas de invejosas. E ser invejosa é o mesmo que assinar seu atestado de incompetente, feia e burra. Como nenhuma mulher quer passar essa imagem, elas acreditam que não podem ser contra as “mulheres-bunda”. Simpatizar com as “mulheres-bunda” é, na cabeça delas, uma forma de mostrar que não as invejam, o que, por sua vez, significa dizer “tenho boa auto-estima”, “eu também sou bonita”, etc. (Também há o fator sociológico fortemente enraizado nessa problemática. Podemos ver isso como uma das facetas mais marcantes da dominação: o indivíduo não enxerga os instrumentos simbólicos utilizados para manter sua dominação. Como não enxerga o poder de tais instrumentos e discursos sobre sua condição, os reproduz, reforçando, assim, a estrutura de dominação da qual é alvo).

Eu, diferentemente da maioria das mulheres, não tenho medo de passar por “invejosa”. Em primeiro lugar porque sei que o que sinto por essas mulheres-objeto pode ser qualquer coisa menos inveja e, segundo, porque também sei que “inveja” se tornou mais um argumento das pessoas medíocres. Se você criticar qualquer pessoa é “porque tem inveja”; se não vai com a cara de alguém, é “porque tem inveja”; se não cumprimentou alguém, é “porque tem inveja”. Por favor, renovem o repertório de argumentos, “inveja” já está batido demais.


"VOCÊ É GAY"

domingosmcz: Ou você é gay, por ter se dado ao trabalho de colocar foto de homem na foto, ou é mais tarado que qualquer um, pq nem eu tenho esse acervo de fotos de mulher gostosa. Alem de tudo vc deve ser feio pra caralho, por isso nao pega ninguem e é desocupado ao ponto de criar uma porcaria de video desse.

osaminhabr: tudo bem, vc é gay. -_-

carlosvolcanoes: Saiu do armario

carlosvolcanoes: Demorou para sair do armario,heimmm.

sergioemichael: fala verdade tu é gay não é ?

icarusnew: COM CERTEZA O CARA QUE FEZ ESTE VÍDEO É VIADO ! o.O !

manodelima10: Viado !!!!!!!!!!!


A cultura brasileira é uma daqueles em que o cara tem que provar que é “macho” a todo custo. E faço questão de usar o termo “macho” para evidenciar a primitividade animalesca disso. Da mesma forma, as mulheres lutam para se afirmarem como meras fêmeas: ser mulher, para a esmagadora maioria, é ter peito e bunda. Ironicamente, ao mesmo tempo o povo sustenta discursos narcisicamente antropocêntricos, e como se fôssemos realmente uma grande evolução dos animais.

E, claro, para mostrar que se é homem – ou melhor, macho- tem que tratar mulher que nem pedaço de carne. O cara que demonstra algum sentimento mais genuíno por uma mulher, que não gosta de mulher vulgar, que não gosta de mulher fútil, que não fica com qualquer mocréia só porque “é uma mulher”, é "bicha-viado-gay-fiádaputa-cuzão".


HIPOCRISIA


galmonis: se não gosta naum assiste é simples, se sabe o conteudo é pq vê então deixa de ser hipocrita e seu ou sua idiota

Gilleskhan: voces são mto hipócritas. essa bruna sabe mais dessas "baixarias" do que eu. trabalho o dia todo, estudo, chego em casa, vejo um ou dois programas. voce parece ser especialista em caçar baixaria. que piada !

seanoreillybr: Ridículo! A Baixaria, se é q isso é essa baixaria toda, tem que ser as escondidas! Viva a hipocrisia!


Acho que tem gente que não sabe o significado da palavra hipocrisia. Hipócrita é quem acha que vai entrar neste vídeo pra bater punheta, aí leva uma invertida com a mensagem do vídeo e fica revoltadinho.

E mais: são tão cretinamente machistas que acham lindo ver as mulheres como mero objeto, mas ficariam amargamente desconfortáveis se suas filhas ou irmãs seguissem o mesmo caminho que elas seguiram.



“VAI SE FODER” E AFINS

Kinholoko: achei q eu ia ver putaria
vao se foder seus moralistas

RafaelReVs: Vai da pro capeta . . .

checkmattebanda: a vai da o rabo crente do caralho

byono: ah.. deixa de papo furado!!! 100% CABARÉ!!!

dieguinho152: Vai Se Fuder Sua Arrombada!!!!!

76469830: Man Essa mina NAo mete ?VAi mete o frerinha --`

dimi732: vao tudo toma no cu... deixa a gente oq quisé ... sexo eh Bom pra caralho.... foda-se oq vc pensa.. ^^

wellljr: ahhh deliciaaa, viuu viva a putariaaaaaaaaaaaa


sanseg: crente

euridovideoXD: vai tomar no cu

vasco123s: sexo na tv!!!!!!
kkkkkkkkkkk
tem q mostrar as puta mesmo!!!uhauah

095847: porra véio tu é chato pa caralho!
eu só quero é bater minha punheta, tchê.



Obrigada por servirem de exemplo do quão medíocres são as pessoas que gostam desses lixos. Meu texto não teria sido o mesmo sem a contribuição de vocês.




CULPA DA MULHER


cudeporco360: ninguém nem nada idiotiza a mulher ela se auto idiotiza

Herege1000: Elas que não se dão o respeito. Andam seminuas nas ruas. Aconselhe-as a serem decentes pra vc receber um sonoro desaforo como resposta.

Herege1000: E por que elas aceitam isso?
Elas aceitam porque querem e porque gostam!


Devo admitir que essas críticas foram as mais sensatas. Concordo no sentido de não vitimizar as mulheres mas, ao contrário, colocá-las no papel de atrizes mantenedoras e reforçadoras desse cenário cultural que as reduz a um mero corpo. Quem leu meus textos anteriores, aliás, sabe que minha postura consiste justamente em não vitimizar as pessoas, tampouco as mulheres.

Nas conversas sobre essa imagem da mulher na mídia, já ouvi diversas vezes: “mas essas mulheres estão lá porque querem, ninguém as obriga”. Novamente, a questão não é essa. E esse argumento é apenas uma forma proposital – ou ingênua mesmo – para não adentrar na questão-chave: o fato de que as mulheres estão tão alienadas por um paradigma que as reduz a um mero par de peitos cuja existência se justifica na função de servir sexualmente aos homens, que acreditam, elas mesmas, que se resumir a esse papel é virtuoso. Ou seja, não é necessário obrigá-las a se colocar neste papel. A alienação está tão arraigada que elas realmente acreditam que esse é o ápice da realização de uma mulher. Sendo assim, pouco importa se elas estão ali porque são obrigadas ou porque querem, pois o fato de elas “estarem lá porque querem” é apenas a conseqüência do contexto, e não a causa.


Gostaria de concluir com a seguinte idéia: Acho que qualquer um percebe o quão medíocres são as pessoas que depreciaram o vídeo. No entanto, sei que também há pessoas razoavelmente sensatas que gostam ou que acham pelo menos “normal” a situação decadente de nossos entretenimentos midiáticos. E é a essas pessoas que farei um apelo: vocês, ao fazerem “vista grossa” para a situação de nossa televisão, estão no mesmo “time” dos comentaristas que mostrei aqui. E, acredito eu, para pessoas que têm ao menos um pingo de intelectualidade, isso deveria ser angustiante.

Eu consigo conviver com a derrota de não conseguir “iluminar” (no sentido de fazer refletir) uma pessoa cujo estado de profunda ignorância já extirpou qualquer resquício de capacidade reflexiva sobre o que quer que seja (neste caso da televisão, essas seriam as pessoas que, quando incitadas sobre os questionamentos propostos pelo vídeo, dizem: “ah, vai se foder!”). Mas eu não consigo conviver com a derrota de não conseguir “iluminar” as pessoas que têm capacidade de compreender os questionamentos propostos, mas que só não o fizeram ainda por falta de estímulo (seriam as pessoas que até sentem um desconforto com as imagens mostradas no vídeo, mas assistem programas como BBB, Pânico na TV e afins, seja porque já se acostumaram, seja por qualquer outro motivo).

Fazer a diferença, portanto, está nas mãos dos que ainda tem a capacidade de construir posicionamentos críticos. Em outras palavras, dos que têm a capacidade de experienciar a angústia (são os que entendem o vídeo e, conseqüentemente, se conscientizam da seriedade do caso). É a esses que eu falo e escrevo. São esses que têm o poder da mudança. Se você for um desses, pense nisso.


Link do vídeo no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=C7-cM0cS0d4

ou veja o vídeo aqui (é o 2o vídeo da postagem).

quarta-feira, 17 de março de 2010

O rock n'roll de Guns n' Roses: só falta tocar no Faustão

Semana passada vi uma reportagem – cujo título me fez rir, aliás - sobre o “bolo” que o Axl Rose deu em seu próprio show no Rio de Janeiro. Isso mesmo, ele não foi ao próprio show. “Tinha que ser o Axl mesmo”, eu pensei. Como o título me chamou atenção, cliquei no link para ler a notícia inteira.


O show seria uma apresentação reservada para um público selecionado. Tal meu espanto: essas pessoas selecionadas (abaixo seguem as fotos) eram as pseudocelebridades que compõem o antro de narcisismo e futilidade da mídia televisiva atual (atorezinhos medíocres, modelos, apresentadores de programas de terceira categoria, namoradas de sei lá qual galãzinho da Malhação, cantores sem talento que só emplacam sucessos porque seus pais conhecem os donos das gravadoras, dançarinas de programas pavorosos como Caldeirão do Huck, etc). Ou seja, esse povinho escroto que não entende porcaria nenhuma de música – muito menos de rock- e que, pior ainda, 1 (um!) mês atrás estava dançando loucamente no Carnaval. E todos sabem – ou deveriam saber – que Carnaval não combina em nada com rock n’roll.


Para mim, como roqueira, isso provoca um sentimento de derrota irremediável. Apesar de que hoje não tenho costume de ouvir Guns n’Roses, ouvi muito essa banda na minha adolescência, e ainda guardo carinhosamente minha coleção discográfica – incompleta por causa de 1 CD apenas!- por essa banda ter marcado tanto uma época – para a música em geral e, especialmente, para mim.


Guns n’Roses é uma banda muito conhecida, mesmo no meio dos que não curtem rock. E isso tem seu lado negativo porque propicia o surgimento daquelas pessoas que dizem ser fã deles só porque gostam de “Sweet Child O’Mine”.Vendo por esse lado, eu poderia até compreender – aceitar, nunca! - a popularização do show até entre os carnavalescos, pagodeiros, sertanejos, axézeiros, funkeiros, ou seja lá com qual outro lixo essas pessoas se associam só por estar na moda. Compreender essa popularização, no entanto, não elimina o fato de que doeu demais ver aquelas pessoas (que há 1 mês estavam desfilando seus egos no sambódromo) num show clássico de rock só para tirar fotos para a Revista Caras.


Mas talvez o ápice do momento “nó na garganta” foi quando li que quem abriria o show seria o Sebastian Bach. Pô, logo o Sebastian! Skid Row foi minha banda preferida durante muitos anos e eu nunca tive sequer a oportunidade de vê-los...E esses bibelôs nem sabem quem ele é! Nos tempos em que o Skid Row estava na fase de seus maiores hits, esse povo estava ouvindo Grupo Molejo.


Mais uma vez me deparo com uma situação em que ficou clara a superficialidade, a falta de autenticidade e a mesquinharia das pseudocelebridades. Mas dessa vez a mediocridade me afetou diretamente. Só me resta cruzar os braços como uma criança de 5 anos e dizer: “Não é justo!”.













sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A decadência da música

Há tempos venho percebendo que a música virou apenas uma indústria de entretenimento barato e, por isso, sua qualidade está em visível decadência. Mas minha angústia em relação a isso piorou quando assisti a um show (na TV, claro) do Mark Knopfler, vocalista do Dire Straits. Me assustei com aquele sessentão calmíssimo, figura simpática cuja imagem interpretei como “avô divertido que toca guitarra”. Tá certo, talvez eu tenha me prendido demais àquela imagem dele do Sultans of Swing, de terno vermelho e tal, daí o espanto.



O mesmo acontece com o Ian Gillan, do Deep Purple. Sejamos realistas: acabaram-se os tempos em que ele cantava “Child in Time”, por exemplo. Ele sequer ousa tentar os tons mais agudos hoje em dia. Sem falar naqueles bracinhos de bisavô...

A questão é: Os lendários do rock estão morrendo. Pior: ninguém os está substituindo.

Tudo o que vejo hoje na música são produtos industrializados. Sucessos efêmeros, personagens descartáveis, apresentações em playback, artistas cujas roupas que estavam usando na festa tal importam mais (pra mídia, pro público e pra eles mesmos) do que o som que fazem.





Eu poderia escrever um texto enorme explicitando todos os lixos que estão em voga no momento, mas vou citar apenas alguns elementos que caracterizam fidedignamente a decadência a que me refiro.

As mulheres parecem ter saído de uma linha de montagem: mesmo físico, mesmas roupas, mesmas coreografias medíocres. É a era do “sex appeal”: tire as rebolações e as roupas minúsculas e não sobra nada. Algumas até têm voz, mas são incapazes de se garantir apenas pelas habilidades artísticas (ou é isso que as fazem acreditar). Os videoclipes são todos a mesma escrotisse: é uma disputa pra ver quem é a mais “cachorra”.





Os homens também não se salvam. Todos com aquele tonzinho emo que nem vibrato tem. Pagam de meninos virgens em busca do verdadeiro amor romântico, quando na verdade já freqüentaram todos os puteiros da cidade. A outra alternativa é ser “gangsta”: vence quem mostrar que tem os carros mais caros e a maior quantidade de mulheres.





Não há espaço para conteúdo e originalidade. Vide a Shakira: antes era morena, tinha som próprio, tocava violão, compunha e valorizava suas origens cantando em espanhol. Agora se rendeu ao mercado e se tornou mais um produto americano enlatado, ou, se preferirem, mais uma boneca Britney: agora loira, com corpo de academia, se rendeu à estratégia do sex appeal como elemento imperativo da carreira e mudou seu som para o que chamo de “fundo musical de loja”. Sabe aquele produto antigo que foi redesenhado pra se adaptar ao perfil do novo consumidor, pois, caso se mantivesse como era originalmente, perderia espaço no mercado para o produto concorrente? É ela -e muita(o)s outra(o)s.





A maioria desses artistas sequer são lembrados pelo público pouco tempo depois. Seus fãs não são fiéis. É compreensível, afinal, são pessoas que só vão na onda (e não só no que diz respeito à música) e ouvem o-que-quer-que-esteja-na-mídia-no-momento. Rechaçam qualquer coisa que não esteja tocando nas rádios. Se toca uma música de 1 ano atrás, eles dizem: “ai, essa música é velha, é do verão passado!”.

Os artistas antigos, em contrapartida, têm hits clássicos há décadas. Várias músicas antigas continuam atuais. Achei perfeita a resposta de John Norum, guitarrista do Europe, mediante a pergunta de um entrevistador sobre o que ele achava do fato de que suas músicas tocaram nas rádios há mais de 20 anos e os fãs continuam fiéis. Ele respondeu, curto e grosso: “Música boa nunca sai de moda”. É justamente isso: o que é realmente bom se eterniza, deixa marcas. Não é descartável, tampouco precisa se reinventar para continuar vendendo. O público –seleto – que sabe apreciar boa música é fiel, não se deixa influenciar por modismos.

Nunca me esqueci de uma frase de meu professor de física do segundo grau. Lamentando-se pelas perseguições religiosas e pelos males que a Igreja causou à ciência a fim de manter seus dogmas na Idade Média, ele disse: “talvez nunca mais teremos grandes físicos como Galileu, Copérnico ou Kepler”. De fato. Por isso farei aqui uma paráfrase desse raciocínio com o que ocorre na música: talvez nunca mais teremos grandes artistas como Fred Mercury, Steve Ray Vaughan e John Bonham. Enquanto a música estiver rendida aos interesses econômicos e promover tão somente artistas industrializados para divertir as massas alienadas, não haverá espaço – nem estímulo – para eventuais substitutos que ousem criar novos clássicos de som subversivo com conteúdo e qualidade.