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domingo, 24 de novembro de 2013

Mulheres ainda querem homens das cavernas


Tem mulher que ainda quer um parceiro homem das cavernas. Pelo menos é isso o que eu deduzo quando fico sabendo que alguém deu um fora em um homem porque ele sugeriu dividir a conta no encontro, e não pagá-la sozinho. Ou, ainda, que alguma mulher teve um encontro ótimo com um cara super interessante, mas que afirma que não dará certo porque ele não tem emprego fixo.
 
 

Ora, para uma mulher dessas, teria algo melhor do que retroceder ao período Neolítico? Nessa época, a divisão de trabalho era marcantemente definida por sexo. Não restavam dúvidas de que o homem era responsável pela proteção e sustento das famílias. Do ponto de vista evolutivo, seria mais vantajoso perder uma mulher do que um homem, pois sem este último o bando teria as possibilidades de provento e sobrevivência fortemente afetados. Poderia haver papel com caráter mais limitante e subordinativo a se conferir às mulheres?

Em 2013, não muita coisa mudou. Não é raro ver mulheres com cara de paisagem quando o garçom traz a conta. Alguns carnês parecem até carregar consigo doenças infecciosas, pois muitas sequer ousam tocá-los. Muitos homens compartilham da mesma linha de pensamento – acreditam que é seu dever pagar a conta, talvez como uma forma de retribuir financeiramente o tempo passado junto (embora eu tema que exista outro nome para isso – e não é bonito). Outros apenas fazem porque é isso que se ouve dizer ser a atitude corriqueira, embora nunca tenham refletido sobre isso. Tantos outros, em contrapartida, acreditam que a mulher deveria compartilhar dessa responsabilidade; quase todos desse grupo, no entanto, preferem se render e ir contra seus princípios caso sintam que isso ameace suas chances de tirar uma calcinha no fim da noite.


Pra você que está procurando um namorado “que te dê segurança”: o da direita é mais gatinho. Fica a dica.

          É tão difícil perceber que a tal “segurança financeira” que as mulheres ainda hoje esperam dos homens não difere em nada da segurança (e controle) outrora oferecida –brutamente – pelos homens que viveram em 10 milênios antes de Cristo?

            O grande conflito paradigmático da atualidade, contudo, é o seguinte: as mulheres nascidas a partir da década de 1980 não esperam mais um homem que lhes forneça tudo para que possam se dedicar exclusivamente ao lar. Ao contrário. Elas desejam ter empregos, profissões, renda própria e até carreiras. Mas ainda assim esperam que o homem seja sempre MAIS: mais estável financeiramente, mais importante, mais bem sucedido, mais poderoso, enfim. Inevitavelmente, até mesmo as relações conjugais se transformam em relações de poder.

            Se este é o paradigma – defendido pelas próprias mulheres – quem de fato está lutando pelas tão aclamadas melhores condições de trabalho para as mulheres? As reivindicações por igualdade em cargos e salários para homens e mulheres não faz sentido, partindo desse princípio. Para que remunerá-los igual, se as próprias mulheres não aceitam ter as mesmas responsabilidades? Para que poder ter as mesmas oportunidades no mercado de trabalho, se a ideia é manter os homens no poder?

Mulheres, meu recado é o seguinte: a sociedade evoluiu. Muita coisa mudou desde o período Neolítico - e deve continuar mudando. As relações sociais ficaram muito mais complexas, os recursos para se viver se tornaram muito mais acessíveis e às mulheres foi concedido o direito à vida pública, que expandiu seu papel social enormemente.

Assumam a responsabilidade e controle de suas vidas. Mudem de paradigma. Pois, da mesma forma que vocês acham “justo” trocar de parceiro por outro que ofereça mais proteção e estabilidade, igualmente “justo” seria um homem trocar sua parceira (você mesma) por uma mulher mais jovem, mais bonita e mais fértil– apenas por esse motivo. Ora, é a lei da selva. Não é essa lei que vocês tanto defendem?

sábado, 19 de janeiro de 2013

Teoria dos Legos

   

          Já falei aqui sobre o tal “cabelo de lego”, aquele corte padrão e sem graça que a sociedade impõe que os homens devem adotar. Defendi, acima de tudo, que minha total falta de atração por tal corte de cabelo não ocorre apenas em função de seu fim estético, mas sobretudo por sua simbologia.

          Muitos se surpreendem com meu posicionamento. A sociedade ainda não parece estar preparada para a teoria dos cabelos de lego. De fato, é uma teoria demasiadamente inovadora e revolucionária até para o ano de 2013. É uma teoria multifacetada que envolve muitas variáveis. Sob sua ótica, fatores aparentemente desconexos se entrelaçam harmonicamente em uma lógica iluminadora. Ela envolve a problemática de condutas sociais, poder de dominação, padrões de comportamento, paradigmas culturais e até feminismo.

O tal "cabelo de lego".

Quem é radical, afinal?



          Muitos alegam que sou radical por considerar o cabelo comprido um pré-requisito para me interessar por um homem. Na realidade, radical é a norma de que todos os homens devem ter cabelo curto. Aliás, quantas mulheres já não disseram com todas as letras que detestam homem de cabelo comprido e, portanto, só ficam com homem de cabelo curto? E por que isso não é radical? Ora, porque esse é o paradigma vigente para a sociedade atual, essa é a convenção social em vigor. Isto é, qualquer que fosse o padrão, X ou Y, poderia ser veementemente reforçado ou rechaçado. E o que define se será reforçado ou rechaçado são as instituições no poder em dado momento histórico/político/econômico. A essência deste sistema é o poder de fazer qualquer coisa - o que convier no momento - ser defendida por toda uma sociedade como certo ou errado.

          Este é o sistema de domínio que define o que as pessoas vão achar bonito ou feio, divertido ou chato, correto ou injusto, ou o que vão apreciar ou depreciar em termos de música. É o sistema que padroniza a sociedade. Estas forças exercem um domínio tão pleno, que se dá de forma tão inconsciente, que as pessoas encaram muitos de seus padrões de comportamento como "naturais". Os homens nem questionam por que têm cabelo de lego. Eles simplesmente têm. Eles simplesmente nem cogitam outras opções. Eles foram hipnotizados pelo axioma segundo o qual "homens têm cabelo curto e mulheres têm cabelo comprido". As mulheres, em contrapartida, sequer refletem por que gostam – ou acreditam que gostam – apenas de homens com cabelo curto. Elas simplesmente gostam e sequer refletem que poderia ser diferente, que isso poderia ser questionável.

          O perigo desse domínio encontra-se justamente quando pensamos em todos os outros valores e formas de conduta que apenas repetimos, sem questionar. Fenômenos mais complexos do que um simples corte de cabelo (não que um corte de cabelo já não carregasse consigo valores, signos e representações complexos o suficiente!) a que estamos sujeitos a defender ou rechaçar com todas as nossas forças, acreditando, quase que num estado hipnótico, que tal posicionamento é genuinamente nosso.



“O que meus clientes vão pensar?”

          Ainda é evidente o preconceito em relação a homens de cabelo comprido em empresas privadas e corporações de todo tipo. Via de regra, é este o motivo que faz tantos homens se renderem ao cabelo de lego.

          Os empresários defendem que o cabelo comprido em um homem é motivo lícito para demitir ou não contratar, e justificam seu preconceito a partir da máxima "o que meus clientes vão pensar?". Esse pensamento é raso e arbitrário por dois motivos.

          Em primeiro lugar, todos somos clientes. Como massa consumidora, toda a sociedade é cliente de alguém. Logo, tal cliente sou eu, é você, é a própria pessoa que articulou tal frase. O empresário que a proferiu compartilha deste preconceito. Um preconceito que é covardemente transferido para outros: os clientes, a sociedade, a massa consumidora – a qual ele mesmo compõe.

          Em segundo lugar, o que o resto da sociedade – os tais “clientes” – tanto tem que exige tanto que estejamos à sua altura? O que seus clientes irão pensar de um funcionário de cabelo comprido, não é mesmo, caro empregador? Seus clientes, aqueles indivíduos ilustres que cheiram cocaína antes de colocar o terno e a gravata, que dirigem embriagados, que jogam lixo no chão, que não se levantam do assento prioritário quando um idoso entra no ônibus, que condenam a corrupção na política mas oferecem propina ao policial para se livrar da multa, que ultrapassam pelo acostamento, que não cumprimentam o porteiro, que estacionam em vagas de deficientes porque “serão só 10 minutinhos”.

          O funcionário adequado para sua empresa deve ser, acima de tudo, um homem de cabelo curto, certo, empregador? Porque, claro, o que mais poderia definir caráter e competência profissional a não ser centímetros de fibra capilar? O trabalhador que você procura deve estar alinhado à representação de sucesso dessa sociedade doente que você ajuda a manter: o cara que troca de carro todo ano, mas não tem dinheiro para pagar o IPVA; que ocupa uma posição de prestígio e poder e assedia sua secretária; que estudou nas melhores escolas, já realizou intercâmbios culturais em diversos países e cujo programa preferido é o Big Brother Brasil. São essas pessoas, exemplo de sucesso, que sua empresa precisa. Todos sempre com o cabelo devidamente podado e alinhado, porque é isso que faz a diferença, obviamente.


O cabelo comprido como crítica social

          De fato, o cabelo comprido em um homem representa um ato transgressor, uma crítica social. Daí seu perigo, aos olhos daqueles que visam manter o sistema. As instituições sociais – principalmente empresas e escolas – não desejam pessoas questionadoras e críticas; desejam marionetes, pessoas que apenas respeitam o sistema, seguem o que é ditado e reproduzem o que já existe. Anseiam pela manutenção do status quo, enfim. Uma das muitas formas de manter tal domínio é padronizando os homens fisicamente.



          Além de mascarar individualidades e esmagar autenticidades, o cabelo de lego reforça velhos padrões de gênero.

          Uma das várias facetas da teoria do cabelo de lego é a problemática de gênero. O cabelo curto é um dos tantos estereótipos masculinos sem sentido. É um padrão de masculinidade inconsistente e ultrapassado, como tantos outros.

          De igual importância, temos a questão da estética propriamente dita. Da mesma forma que as mulheres ficam melhor ou pior de acordo com o corte de cabelo, os homens também. É por isso que mulheres com rostos mais circulares evitam cabelo curto; que mulheres com cabelos finos e demasiadamente lisos optam por repicá-los; que mulheres com cabelos muito ondulados evitam franjas.

          Aos homens, ao contrário, é concedido o direito de não precisarem ser fisicamente atraentes. Pelo menos essa não é, nem de longe, a prioridade. Quantos não dizem que mantêm o cabelo curto porque seu cabelo é "ruim" ou "difícil"? Ora, quantas mulheres também não têm cabelos difíceis, muito volumosos, ou muito murchos; muito ondulados ou muito lisos; muito secos ou muito oleosos? Não é justamente por isso que elas diversificam os cortes, fazem alisamentos, escovas progressivas, permanentes, tinturas, hidratações, etc? E se elas também fizessem como os homens: raspar, ou deixar bem curto, porque é mais fácil?

          Isso está fora de cogitação. Nossas formas de conduta estão assentadas sob o princípio de que as mulheres precisam estar constantemente tomando ações que as tornem sexualmente atraentes. Dos homens, em contrapartida, é exigido apenas um básico ritual de higiene: basta tomar banho, aparar a barba e passar desodorante. E por quê? Porque o desejo da mulher raramente está em questão. "Elas que fiquem com as migalhas", diz a sociedade, nas entrelinhas. Ainda mais triste é o fato de a maioria das mulheres estar tão dominada por essa forma limitada de pensar que sequer percebe que estão se contentando com migalhas.



          É claro que não defendo que todos os homens passem a ter cabelo comprido; isso seria criar um padrão do mesmo tipo. Tampouco defendo que os homens passem a ser tão obcecados por seus cabelos como as mulheres, mas sim que as exigências estéticas sejam menos desiguais. O que sugiro, sobretudo, é que a sociedade reflita sobre as bases que fundamentam seus valores e seus padrões de comportamento.

          Alguns homens realmente ficam melhores com cabelo curto; outros, ao contrário, não seriam tão atraentes se cortasssem suas madeixas. Muitos homens combinam com seus cachos, e por isso deveriam deixá-los crescer; tantos outros se iluminam pelo rosto moldado com as mechas lisas. É esta a diversidade que se faz necessária. Impor um mesmo corte de cabelo a todos os homens, mesmo que não valorize a maioria deles, é um mecanismo de padronização tão alienante que beira a insanidade coletiva.



          Hoje encaramos como absurda a realidade de poucas décadas atrás segundo a qual as mulheres não podiam escolher seus maridos - tampouco podiam escolher não casar. Isto é, elas deveriam se casar com o homem - extremamente nojento, geralmente - que tivesse sido definido por outras pessoas – o pai ou o próprio futuro marido - independente de amá-lo ou sentir atração física por ele.

      De forma análoga, algum dia a sociedade ainda vai se despertar para o absurdo, considerado normal hoje, que é o fato de as mulheres serem impelidas a estarem sempre impecavelmente belas e sensuais, ao passo que devem se contentar com homens pouco vaidosos e pouco atraentes. Algo que poderia mudar – e muito – simplesmente pela iniciativa de alguns homens de diversificarem os cortes de cabelo. Se isto ocorresse, as mulheres não mais ficariam encurraladas por terem que escolher dentre as limitadas opções de homens que compartilham do mesmo corte de cabelo ridículo. Um corte que não pretende deixá-los mais bonitos e atraentes, mas apenas práticos. Um corte cujo único objetivo é facilitar a vida. Dos homens.





sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meu sonho de ser aeromoça



A primeira profissão que quis ter, ainda quando criança, foi a de comissária de vôo. Abandonei a idéia conforme fui crescendo, mas no fundo sempre mantive a mesma atração por este trabalho. Na verdade, até hoje, quando me deparo com um destes profissionais, sinto um friozinho na barriga. É, deve ser amor.
A mulher e o mercado de trabalho nos anos 80 e 90

Minha infância se passou no final dos anos 80 e início dos 90. Apesar de ter tido uma mãe bem sucedida profissionalmente, muitas meninas da mesma idade ainda tinham mães donas-de-casa naquela época. Na mídia, especialmente nas telenovelas e comerciais, a imagem que se passava ainda era a de que as mulheres eram românticas, sonhavam com um marido (“bom partido”, de preferência), de que o ápice da vida de uma mulher seria o dia de seu casamento, de que eram elas as responsáveis pelo lar, etc.
Já era uma época em que as mulheres não enfrentavam relutância da sociedade em trabalhar fora –salvo em certas profissões – mas suas atividades profissionais ainda eram encaradas como sendo de menor relevância e direcionadas para ocupações consideradas “femininas”: subalternas, de baixa remuneração e geralmente ligadas a atividades de afeto. Não preciso lembrar que até hoje as meninas são direcionadas para as áreas que não envolvem raciocínio lógico e liderança.
De todo modo, os valores familiares ainda pregavam que o chefe da família era o homem; que quem “botava comida na mesa” era o marido; que a mulher, se trabalhasse, visava apenas ajudar nas despesas da casa. Daí obviamente surgia a noção, na mente das próprias mulheres, de que prescindiam de um emprego que exigisse grande responsabilidade ou grande remuneração. Poderiam ser secretárias ao invés de executivas, professoras primárias ao invés de professoras universitárias, enfermeiras ao invés de médicas...comissárias de vôo ao invés de pilotos.

Ser ou não ser comissária de vôo: eis a questão.
Aos 19-20 anos, já universitária, vivi um momento muito difícil, de muitas dúvidas, pois não me identificava com a profissão que havia escolhido. Cogitei largar tudo e fazer o que sempre amei, desde os 7 anos de idade: ser comissária de vôo.
       Foi quando finalmente procurei uma escola profissionalizante que desisti da idéia. Os homens iam até aquele estabelecimento para aprender a pilotar aviões. Eu, como mulher, estava indo para aprender a servir passageiros e tripulantes. Dentro do avião, os homens eram pilotos; as mulheres, as “mocinhas bonitas” que serviam as pessoas. Era um sentimento contraditório aos meus ideais feministas.  


Após muita reflexão, percebi que o que eu queria mesmo era trabalhar em escritórios, mexer com computador e papéis. Eu queria ser executiva! Como não tive muitos modelos de mulheres assim em minha infância, principalmente pela televisão, o que mais se aproximava disso era a imagem de comissária de vôo. Esteticamente, elas parecem mulheres de negócios. Entretanto, a falta de modelos me impossibilitou sequer cogitar esse desejo.

Comissárias de vôo e mulheres de negócios: não são parecidas?
O problema não é escolher uma profissão subalterna. O problema é escolher algo porque se é homem ou mulher.
Quero deixar claro que de forma alguma desmereço a importância das professoras primárias, enfermeiras ou secretárias. Todas as ocupações são importantes e gozam de grande mérito. O que coloco em questão é que existe uma incontestável estereotipia sexual de profissões, e muitos homens e mulheres ainda escolhem suas carreiras em função de códigos sociais e estereótipos de gênero.
A própria profissão de comissário de vôo é um grande exemplo. É uma profissão tão sexualizada, no sentido de generizada (gendered), que até pouco tempo atrás era uma ocupação quase que exclusivamente feminina. Felizmente, a flexibilização das diferenças de gênero possibilitou que muitos homens adentrassem no ramo. Isso afetou até a denominação do cargo: passou a chamar-se “comissário (a) de vôo”, e não mais “aeromoça”.
O perigo da sexualização de profissões.
Muitas mulheres ainda não ousam enveredar pelas ciências exatas, mesmo tendo habilidade para tal, por não se sentirem pertencidas àquele universo predominantemente masculino. Muitas se contentam com o curso de Secretariado Executivo, quando na verdade poderiam ter sido grandes empresárias e gestoras. 
Em contrapartida, a educação dos meninos os afasta de ocupações com pouco prestígo social e baixa remuneração. A sociedade rechaça os homens que não correspondem ao ideal masculino de sucesso: rico e bem sucedido. Tendo isso em vista, muitos homens amam a arte, mas optam pela carreira de Direito que a família tanto espera. Muitos seguem infelizes na profissão de médico, pois na verdade desejavam ser biólogos. Outros tantos cursam Engenharia, mesmo sem talento algum, apenas em função da identificação de gênero (Parece brincadeira, mas muitos ainda seguem a lógica: “Sou homem. Logo, serei engenheiro”). 

Ser médico ou biólogo? O status social conferido pela profissão de médico certamente pesará na escolha dos homens.

Identificações e estereotipias de gênero sempre haverá. Todavia, o que espero é que sejam reduzidas ao máximo, especialmente no que tange às ocupações profissionais. Só assim não veremos mais o simples fato de ser homem ou mulher restringir escolhas, sobretudo as profissionais. Só assim não veremos mais sonhos impedidos, desejos reprimidos, habilidades inutilizadas e talentos desperdiçados.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Chega de mordomias!

         


          Fico indignada quando vejo casais em que a mulher não paga nada. Desde uma bola de sorvete até a prestação da casa, tudo é responsabilidade do homem em muitos relacionamentos. Todavia, esse protecionismo que a sociedade confere às mulheres não se restringe a isso. Elas usufruem de diversas mordomias aparentemente benéficas para elas mesmas em diversos outros contextos.

          Em casas noturnas, as mulheres pagam valor de entrada inferior ao dos homens, sem contar as entradas livres. Ao contrário de ser um privilégio para as mulheres, o é para os homens, já que a intenção é disponibilizar o maior número possível de raparigas no ambiente, para que assim os homens possam escolher à vontade, tal como fazem com frutas em frutarias. A legislação de divórcio permite à mulher usufruir de pensão do ex-marido, mesmo quando têm condições  para sustentar a si mesma. Inúmeros são os exemplos.

          E isso é ótimo, não? Claro que não. O que ingenuamente soa como um benefício para as mulheres e algo que as valoriza, só, ao contrário, as minimiza. São instrumentos que as mantêm na condição de inferioridade, que as infantilizam, que as isentam de responsabilidades e deveres, que as impedem de crescer.



          O homem ter o dever de pagar a conta do restaurante, consenso ainda irrefutável para muitas pessoas, é o exemplo clássico de um ato paternalista infantilizante visto como um ”ato de gentileza e educação do parceiro” sob os olhares do senso comum. Mas é, na verdade, um ato de manter a mulher – e todas as demais mulheres, conseqüentemente – na estagnação, na infantilidade, na privação do enfrentamento de deveres e responsabilidades.


          Qualquer ser humano só amadurece quando abandona a educação paternalista que o mantém sob os domínios de uma proteção excessiva. É como o ato de educar uma criança: para permitir que nossos filhos cresçam e amadureçam, precisamos incumbí-los de responsabilidades e privá-los de medidas protetoras demasiadas. Eles devem aprender a se vestir sozinhos, fazer a própria comida, arranjar um emprego, enfrentar o mercado de trabalho, sair para o mundo, andar com as próprias pernas. Sair da zona de conforto, enfim.

          Acobertado sob uma criação paternalista e superprotetora, ninguém vai a lugar algum. Todavia, é isto que ocorre com as mulheres, porém durante toda a vida, inclusive – e principalmente - na idade adulta. Elas são resguardadas de diversas responsabilidades, sobretudo as financeiras, sob o disfarce de polidez e gentileza. O que se resguarda, na verdade, é a possibilidade da mulher crescer e exercer sua cidadania plena. Direitos iguais também significam deveres iguais. Não há bônus sem ônus.

          Mulheres, saiam da zona de conforto. Paguem a conta do restaurante, dividam a prestação da casa, façam a baliza sozinhas sem passar o volante a um homem, vão vocês mesmas até o local onde precisam ir sem esperar que o homem seja seu motorista particular. Queiram direitos e, conseqüentemente, deveres. Não queiram mordomias.


  

sábado, 26 de maio de 2012

Saúde da vaidade

É incrível como as pessoas empreendem esforços homéricos para se adequarem ao padrão de beleza vigente. Passam fome propositalmente; trocam uma lasanha deliciosa por uma porção sem graça de alface; perdem o momento de ajudar os filhos na lição de casa, mas não perdem a sessão de spinning; dizem que adorariam aprender a tocar um instrumento musical e não o fazem porque não tem dinheiro, mas pagam satisfatoriamente a mensalidade da academia.
Mas o mais surpreendente é como elas justificam tudo isso: “é pela saúde”. Ok, fazer exercícios é recomendação médica. Evitar determinados alimentos previne certas doenças. Levar uma vida saudável é requisito para a longevidade. Mas as pessoas que dizem isso são as mesmas que se orgulham do quanto beberam nas festinhas com os amigos, que fumam, que bebem muito mais Coca-Cola do que água, que usam drogas para “se soltarem mais” nas noitadas, que misturam energéticos a bebidas alcoólicas, que já deformaram os ossos dos pés por usarem salto alto indiscriminadamente, que prejudicam a pele a expondo ao sol exageradamente e sem cuidado algum, que consomem suplementos alimentares potencialmente cancerígenos para evidenciar a musculatura, que ingerem remédios emagrecedores com fórmulas mirabolantes e cheios de efeitos colaterais, que fazem sexo sem preservativo.

Isso realmente tem cara de ser muito saudável.

Os remédios emagrecedores te deixam magra, mas sem saúde nenhuma por dentro.

Montagem esteticamente exagerada, mas de fundo verdadeiro: salto alto em excesso retrai a musculatura da panturrilha, atrofia o tendão de Aquiles e pode até modificar a estrutura da coluna.

Não sei se a imagem é real, mas deu pra entender a idéia.


Ora, vocês não acham que a busca por uma vida saudável deveria envolver muito mais do que técnicas para emagrecer ou métodos para enrijecer os glúteos e secar a barriga? Tem algo incoerente aí, não? E quem disse que ser gordo é sinônimo de falta de saúde? Muitos gordos têm mais saúde do que muitas pessoas magras. Muitos gordos têm melhor índice de colesterol do que muitos homens que estão na faixa ideal de peso. Muitas mulheres magras têm anemia (pesquisas indicam que mais de 30% das brasileiras sofrem de insuficiência em ferro), problema de saúde este, dentre muitos outros, que muitas mulheres acima do peso não têm.
É evidente que não estou generalizando. Não são todas as pessoas que fazem academia ou regime que o fazem apenas por estética. Problemas de pressão alta, diabetes e obesidade são apenas alguns exemplos de como estas medidas são, por vezes, realmente necessárias. Mas é inegável que grande parte dos adeptos tem outro objetivo.
Como já disse em outro texto, não sou contra a vaidade. Não a vaidade em si, mas sim a supervalorização do corpo em detrimento de outras coisas, em especial em relação à mulher, pois é inegável a problemática de que, julga-se, nosso único poder é pela beleza e que devemos nos afirmar socialmente por este meio.
Todavia, se você quer levar uma vida focada no corpo, é um direito seu. É você quem decide. Quem sou eu para impedir? Mas seja coerente. Admita que quase tudo o que faz é puramente por estética, para se sentir adequado, para seguir a uma ditadura de beleza e para corresponder ao que a mídia e a sociedade em geral espera de você. Confesse que a saúde pouca importa. Ou então, quando alguém te perguntar porque você evita um pedaço maravilhoso de pizza "porque faz mal", mas toma shakes emagrecedores suspeitos; porque não toma refrigerante devido ao açúcar excessivo e prejudicial, mas consome anabolizantes e derivados; porque enche o corpo de substâncias ilícitas nas noitadas, mas evita uma irresistível porção de batata frita porque “fritura é nociva”, responda: “ é tudo pela saúde. Saúde da vaidade”. Será mais sincero.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Relacionamentos por interesse. De quem?




Fiquei consternada quando me deparei com este vídeo (abaixo) na internet. Ele mostra a estratégia de um trabalhador “braçal” para conquistar uma mulher que trabalha na empresa para a qual ele está prestando serviço. Cansado de ser desprezado pela moça, ele aluga um BMW, compra roupas caras e consegue chamá-la para sair. Ele a conquista e, no dia seguinte, enfrenta a situação estranha de se encontrar novamente com a mesma mulher, em seu trabalho, porém agora de volta a seus trajes normais.


Não é de hoje que as mulheres levam fama de interesseiras, mas isso sempre me soou como algo irreal. Primeiro porque eu, particularmente, nunca fui uma mulher interesseira. Ao contrário, eu nunca senti atração por homens bem sucedidos, “engomadinhos”, estilo executivo. Eu gosto de cara toscão mesmo. É, daquele tipo que chega em casa todo sujo segurando uma caixa de ferramentas.
Em segundo lugar, eu nunca fui amiga de mulheres interesseiras. Sempre procurei estar ao redor de mulheres inteligentes, independentes, e que, se almejam algo, vão atrás por si próprias, e não através de um homem. Sendo assim, esse assunto sempre foi muito alheio às minhas experiências de vida.

“Bom partido”, pra mim, é o cara da direita e abaixo: o personagem “faz-tudo e pobretão” interpretado por Kurt Russell em “Um Salto para a Felicidade”.


Interesseira pela educação machista ou por psicopatia mesmo?
Acredito que existam dois tipos de mulheres interesseiras: aquelas que até gostam do cara, mas que consideram um complemento que ele ganhe bem. Resguardam sentimentos verdadeiros de amor e afeto pelo companheiro, mas esperam que seja ele quem compre a casa, o carro, que pague o IPVA, etc. Algumas até esperam que ele já tenha tudo isso antes de começar a namorá-lo. O salário dela (se houver), fica reservado para as coisas mais superficiais.
Embora seja uma atitude repulsiva, é compreensível - o que não quer dizer justificável. A educação que se dá às meninas, ainda, é de que o maior objetivo de vida é conseguir um marido bom partido. Mesmo as que são incentivadas a estudar e a trabalhar, ouvem, por seus mais diversos vínculos sociais, que quem põe comida na mesa, mesmo, é o homem; que é responsabilidade dele prover a família; que é ele quem deve ganhar mais; que é culpa dele se o casal não pode levar o padrão de vida desejado.

        Digo que isto é compreensível, porém não justificável porque, mesmo recebendo tal educação, todos têm o poder – e dever – de transgredir, de desenvolver um senso crítico para questionar os valores que são passados e assim fazer o que é certo e justo, e não o que é conveniente. Isto é, por mais que estas mulheres ajam de tal forma por falta de orientação e falta de esclarecimento feminista, não posso perdoá-las porque supostamente seriam meras vítimas. Elas sabem muito bem o que estão fazendo e estão cientes do prejuízo disso para a própria condição social da mulher em geral (se elas mesmas esperam que o homem ganhe mais, quem irá lutar contra o preconceito de gênero no mercado de trabalho e contra os salários desiguais?).
            Eu mesma tive uma educação machista. Sim, daquelas que prega que a mulher faz a comida e lava a louça enquanto o homem fica coçando o saco assistindo futebol; que eu devo estudar e crescer profissionalmente, claro, mas que meu marido deve ganhar muito mais do que eu; que mulher que sai com muitos caras é “piranha”, mas o homem que faz isso é um garanhão sortudo, etc. Não preciso dizer o quanto eu saí pela tangente destes valores, felizmente!


Exemplo de homem “estilo filho da puta deputado” que minha família quer que eu namore. Vão ficar querendo.

O segundo tipo de mulher interesseira é aquele em que o desejo pelo homem é tão falso que beira a psicopatia. São os casos de relacionamentos que se mantêm meramente por interesse financeiro. São geralmente mulheres belíssimas com homens horrorosos.


Tenho a leve impressão que ele é rico. Posso estar enganada.

Tenho certeza de que a beleza interior é o que une este apaixonado casal.




O fato de eles serem ricos é mera coincidência, né não?



Ana Furtado e Boninho: ela, linda; ele, feio, escroto e ainda por cima diretor do BBB. Ou seja, porcão na enésima potência.
Ora, alguém me explica o que uma mulher linda e doce como a Ana Furtado está fazendo com o Boninho, um homem tão nojento que dá até ânsia de vômito? Manter um relacionamento amoroso – ou apenas sexual – com um homem apenas por dinheiro é tão frívolo, tão leviano, tão dissimulado, que beira a psicopatia.
Relacionamentos ganha-ganha
Da mesma forma que no mundo corporativo existem as tais negociações ganha-ganha (win-win negociation), isto é, em que ambas as partes tiram grande proveito de determinado acordo comercial, tal lógica se repete no mundo dos relacionamentos. Nos relacionamentos ganha-ganha, cada parte leva o que quer: ela, presentes caros, carros importados, mordomias; ele, sexo.
Mulheres interesseiras existem, sim, não vou negar (embora não façam parte de meu meio social). Mas da mesma forma que eu não convivo com elas, os homens também poderiam não fazê-lo. Existem inúmeras mulheres não-interesseiras e que desejam conquistar bens materiais e imateriais por si próprias. Se os homens queixam-se de só encontrarem mulheres interesseiras, é porque estão procurando nos lugares e circunstâncias errados. Pior: estão procurando as pessoas erradas.

O interesse é só da mulher?




Ele também não é santo.
 
Ao ver a foto acima, por exemplo, todos centram-se no fato de que “ela é uma vagabunda que está com ele apenas pelo dinheiro”. Mas ninguém se atenta ao fato de que ele é tão superficial e interesseiro quanto ela. Ele também só está com ela por um motivo: seu corpo e os prazeres sexuais daí advindos.
Nunca irei defender as mulheres interesseiras. Elas ferem a imagem de todas as mulheres, e não só a delas mesmas. Ou alguém tenta defender que tal mulher é interesseira “porque é capricorniana”, “porque é irmã caçula” ou “porque adora sorvete”? Não, ao contrário, a justificativa é sempre “porque é mulher”. Sendo assim, é um julgamento que se faz a todas as mulheres indiscriminadamente e que afeta todas elas, mesmo as que nao têm nada a ver com isso.
De todo modo, também não aceito ver homens igualmente superficiais e interesseiros se fazendo de vítima. Os homens que se envolvem com elas sabem muito bem onde estão pisando, com quem estão se metendo. Eles estão com elas porque querem, porque também têm algum ganho nesse tipo de relacionamento. Estar perto delas é, portanto, uma questão de escolha.
É como diz um ditado moderno que corre nas redes sociais: “Mulheres que escolhem os homens pela carteira não podem reclamar de serem tratadas como mercadoria”. Não poderia concordar mais. Todavia, ele merece um complemento: “Homens que escolhem as mulheres pelo tamanho da bunda também não podem reclamar de serem tratados como uma mera carteira”.