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sábado, 19 de janeiro de 2013

Teoria dos Legos

   

          Já falei aqui sobre o tal “cabelo de lego”, aquele corte padrão e sem graça que a sociedade impõe que os homens devem adotar. Defendi, acima de tudo, que minha total falta de atração por tal corte de cabelo não ocorre apenas em função de seu fim estético, mas sobretudo por sua simbologia.

          Muitos se surpreendem com meu posicionamento. A sociedade ainda não parece estar preparada para a teoria dos cabelos de lego. De fato, é uma teoria demasiadamente inovadora e revolucionária até para o ano de 2013. É uma teoria multifacetada que envolve muitas variáveis. Sob sua ótica, fatores aparentemente desconexos se entrelaçam harmonicamente em uma lógica iluminadora. Ela envolve a problemática de condutas sociais, poder de dominação, padrões de comportamento, paradigmas culturais e até feminismo.

O tal "cabelo de lego".

Quem é radical, afinal?



          Muitos alegam que sou radical por considerar o cabelo comprido um pré-requisito para me interessar por um homem. Na realidade, radical é a norma de que todos os homens devem ter cabelo curto. Aliás, quantas mulheres já não disseram com todas as letras que detestam homem de cabelo comprido e, portanto, só ficam com homem de cabelo curto? E por que isso não é radical? Ora, porque esse é o paradigma vigente para a sociedade atual, essa é a convenção social em vigor. Isto é, qualquer que fosse o padrão, X ou Y, poderia ser veementemente reforçado ou rechaçado. E o que define se será reforçado ou rechaçado são as instituições no poder em dado momento histórico/político/econômico. A essência deste sistema é o poder de fazer qualquer coisa - o que convier no momento - ser defendida por toda uma sociedade como certo ou errado.

          Este é o sistema de domínio que define o que as pessoas vão achar bonito ou feio, divertido ou chato, correto ou injusto, ou o que vão apreciar ou depreciar em termos de música. É o sistema que padroniza a sociedade. Estas forças exercem um domínio tão pleno, que se dá de forma tão inconsciente, que as pessoas encaram muitos de seus padrões de comportamento como "naturais". Os homens nem questionam por que têm cabelo de lego. Eles simplesmente têm. Eles simplesmente nem cogitam outras opções. Eles foram hipnotizados pelo axioma segundo o qual "homens têm cabelo curto e mulheres têm cabelo comprido". As mulheres, em contrapartida, sequer refletem por que gostam – ou acreditam que gostam – apenas de homens com cabelo curto. Elas simplesmente gostam e sequer refletem que poderia ser diferente, que isso poderia ser questionável.

          O perigo desse domínio encontra-se justamente quando pensamos em todos os outros valores e formas de conduta que apenas repetimos, sem questionar. Fenômenos mais complexos do que um simples corte de cabelo (não que um corte de cabelo já não carregasse consigo valores, signos e representações complexos o suficiente!) a que estamos sujeitos a defender ou rechaçar com todas as nossas forças, acreditando, quase que num estado hipnótico, que tal posicionamento é genuinamente nosso.



“O que meus clientes vão pensar?”

          Ainda é evidente o preconceito em relação a homens de cabelo comprido em empresas privadas e corporações de todo tipo. Via de regra, é este o motivo que faz tantos homens se renderem ao cabelo de lego.

          Os empresários defendem que o cabelo comprido em um homem é motivo lícito para demitir ou não contratar, e justificam seu preconceito a partir da máxima "o que meus clientes vão pensar?". Esse pensamento é raso e arbitrário por dois motivos.

          Em primeiro lugar, todos somos clientes. Como massa consumidora, toda a sociedade é cliente de alguém. Logo, tal cliente sou eu, é você, é a própria pessoa que articulou tal frase. O empresário que a proferiu compartilha deste preconceito. Um preconceito que é covardemente transferido para outros: os clientes, a sociedade, a massa consumidora – a qual ele mesmo compõe.

          Em segundo lugar, o que o resto da sociedade – os tais “clientes” – tanto tem que exige tanto que estejamos à sua altura? O que seus clientes irão pensar de um funcionário de cabelo comprido, não é mesmo, caro empregador? Seus clientes, aqueles indivíduos ilustres que cheiram cocaína antes de colocar o terno e a gravata, que dirigem embriagados, que jogam lixo no chão, que não se levantam do assento prioritário quando um idoso entra no ônibus, que condenam a corrupção na política mas oferecem propina ao policial para se livrar da multa, que ultrapassam pelo acostamento, que não cumprimentam o porteiro, que estacionam em vagas de deficientes porque “serão só 10 minutinhos”.

          O funcionário adequado para sua empresa deve ser, acima de tudo, um homem de cabelo curto, certo, empregador? Porque, claro, o que mais poderia definir caráter e competência profissional a não ser centímetros de fibra capilar? O trabalhador que você procura deve estar alinhado à representação de sucesso dessa sociedade doente que você ajuda a manter: o cara que troca de carro todo ano, mas não tem dinheiro para pagar o IPVA; que ocupa uma posição de prestígio e poder e assedia sua secretária; que estudou nas melhores escolas, já realizou intercâmbios culturais em diversos países e cujo programa preferido é o Big Brother Brasil. São essas pessoas, exemplo de sucesso, que sua empresa precisa. Todos sempre com o cabelo devidamente podado e alinhado, porque é isso que faz a diferença, obviamente.


O cabelo comprido como crítica social

          De fato, o cabelo comprido em um homem representa um ato transgressor, uma crítica social. Daí seu perigo, aos olhos daqueles que visam manter o sistema. As instituições sociais – principalmente empresas e escolas – não desejam pessoas questionadoras e críticas; desejam marionetes, pessoas que apenas respeitam o sistema, seguem o que é ditado e reproduzem o que já existe. Anseiam pela manutenção do status quo, enfim. Uma das muitas formas de manter tal domínio é padronizando os homens fisicamente.



          Além de mascarar individualidades e esmagar autenticidades, o cabelo de lego reforça velhos padrões de gênero.

          Uma das várias facetas da teoria do cabelo de lego é a problemática de gênero. O cabelo curto é um dos tantos estereótipos masculinos sem sentido. É um padrão de masculinidade inconsistente e ultrapassado, como tantos outros.

          De igual importância, temos a questão da estética propriamente dita. Da mesma forma que as mulheres ficam melhor ou pior de acordo com o corte de cabelo, os homens também. É por isso que mulheres com rostos mais circulares evitam cabelo curto; que mulheres com cabelos finos e demasiadamente lisos optam por repicá-los; que mulheres com cabelos muito ondulados evitam franjas.

          Aos homens, ao contrário, é concedido o direito de não precisarem ser fisicamente atraentes. Pelo menos essa não é, nem de longe, a prioridade. Quantos não dizem que mantêm o cabelo curto porque seu cabelo é "ruim" ou "difícil"? Ora, quantas mulheres também não têm cabelos difíceis, muito volumosos, ou muito murchos; muito ondulados ou muito lisos; muito secos ou muito oleosos? Não é justamente por isso que elas diversificam os cortes, fazem alisamentos, escovas progressivas, permanentes, tinturas, hidratações, etc? E se elas também fizessem como os homens: raspar, ou deixar bem curto, porque é mais fácil?

          Isso está fora de cogitação. Nossas formas de conduta estão assentadas sob o princípio de que as mulheres precisam estar constantemente tomando ações que as tornem sexualmente atraentes. Dos homens, em contrapartida, é exigido apenas um básico ritual de higiene: basta tomar banho, aparar a barba e passar desodorante. E por quê? Porque o desejo da mulher raramente está em questão. "Elas que fiquem com as migalhas", diz a sociedade, nas entrelinhas. Ainda mais triste é o fato de a maioria das mulheres estar tão dominada por essa forma limitada de pensar que sequer percebe que estão se contentando com migalhas.



          É claro que não defendo que todos os homens passem a ter cabelo comprido; isso seria criar um padrão do mesmo tipo. Tampouco defendo que os homens passem a ser tão obcecados por seus cabelos como as mulheres, mas sim que as exigências estéticas sejam menos desiguais. O que sugiro, sobretudo, é que a sociedade reflita sobre as bases que fundamentam seus valores e seus padrões de comportamento.

          Alguns homens realmente ficam melhores com cabelo curto; outros, ao contrário, não seriam tão atraentes se cortasssem suas madeixas. Muitos homens combinam com seus cachos, e por isso deveriam deixá-los crescer; tantos outros se iluminam pelo rosto moldado com as mechas lisas. É esta a diversidade que se faz necessária. Impor um mesmo corte de cabelo a todos os homens, mesmo que não valorize a maioria deles, é um mecanismo de padronização tão alienante que beira a insanidade coletiva.



          Hoje encaramos como absurda a realidade de poucas décadas atrás segundo a qual as mulheres não podiam escolher seus maridos - tampouco podiam escolher não casar. Isto é, elas deveriam se casar com o homem - extremamente nojento, geralmente - que tivesse sido definido por outras pessoas – o pai ou o próprio futuro marido - independente de amá-lo ou sentir atração física por ele.

      De forma análoga, algum dia a sociedade ainda vai se despertar para o absurdo, considerado normal hoje, que é o fato de as mulheres serem impelidas a estarem sempre impecavelmente belas e sensuais, ao passo que devem se contentar com homens pouco vaidosos e pouco atraentes. Algo que poderia mudar – e muito – simplesmente pela iniciativa de alguns homens de diversificarem os cortes de cabelo. Se isto ocorresse, as mulheres não mais ficariam encurraladas por terem que escolher dentre as limitadas opções de homens que compartilham do mesmo corte de cabelo ridículo. Um corte que não pretende deixá-los mais bonitos e atraentes, mas apenas práticos. Um corte cujo único objetivo é facilitar a vida. Dos homens.





terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O mundo é o Colégio Medianeira

          Estudei todo o ensino fundamental no Colégio Medianeira, de onde saí apenas aos 14 anos. Tive uma infância feliz, mas lembro do início da adolescência como um período perturbado; é quando a personalidade começa a se consolidar, as reflexões emergem, as opiniões se formam e você começa a descobrir quem realmente é.

          Aos 9 anos de idade, o presente de meus sonhos era um autorama ou um videogame com volante, mas nunca tive coragem sequer de comentar esse desejo com meus pais porque, pensava eu, eles brigariam comigo se eu pedisse um brinquedo “de menino”. Meu brinquedo preferido, inclusive, era o Jeep da Barbie, e tenho certeza que ele me entusiasmava muito mais pelo fato de ser um carro do que por ser um acessório da boneca.

Sim, eu brincava de carrinho. Já era a feminista latente dentro em mim, revolucionando conceitos sexistas mesquinhos.

Nesta mesma idade, me inquietava o fato de aprendermos sobre a evolução humana sob o paradigma do sexo masculino; não bastasse as figuras sempre representando tão somente a evolução do corpo masculino, a denominação da espécie humana se resumia no termo “Homem”. Eu questionava porque o ensino da humanidade excluía as mulheres ilustrativa, lingüística e simbolicamente e focava-se nos indivíduos masculinos. Lembro-me de comentar com minha mãe que meu pai havia sido um homem das cavernas. Ela me corrigiu, afirmando que nós – mulheres – também havíamos sido. Ora, para uma compreensão infantil pautada em interpretações literais, meu pensamento não estava tão equivocado assim.  Simbolicamente, era isso o que ensinavam.


O ensino da evolução humana é ilustrativa, lingüística e simbolicamente masculinista.

Aos 10 anos de idade, enquanto minhas colegas ainda brincavam de Barbie, eu pedi uma guitarra para minha mãe. É claro que ela não atendeu meu pedido; ela não levou a sério um desejo que, mais de 15 anos depois, continua efervescentemente vivo e jamais morreria.
Aos 11, já possuía um vasto conhecimento musical e sentia-me limitantemente acorrentada por não poder compartilhar do meu interesse pela música com meus pares. Meus colegas não ouviam música. Não com consciência. Eram daqueles que acreditavam que o melhor disco do ano tinha sido a compilação da trilha sonora da novela das 8 e que só conheciam o que tocava nas rádios e no programa do Faustão.

          Diferente das meninas da sala, eu nunca me interessei por aqueles meninos sem graça da turma, os “galãzinhos de 12 anos”. Eu sempre gostei de homens mais velhos, intelectualmente provocantes e esteticamente perturbadores. Um de meus maiores sonhos, inclusive, era casar com o Jon Bon Jovi, 24 anos mais velho do que eu.


Eu tinha um sentimento muito certeiro, quase profético, de que eu seria a próxima esposa do Jon Bon Jovi (!).

          Meu sentimento de inadequação era marcante. Eu não me identificava com os colegas. Eu sentia falta de inquietude nas pessoas; de angústia; daquele caos interior que te move a pensar a vida de forma diferente, buscar respostas, agir criticamente sem se contentar com o que quer que seja; de ânsia por decifrar os mistérios da vida e compreender essa existência turbulenta.

          Ao iniciar o segundo grau, imaginei que seria o momento ideal para mudar de escola. Mudar de vida. Conhecer gente nova, menos previsível. Reconheço que melhorou ligeiramente, mas fundamentalmente tudo continuou igual. Fui crescendo, saindo para o mundo, me inserindo em novos contextos, entrando para o mercado de trabalho, trabalhando em diversas empresas e conhecendo todo tipo de gente. Curiosamente, tudo continuou como era no Colégio Medianeira.


          As meninas, hoje adultas, não mais desejam brincar de Barbie. Regrediram: querem ser a Barbie. Os meninos, hoje crescidos, continuam infantis: respondem a códigos masculinos medíocres e fazem o que quer que seja, até o que não desejam, para afirmar sua suposta masculinidade. Homens e mulheres permaneceram na infantilidade musical: abdicam até mesmo de seu gosto musical genuíno para serem aceitos socialmente. Não aprenderam a ouvir música com consciência e continuam acreditando que gostam daquilo que a mídia sugere que devem gostar. As meninas que naquela época ouviam pagode e axé só porque estava na moda são as mesmas que hoje ouvem sertanejo universitário pelo mesmo motivo. Naquela época, elas abominavam sertanejo porque a mídia o colocava como “música de diarista”. Mas é melhor não enfatizar este fato para que elas não fiquem sem graça. Reconhecer que se leva uma existência inautêntica é humilhante demais; é mais fácil negar e se justificar com desculpas esfarrapadas.


          As pessoas continuam padronizadas: são passivamente moldadas para pensar, agir, se vestir, se divertir e se interessar pelo que a televisão impõe inconscientemente em cada momento. Agora, no entanto, elas não têm mais a desculpa de serem apenas adolescentes. Já são adultas.

          Muita gente continua vivendo sob a proteção de máscaras, negando – para si mesmo, muitas vezes – sua verdadeira identidade a fim de aparentar estar bem ajustado à sociedade: tímidos tentando ser falsamente sociáveis e, para isso, enfrentando o doloroso desafio de viver interpretando um personagem o dia todo; pobres fingindo ser ricos; tagarelas que falam demais pois não suportam seu próprio silêncio; morenas tentando ser loiras; pessoas passando fome propositalmente para fingir que são magras.


          Hoje sei que o problema não era o Colégio Medianeira; era a sociedade. Qualquer contexto, dentro dessa mesma sociedade, seria essencialmente igual. Em qualquer canto as pessoas continuavam previsíveis, infantilizadas, moldáveis, manipuláveis. É um traço comum à maioria.


          Minhas lembranças do Colégio Medianeira são tão ruins que, logo após mudar de escola, sonhei, alguns vezes, que algo ainda me prendia lá. Eram pesadelos nos quais eu havia tido que voltar a estudar lá ou que de lá não consegui sair. Acordava aliviada lembrando que havia, sim, me libertado.

          Em essência, eu não me libertei. No mundo lá fora era igual. O mundo era como o Colégio Medianeira. Aos 14 anos, quando decidi mudar de escola, eu era ingênua e pouco ainda conhecia do mundo lá fora. Eu esperançava que qualquer outro ambiente seria melhor e tinha certeza que eu poderia me ajustar. Eu era ingênua demais para cogitar que mudar de escola não resolveria, e inocente demais para encarar o fardo que teria que carregar: durante toda a vida, eu nunca sairia do Colégio Medianeira.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Loucos, ou só estão cercados de idiotas?

         
         A sociedade, via de regra, é indelével em marginalizar e subjugar aqueles que não estejam alinhados às suas formas de conduta dominantes. São os “estranhos”, os “loucos”, os “chatos”, descrevem os perfeitamente ajustados. Independente do termo que escolhem, todos eles denominam, dentre inúmeros exemplos, aqueles que não pulam carnaval; que não assistem novelas; que dispensam uma partida de futebol; que conseguem economizar, mesmo ganhando pouco; que sabem – e gostam de – contemplar a solidão; que preferem ficar na cidade do que passar o feriado – quase sempre chuvoso - no litoral e passar mais tempo em filas do que efetivamente no mar; que preferem ficar “cuidando das bolsas” à dançar músicas sofríveis em festas bregas; que não curtem os artistas medíocres e efêmeros que estão “bombando”, cujas carreiras duram menos do que qualquer romance entre celebridades.


           O conceito de comportamento desviante só é possível a partir de seu contraponto, isto é, o conceito de normalidade. Este, por sua vez, é inegavelmente construído de acordo com o contexto histórico/social/político/econômico.

Ora, o padrão de beleza feminino, há poucos séculos, era ser gorda. A atitude louvável de um jovem rapaz, há poucas décadas, era continuar ajudando sua família com o trabalho na lavoura. Hoje, é sair de casa para estudar Direito, Engenharia ou Medicina.

O padrão de beleza feminino na Idade Média e hoje: quem seria o louco em cada época?

    Pois pergunto-me: como acatar o conceito de “esquisitice” criado por uma sociedade cuja própria sanidade é questionável? Uma sociedade egonarcísica, que não tolera os que tentam passar despercebidos; que recrimina os calados e vangloria os que não param de falar e, ao mesmo tempo, não falam coisa alguma; que é incapaz de contemplar a música, não a utilizando para um fim em si mesma, mas sim como mera trilha sonora de cachaçadas e “pegações”; que tenta ensinar respeito e igualdade, mas até para escolher cachorros se baseia em beleza e raça.


          Uma sociedade cujos jovens reclamam não conseguir um bom emprego por não falarem inglês e não terem dinheiro para fazer tal curso, mas que pagam o equivalente para freqüentar a academia de musculação; cujos pais presenteiam suas filhas de 08 anos de idade com um par de salto alto, e as de 18 com um par de silicone.

          Uma sociedade de pessoas que se enchem de drogas e entorpecentes, mas continuam vazias; que bancam maravilhosas viagens à praias paradisíacas e se fotografam em meio a virtuosos monumentos históricos, mas continuam pobres culturalmente; que compram uma televisão de LCD de 40 polegadas para assistir “Domingão do Faustão”; que trocam de carro todo ano, mas que não conseguem pagar o IPVA; que tentam aplacar a angústia – física ou mental – com medicamentos que amortecem os sentidos e o saber; que envelhecem suas peles com exposição solar – real ou artificial – excessiva e, anos depois, correm atrás de tratamentos dermatológicos rejuvenescedores; que tem na televisão seu maior ditador de opiniões, gostos e comportamentos, sem ao menos perceber; que escondem seu verdadeiro eu atrás de máscaras para não sofrerem retaliações; que casam-se sem amar pois “chegou a hora”.

          Cada sociedade, cada século, cada paradigma, enfim, elege seus loucos. Em qualquer um destes contextos, entretanto, mudanças e progressos sempre foram possíveis graças àqueles que ousaram pensar “fora da casinha”, que não se acomodaram ou se conformaram com o que quer que seja.

          Pois se você é um estranho, louco, chato, regozije-se! Como perfeitamente esclareceu o pensador indiano Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde ser ajustado a uma sociedade profundamente doente”.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Abaixo aos cabelos de lego






“Cabelo de lego” é como chamo aquele cabelo curto normalzão que 98% dos homens usam. O nome é devido à semelhança inegável com o cabelo dos bonecos do brinquedo Lego. Os contornos das orelhas e nuca ficam tão delimitados que realmente dá a impressão que basta desafrouxar o pino que prende o cabelo na cabeça para soltá-lo, assim como nos bonequinhos.

Basta desencaixar.

Esse corte é tão palha que simplesmente não existe a menor possibilidade de eu me sentir atraída por um homem com cabelo de lego. Isso vale até para o Carlos Casagrande.
Gatão, não? Não.
Cabelo de lego é uma questão de gênero.
Dizem que homem fica melhor com cabelo de lego porque é mais “masculino”. Masculino segundo quem? Segundo o quê? Ora, segundo o mesmo padrão que dicotomiza os gêneros e faz homens e mulheres reproduzirem valores e comportamentos sobre os quais sequer refletem. Segundo o mesmo padrão que estipula que mulher deve usar rosa e homem azul; que meninas devem brincar de boneca e meninos de carrinho; que mulheres devem exercer profissões de afago e homens devem seguir profissões “que dão dinheiro”; que meninas devem aprender desde cedo a fazer comidinha e trocar papel de carta, enquanto os meninos desenvolvem seus intelectos com os brinquedos mais tecnológicos e estimulantes. “Mulher deve ter cabelo comprido. Homem deve ter cabelo curto”. E assim a sociedade não evolui.
Para se adequarem ao padrão de normalidade, as mulheres vivem de regime; os homens mantêm o cabelo curto.
Da mesma forma que as mulheres são impelidas a seguir um determinado padrão de comportamento e estética para serem aceitas socialmente, os homens também o são. As mulheres devem usar roupas justas, precisam ser magras, bonitas, etc. Em contrapartida, os homens, dentre outras coisas, devem ter cabelo de lego. 
Quem nunca soube de um cabeludo que teve que cortar o cabelo para arranjar emprego? E quantos empresários já não usaram a desculpa de que não contratariam um cabeludo “porque os clientes podem não gostar”? E mesmo os que “podem” continuar sendo cabeludos (geralmente os profissionais autônomos ou os que, por algum motivo, ocupam postos de trabalho em que lhes é “permitido” ter cabelo comprido) freqüentemente são alvo da seguinte pergunta: “quando você vai cortar o cabelo”? Isto é, o cabelo comprido, mesmo quando aceito, é visto como um estágio, um momento na vida de um homem, e não um fim em si.
Não é uma mera questão de estética. É a simbologia.
Meu desprezo pelo cabelo de lego não é apenas pela estética. É, principalmente, pelo que ele significa. O cabelo de lego não é um corte de cabelo; é a ausência de um corte. É o mesmo (não) corte que eles mantêm desde os 6 meses de idade porque não dão importância. Ele é o padrão, é o que os homens mantêm só porque é isso que dizem que é o certo. É um cabelo comportado, inofensivo, que não revoluciona, só mantém o status quo.
Já o cabelo comprido, para um homem, é um símbolo de transgressão. É a ruptura de um padrão. É uma ousadia político-social. Aí reside sua beleza.




Há muitas opções não-lego.
Não estou defendendo que todos os homens tenham cabelo até o meio das costas. Há várias opções de cortes que, mesmo não sendo compridos, fogem da mesmice do cabelo de lego.

Exemplos de cabelos que esbanjam personalidade, mesmo não muito compridos.



“Até queria deixar crescer, mas meu cabelo não é bom”.
Muitos homens até têm vontade de deixar seus cabelos crescerem, mas não o fazem porque “o cabelo não é bom”, defendem. Em primeiro lugar, esse conceito de “cabelo bom” vem de nossa educação racista. Só o cabelo liso é bonito e “bom”?

 Em segundo lugar, mostra como os homens pouco se importam em agradar as mulheres pela aparência. Eles querem o que é mais prático, e não o que deixa mais bonito. As mulheres que fiquem com as migalhas, não é mesmo?

Quem deve sofrer pra ficar bonita só devem ser as mulheres, né?! Eles acham legal que suas namoradas arranquem os pêlos pela raiz, almocem alface e andem o dia todo de salto alto, mas eles mesmos só tomam banho e passam desodorante.  Eles querem não ter compromisso algum com a vaidade, querem poder lavar o cabelo com sabonete. Novamente, voltamos à questão de gênero.
Imagine todas as mulheres com cabelo de lego. Quantas deixariam de ser bonitas? Pois é.
Abaixo seguem exemplos de mulheres com cabelo curto e comprido. Notem como algumas ficaram muito mais bonitas com outros cortes além do curto. Algumas são belíssimas e continuam bonitas com qualquer corte. Outras, nem tanto.


De cabelo comprido fica melhor. Minha modesta opinião.

Ana Paula Arósio é uma mulher diferente a cada corte de cabelo.

Qualquer coisa cai bem com esse rosto.


O poder de um cabelo.

Notem como a Britney Spears perde todo seu charme e harmonia sem o cabelo. A questão é: com quantos homens isso também não acontece? Quantos homens são feios apenas pelo (não) corte de cabelo? Quantos homens não poderiam ser atraentes apenas se abandonassem o cabelo de lego? Quantos homens, além disso, não poderiam estar desconstruindo dicotomias de gênero desnecessárias e padrões de comportamento e de normalidade que nada fazem além de manter a sociedade na estagnação?
Homens, pensem nisso. Saiam da zona de conforto. Porque até isso...

                é mais digno do que isso. Sério.




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Inveja da minha branquelice

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Já comentei aqui sobre as tirações de sarro que sempre sofri por ser branquela. É raro, para não dizer impossível mesmo, sair de saia ou vestido e não ouvir algum comentário, baixinho, de alguém intrigado com minha branquelice. Muitos não são nada tímidos: falam alto, intencionalmente para eu ouvir, como minha perna é branca. Vale lembrar que a intenção não é exatamente elogiar; pelo contrário. “Que perna ridícula!”, “nossa, o que é isso?!”, “tá precisando ir pra praia, hein?!”, são os mais comuns.
                São comentários tão absurdamente depreciativos, insultos esses recebidos gratuitamente de pessoas que nem conheço, que poucos acreditavam quando eu contava. Até questionavam minha própria sanidade mental algumas vezes, pois muitos duvidavam que aquelas pessoas e comentários realmente existiram. Felizmente, em algumas situações eu estava acompanhada, o que possibilitou que a pessoa que estava comigo em dada situação pudesse ter certeza que essas coisas realmente aconteciam, que eu não estava mentindo e tampouco caminhando para a esquizofrenia.
                Não basta te acharem feio. As pessoas têm que esfregar isso na sua cara.
Se você acha algo feio em mim, tudo bem. Não sou uma mulher vaidosa e não acho que meu mundo acabou porque alguém me acha feia (sei de uma guria, inclusive, que chorou o dia inteiro porque, caminhando pelas ruas com uma amiga, um caça-modelo as parou. Ele abordou apenas sua amiga para fazer alguns trabalhos fotográficos, e não ela). Mas por que essa necessidade de esfregar isso na minha cara? Por que a necessidade de me fazer sentir ridícula e inadequada? Por que a vontade tão feroz de me humilhar publicamente? Por que minha branquelice incomoda tanto? Por que se sentir no direito de dizer – a um estranho, repito – como uma pessoa deve ser ou não porque é isso que você acha que é o certo?
Eu também acho muitas coisas horríveis nas pessoas, mas não saio por aí falando isso para elas, muito menos aquelas com as quais não tenho vínculo algum. Acho pavorosas aquelas mulheres que pintam o cabelo de loiro e que ficam super artificiais, mas não saio por aí perguntando se elas pintaram o cabelo com Suvinil (tinta de parede). 
A tal loira Suvinil.
Abomino homem com "cabelo de lego" (aquele corte normalzão que é simplesmente uma penugem capilar na cabeça), mas não saio por aí gritando nas ruas, perguntando se eles não tem vergonha de usarem o mesmo corte de cabelo desde os 6 meses de idade. 
O corte de cabelo “lego”adotado por 98% dos homens: palha pra cacete.

Acho medonhos aqueles cabelos cheios de luzes que chegam a ficar cinza. De costas, essas mulheres mais parecem bisavós com corpos de 25 anos. Mas não saio questionando essas mulheres se a intenção delas era ficar com o cabelo loiro ou grisalho mesmo.
A intenção era ficar loiro ou grisalho?

Argumento da inveja: o mecanismo de defesa dos narcisistas.
Tentando me consolar, as pessoas sempre me diziam: “não ligue, é inveja”. “Bobagem”, sempre pensei. Nunca acreditei que fosse inveja, e por 2 motivos: 
1)      As pessoas, especialmente as mulheres, realmente acham feio ser branca demais. Logo, não faz sentido elas terem inveja. Elas não invejam algo que acham feio.
2)      Nunca fui fã do argumento da inveja. Acho muito narcisismo achar que, se não gostam da gente, é porque nos invejam. É uma forma de sempre se colocar por cima: nosso defeito, se existir, é ser bom demais. Tão bom que até traz desavenças. Sei de pessoas que sequer conseguem cogitar outro motivo fora a inveja para alguém não gostar delas. Ora, nós podemos ter tantos defeitos, as pessoas podem desgostar de nós por tantos motivos! Deduzir precocemente que não gostam de nós por inveja é mesquinho demais. É narcisismo demais.

Ser diferente incomoda. Ser diferente e feliz incomoda mais ainda.
Em um dado momento, me atentei ao fato de que a esmagadora maioria das pessoas que faz esses comentários é mulher. Esse detalhe me leva a crer que sim, talvez possa ser inveja mesmo. Mas não inveja por achar bonito, pelo contrário. Inveja justamente por acharem feio, mas me verem auto-confiante sendo eu mesma. Inveja porque não conseguem conceber a idéia de uma mulher não corresponder ao padrão de beleza imposto (e que elas seguem neuroticamente) e ainda assim ser feliz. Inveja porque não conseguem aceitar que muitos homens acham bonito justamente aquilo que elas tentam ser ao contrário. Inveja porque alguém tem coragem de desafiar o senso comum e ser feliz assim. Como eu ouso estar feliz e satisfeita quando todos os signos sociais e midiáticos me dizem para eu me sentir um lixo, não é mesmo? Que audácia perante o padrão de comportamentos previsíveis!
Não, elas não têm inveja de mim porque acham minha cor bonita. Elas realmente me acham feia. E é justamente isso que incomoda e causa inveja: ser considerada feia e mesmo assim se sentir bonita. Isso vale para as negras, gordas, baixinhas, altas demais, magricelas, sardentas, ou qualquer mulher com uma característica fora do padrão, por causa da qual tentam nos fazer sentir como lixo. Mas não somos lixo. Somos livres. E como isso incomoda!






segunda-feira, 16 de maio de 2011

Falta amor...e desacordo também.



Muito se fala que a vida em sociedade está penosa devido ao individualismo das pessoas, a falta de respeito, o descaso para com os outros. Falta, enfim, amor. Em contrapartida, também nos falta o seu oposto: o desacordo. 

O que defendo como desacordo, vale ressaltar, não é o mesmo que discórdia ou desavença, mas a contestação, o debate. Em textos anteriores eu venho discorrendo sobre a incapacidade das pessoas em serem críticas, transgressoras, autênticas, seja em que contexto for.
             Existe uma névoa de “bundamolismo” assolando as pessoas na mesmice, nos modismos, na concordância forçada para não se indispor com ninguém. Isso é bem característico de nossa cultura. As pessoas não foram ensinadas a debater. Quando eventualmente insurge um debate, a maioria não sabe como se portar. Tendo isso em vista, muitos pensam que debater é brigar. Quando se entra em alguma discussão, ou surgem aqueles que tentam “jogar panos quentes” em cima, ou aqueles que levem o debate para o lado pessoal. Daí certamente sairão brigas.

Mesmo os que, eventualmente, têm a coragem de criticar alguma coisa, logo ao final da frase complementam: “nada contra quem gosta....” ,ou “nada contra quem faz...”. Na página inicial do hotmail, dia desses, apareceu uma notícia (notícia!) que uma atriz global havia dito que se orgulhava de não ter feito nenhuma plástica, que achava desnecessário, e que os homens gostam de mulheres naturais. Mas complementou dizendo que “é claaaaro que não tinha nada contra quem faz”. Essa é uma ótima forma de dar sua opinião mas, ao mesmo tempo, tentar ser o mais imparcial possível para não suscitar a antipatia das pessoas que se encaixam de alguma forma no que foi dito. É uma maneira de sair pela tangente, de se proteger, de dizer algo e praticamente desdizê-lo logo em seguida. 

           Em plena era do Twitter, diversas vezes já abri a página de notícias (de novo, notícias!) e lá constava: “Fulana desabafa no Twitter e causa polêmica”, “Fulano diz o que pensa sobre determinado assunto e causa grande repercussão”, dentre outros. Ok, alguns comentários são realmente inadequados e merecem repúdio, que o diga Mayara Petruso, por exemplo. Mas a maioria das polêmicas gira em torno de opiniões inofensivas que não deveriam provocar a fúria dos internautas. Mas causa. Causa porque expressar qualquer tipo de opinião – que não seja a opinião da massa, claro – causa retaliação. 

Grande exemplo foi o caso do Sylvester Stallone, que causou polêmica em 2010 ao dizer que “Você pode explodir o país inteiro e eles vão dizer ‘obrigado, e aqui está um macaco para você levar de volta para casa’”, sarcasticamente descrevendo a postura dos brasileiros em relação às filmagens de seu filme no Brasil. Sinceramente, não vi problema algum nesse comentário. Afinal, ele só retratou como as pessoas aqui são humildes e ficaram felizes (para não dizer bobas) porque um grande filme foi filmado aqui. Aliás, todo mundo sabe que brasileiro paga pau pra gringo, principalmente se o gringo for ator famoso. Se o povo paga pau pra ator da “Malhação”, quem dirá pra ator de Hollywood!!!

Eu, particularmente, acho extremamente irritante conversar com pessoas que tentam jogar panos quentes nos momentos em que você está ávido por um diálogo mais intenso. Essas pessoas, via de regra, são aquelas que tendem a levar tudo na brincadeira, não sabem conversar sério sobre nada e fogem das situações em que a conversa se envereda para um nível mais profundo. E como há pessoas assim! 

Que se proliferem aqueles que nos desafiam intelectualmente, que incitam debates e novas idéias!Que se abra o espaço para darmos opinião sem precisarmos controlar nossas palavras como se estivéssemos pisando em ovos! Que possamos discutir sem levar para o lado pessoal! Que venha o desacordo, enfim!

sábado, 21 de agosto de 2010

Jeff Blades e Tommy Shaw: por pouco se safaram do sertanejo







Confiram estes vídeos recentes do Jeff Blades e Tommy Shaw (membros do antigo Damn Yankees) tocando “High Enough”, e do Nelson Brothers cantando “Love and Affection”. As versões originais datam de meados dos anos 80/início dos 90 e são mais “pesadas” do que estas, já que nestes vídeos a reprodução é apenas na voz e violão.


Notem como, nessa forma de interpretação, as duas versões soam ao estilo sertanejo. Os refrões com notas altas, o esquema de terça e até o manejo dos vibratos gozam de uma similaridade inegável com a forma de cantar de nossas duplas sertanejas (além, claro, da semelhança inquestionável – e não coincidente- entre os vocais de Nelson Brothers com Bon Jovi!).


A questão que coloco, e que me angustia, é a seguinte: se esses caras fossem brasileiros, estariam no mesmo ramo de atuação de Edson e Hudson, Rick e Renner e afins. Ao contrário disto, como estão em outro contexto, tiveram a chance de casar seus belos timbres e invejáveis extensões vocais ao rock, ajustando tais elementos aos enérgicos arranjos de guitarra e bateria.

Isso me angustia por dois motivos. O primeiro tem a ver com a indústria fonográfica brasileira, que promove apenas o que é passível de ser enlatado e comercializado pela massa. Tendo isso em vista, muitos bons artistas ficam à deriva no mundo musical, pois não conseguem o apoio das gravadoras que, respondendo ao poder de uma indústria fonográfica tendenciosa e imbecilizante, rejeitam tudo aquilo que não se enquadre nos padrões exigidos por esta. Tal postura ainda é revoltantemente justificada pela mentira de que “é isso o que o povo quer ouvir”, como se a relação de causa e efeito fosse esta e não a contrária, ou seja, a de que “o povo acredita que é isso que quer ouvir porque são essas as (faltas de) opções dadas a eles”. É uma indústria composta por pessoas que trabalham pelo marketing, e não pela arte. O resultado é desanimador: artistas como Alexandre Pires, Bello, Calcinha Preta, Ivete Sangalo, Banda Calypso, Latino, dentre outras porcarias, imperando como as referências musicais da maioria da população. Pior ainda: NX Zero, Pitty e afins como referências de rock (?!).


Não é à toa que todos os bons músicos dos quais já ouvi falar foram para outro país tentar uma carreira musical sólida. O maior exemplo disso é o Rafael Moreira, um guitarrista paranaense (que orgulho!) que foi para os EUA e gravou até com o Paul Stanley (!!). Se ele permanecesse no Brasil, quem sabe conseguisse um contrato com o Bruno & Marrone ou qualquer dupla sertaneja, em que os instrumentistas ficam lá atrás, tocando escondidos no escuro, enquanto os mato-grossenses ficam ali na frente, cantando (ou fingindo que estão cantando, no caso do Marrone) sob os holofotes e grites histéricos dos fãs que deles facilmente esquecerão tão logo parem de tocar nas rádios. Ou talvez ainda permanecesse na realidade dos demais bons músicos que temos aqui: conquistar, no máximo, o posto de atração principal das casas noturnas nos sábados à noite.


Como a esmagadora maioria das pessoas é massa de manobra e esse comportamento, conseqüentemente, estende-se à música e ao gosto musical delas, elas compram o que quer que seja esse “produto” musical que está sendo vendido a elas. E é aí que entra o segundo motivo que me angustia. As pessoas vão ouvir aquilo que as facilita fazer parte de um grupinho (de idiotas, claro). Que graça tem uma pessoa que, quando lista seus artistas prediletos, deixa os outros com cara de paisagem diante de tantos nomes nada familiares? Para ser mais aceito no grupo, ser mais passível de identificação com os outros, ser chamado para as “baladinhas” e shows de artistas que estão fazendo o maior “S-U-C-E-S-S-O, amigaaa!”, você tem que seguir a onda – ouvir sertanejo, pagode, funk, ou seja lá qual lixo esteja na moda no momento e faça você se sentir super “in”.


Essa postura, por sua vez, reforça os mecanismos da indústria fonográfica para criar tal experimento de pessoas alienadas e imbecis, das quais qualidades como senso crítico e originalidade já se dissociaram há um bom tempo. É um ciclo vicioso: a indústria fonográfica - juntamente com sua grande aliada para a perpetuação de comportamentos patéticos, a grande mídia – imbeciliza as pessoas. As pessoas, em estado de imbecilidade, reforçam essa indústria que as deixou imbecis (comprando CD’s em cujas capas tem-se mais exploração sexual da mulher do que qualquer referência à música propriamente dita; mudando de gosto musical em função do que está em voga no momento; se interessando tão somente por aquilo que está na grande mídia; tolerando e, no pior dos casos, promovendo verdadeiras aberrações que ousam classificar como música, etc).


Certo dia encontrei o orkut de uma conhecida. No campo música, ela escreveu: “Sou muito eclética”- como se isso fosse uma virtude e não falta de personalidade -, “gosto de tudo um pouco. Mas no momento estou gamada em sertanejo”. Ora, é claro que no momento ela está gamada em sertanejo, afinal, no momento, e nada coincidentemente, sertanejo é o que está na moda. Há uns 12 anos, quando a moda era ouvir pagode, eu tenho certeza, plena convicção, mas boto minha mão no fogo mesmo, que ela dizia: “Sou muito eclética, gosto de tudo um pouco. Mas no momento estou ouvindo pagode”. Assim como ela devia fazer quando a moda era ouvir reggae (lembram no ano de 2000 e 2001, em que todo mundo ouvia Dazaranha e afins, se fantasiavam à caráter diariamente com roupas de “surfistinha” e até brincos de pena?!). É pertinente lembrar-vos ainda que, quando o sertanejo carregava consigo o estereótipo de "música de diarista", nenhuma adolescente de classe média se interessava pelo estilo. Mas é só coincidência, né?!


O que me preocupa é que sei que dá para contar nos dedos a quantidade de pessoas que não são como ela. A esmagadora maioria das pessoas pensa exatamente como ela. Dessa forma mesmo, bem caricaturizada. E pior: realmente acreditam que suas escolhas são genuinamente individuais, que estão ouvindo determinada coisa pura e simplesmente porque apreciam e que estão sempre ouvindo justamente o que está na moda “por coincidência mesmo”.


Agora questiono: se as pessoas são assim com seu gosto musical, que é algo tão peculiar de cada um, imaginem com o resto. Se permitem padronizar até o gosto musical, que é algo tão sinceramente intrínseco a cada um, tão elementar de nossa individualidade, imaginem como reagem a temas mais complexos. A postura da sociedade em relação à música é apenas mais um fragmento de sua postura em relação aos demais temas e contextos que norteiam nossa vida em grupo. Estes temas e contextos, aliás, são os que venho discutindo em meus textos.


A teoria que defendo é a de que as pessoas ouvem qualquer lixo porque não têm referências musicais. O que não tocou no Faustão ou não virou trilha sonora de novela é considerado alternativo. Como nunca foram apresentadas a coisas boas, não foram acostumadas a apreciar música (sim, música deve ser apreciada, e não apenas ouvida). Isso, como já defendi, é culpa da grande mídia e da indústria fonográfica que ganham muito (muito me$$$mo) em manter o povo na resignação e ignorância cultural.

Mas também não vitimizo as pessoas. Existem outros meios à disposição das pessoas para sair da dormência cultural (quer meio melhor para se aprofundar musicalmente do que a internet?!),basta ir atrás. Mas sair da superficialidade e da padronização tem um preço: custa ser crítico, custa sentir angústia em relação a certas coisas (se “a ignorância é uma bênção” por não trazer sofrimento, o senso crítico causa muito sofrimento aos os que têm olhos mais apurados), custa não se permitir influenciar, custa tomar atitudes com consciência e não apenas “para se divertir”. Custa, principalmente, ser diferente. E, para a maioria, esse preço é alto demais.


Certamente haverá aqueles leitores que, não convencidos da magnitude da mediocridade humana, alegarão que “grande parte da população brasileira é pobre e tem como única forma de entretenimento a televisão (quando tem)”, justificando-se, então, os repertórios tão limitados. Acontece que a questão que coloco transcende as estruturas de classes sociais. Quem está ouvindo funk, sertanejo, “bunda music” em geral, são os playboyzinhos de Audi A3, as estudantes de Medicina de universidades particulares, as adolescentes que torram suas gordas mesadas no shopping, dentre outros exemplos elucidativos.

Vivo o privilégio de me permitir ser diferente, me permitir respeitar a minha individualidade e meu gosto musical sinceramente verdadeiro, sem medo da diferença e de não atender aos padrões que me são exigidos. A sensação de adequação consigo mesmo não tem preço e é infinitamente mais gratificante do que poder trocar CD’s com qualquer um ou ser chamada para as festinhas populares. Graças a pessoas assim, pelo menos em alguns lugares um dia houve – e ainda há, embora de forma bem mais restrita – espaço para músicos excelentes como Tommy Shaw e Jeff Blades fazerem sua música sincera. Graças a pessoas assim, eles não precisaram se tornar cantores sertanejos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

À minha colega anônima que me criticou

Recebi uma crítica em relação ao texto que escrevi sobre algumas fraudes que se intitulam psicólogos. A pessoa, anônima, que me mandou o comentário provavelmente pensou que eu jamais publicaria a crítica, e que ficaria me remoendo de curiosidade tentando descobrir quem foi que escreveu. Bem, estou aqui fazendo o oposto disso: não apenas vou publicar, como vou escrever um texto como resposta ao ataque colando-o na íntegra para todo mundo ler.

O comentário foi o seguinte:

"bruna,esse seu post mostra o quanto você é ignorante acima de tudo, pois acreditar que engenheiros ou farmacêuticos não tenham pensamento crítico é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo. todo extremo é ruim, e você, como psicóloga, deveria saber que isso representa algum problema SÉRIO dentro de vc mesma. em vários posts vc volta a citar a história do funk no baile, mais uma vez por um problema psíquico SEU, pq isso representa o quanto a sua neura te impede de se divertir. quem se diverte é taxado então por você como moralista conservador. vai se tratar guria, dá medo de vc atendendo pacientes, sério mesmo".

Em primeiro lugar, quero dizer que aceito críticas e opiniões, mas a pessoa deve dizer quem é. Isso é uma questão de maturidade e de ética. Eu expresso aqui minhas opiniões, faço críticas a inúmeras coisas, mas assino meu nome embaixo e ainda coloco minha foto. E esse princípio não é uma mera opinião pessoal, pelo contrário, ele consta até na Constituição Federal de 1988, e te dou as coordenadas para conferir:

Título II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais

Capítulo I, Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos:

Art. 5º, inciso IV: “é livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato”.

Ou seja, você pode falar o que quiser, contanto que se identifique. E não adianta colocar um nome fictício, quero nomes e sobrenomes verdadeiros que eu reconheça.


Bem, vamos analisar a crítica passo a passo.

Você disse: "esse seu post mostra o quanto você é ignorante acima de tudo, pois acreditar que engenheiros ou farmacêuticos não tenham pensamento crítico é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo.”
Você, que fez Psicologia, já deveria saber que os valores e as aptidões das pessoas determinam a escolha da profissão. A pessoa que acha que o dinheiro é o primordial, e que pensa que o importante é “ganhar bem” e não “fazer o que gosta”, não vai fazer um curso como Geografia, por exemplo. Uma pessoa que adora debater sobre assuntos da sociedade, e se aprofunda no assunto, não vai querer ter um trabalho em que ela fica o dia inteiro montando circuitos eletrônicos. Uma pessoa que tenha talento pra música, mas que se importe muito com o status social,vai procurar um curso que lhe confira esse status (como Medicina ou Direito, por exemplo), por mais que não tenha a ver com seu talento. O engenheiro (e uso essa profissão apenas como símbolo de profissões em que não se usa o pensamento analítico e reflexivo para o exercício de tal ofício) geralmente não tem o senso crítico que pessoas da área de Humanas têm (e é justamente por isso, também, que ele vai procurar um curso em que ele não precise ter esse senso crítico) assim como a pessoa que não entende nada de matemática vai procurar um curso em que ela não use esse tipo de conhecimento. Em contrapartida, quem faz um curso de humanas, geralmente, não tem habilidades para a área do raciocínio lógico e abstrato, e muitas mal conseguem resolver um sistema de equações. Não é ofensa. É uma questão de aptidão, de habilidade. E isso é senso comum, não precisa nem ter estudado Orientação Profissional pra perceber isso. E doa a quem doer, isso é um fato. Essa é minha visão sim pois, se pessoas que durante 5 anos estudaram diversos filósofos e diversas teorias do comportamento continuam bitoladas e com comportamentos padronizados, imagine então quem ficou esse mesmo período de tempo tentando achar o valor de x.

“(...)é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo.”
Essa sua visão não me espanta, afinal, para pessoas cujo lema é “viver o momento sem se preocupar com nada, o que importa é se divertir”, ter qualquer engajamento e/ou defender seus ideais com veemência, significa “ter neuras”. Pra pessoas como vocês, o ideal é “fechar os olhos pras coisas que precisam ser mudadas e fingir que o mundo está lindo do jeito que está”.


“quem se diverte é taxado então por você como moralista conservador”.
Eu não sei se você se expressou mal, ou se é incapacidade de interpretar um texto mesmo. Reli a frase várias vezes para tentar entender qual das duas alternativas era. Bem, já que você, pelo visto, leu todos os meus posts, você viu que eu toquei nesse assunto no texto “É proibido proibir” que, aliás, foi o texto que eu mandei a vocês nos emails da turma após a formatura. Eu disse (e bem claramente) que as pessoas hoje em dia não sabem mais diferenciar o que é ser um moralista conservador e o que é ter senso crítico. E que, para essas pessoas, tudo se justifica pela diversão e pelo dinheiro, e que quem critica qualquer coisa (ou seja, quem tem um posicionamento crítico) é taxado de moralista conservador. Em momento algum eu disse que quem se diverte é um moralista conservador; é justamente o contrário disso. Não foi uma idéia complexa de se entender, e até um aluno da 7ª série entenderia.


“em vários posts vc volta a citar a história do funk no baile”
Você tentou disfarçar, mas aqui não conseguiu esconder que é uma colega de turma minha. E, como eu disse, você provavelmente leu todos os meus textos (Curiosidade mata...).E, pra sua informação, eu só mencionei a história do funk no baile nesse texto do “É Proibido Proibir”. No texto “O preço da diferença” eu mencionei algo sobre não gostar de dançar, mas não estava me referindo ao funk do baile. Eu estava me referindo a qualquer tipo de dança e, segundo a idéia no texto, todo mundo que é diferente (leia-se “que tem personalidade” e não faz o que está todo mundo fazendo) paga um preço por isso. Um dos exemplos, ademais, foi o de não gostar de dançar ( e que as pessoas que não gostam de dançar têm sempre que ficar se protegendo dos outros que ficam tentando arrastá-las pra pista de dança), afinal, na visão de pessoas com comportamento padronizado, quem não gosta de dançar é um alienígena.


“pq isso representa o quanto a sua neura te impede de se divertir”
Eu me divirto, e muito. Acontece que o meu conceito de diversão é completamente diferente do seu. O seu conceito de diversão é fazer o que está todo mundo fazendo, afinal, quem diz “não” a qualquer coisa e assim se mantém autêntico e coerente, é um chato. O seu conceito de diversão é fazer até o que não faria normalmente, afinal, "é festa" e "em ambientes festivos não se precisa manter os valores se as pressões do grupo assim o exigirem". O seu conceito de diversão é dançar simulando sexo anal na frente de toda a família e, para pessoas como você, quem não faz isso é porque tem um problema psíquico que a impede de se divertir. Que valores mais assustadores. E, felizmente, eu aprendi em casa que não preciso arregaçar o rabo na frente dos meus avós para estar me divertindo.


“vai se tratar guria, dá medo de vc atendendo pacientes, sério mesmo.”

No meu texto sobre as fraudes de psicólogos, a minha teoria era a de que algumas pessoas não tinham condição ética e crítica para atender pessoas. E você quis devolver a mesma idéia pra mim. Só fico com pena, pois não conseguiu nem inventar um argumento novo; teve que imitar o meu.

E por fim: esse blog é meu e eu escrevo o que eu quiser. Quem não gosta que vá ler revista Caras.