segunda-feira, 26 de outubro de 2009

V Conferência Nacional de Mídia Cidadã

Vou contar aqui minha experiência na V Conferência Nacional de Mídia Cidadã, evento no qual apresentei meus 2 vídeos, um sobre a influência da mídia na auto-estima feminina, e outro sobre baixaria na TV (termo que utilizo para me referir à apelação sexual na televisão).

Olhando para o cronograma das apresentações (teriam apresentações de vídeos, artigos, palestras e lançamentos de livros), estranhei que não havia um sequer trabalho sobre a vulgarização e apelação sexual na televisão (e tudo o que isso acarreta, como a sexualização precoce; a subjetividade feminina desvalorizada; a imagem mercantilizada da mulher, usada como mero objeto sexual de uso e desuso, etc) e, evidentemente, não há como debater cidadania na televisão sem tocar neste ponto.

A sexta-feira do dia 9 foi destinada à exposição dos vídeos e, ao final da tarde, haveria um debate de 30 minutos para discuti-los. O vídeo “Mídia e auto-estima feminina” foi o segundo a ser apresentado, e o “Baixaria na TV”, o terceiro. O primeiro vídeo de todos foi um documentário realizado em uma escola, como cobertura da comemoração do Dia da Mulher. Era um documentário nos moldes jornalísticos, com câmeras, filmagens de pessoas, entrevistas. Ao me levantar para apresentar meus vídeos que seriam apresentados na sequência, logo informei que eram vídeos simples, caseiros, fora dos moldes jornalísticos. Passei essa informação, no entanto, sem preocupação alguma, afinal, não sou da área da comunicação e minha preocupação maior com aqueles trabalhos era incitar uma reflexão, e não apenas repassar uma informação (que é o objetivo principal do jornalismo). O “produto final” pensando em termos de qualidade técnica, pra mim, era o de menos.

Depois dos meus vídeos um vídeo se passou. E dois. E três. E cerca de 10 vídeos no total. Todos no mesmo formato jornalístico, meramente informativos, nos mesmos moldes de filmagem, edição, sonoridade. Ali comecei a perceber que estava no lugar errado.

Iniciado o debate, uma moça se prontificou a falar, e foi logo parabenizando meus vídeos, afirmando que estava muito feliz em saber que ainda há pessoas que refletem sobre a influência negativa que a mídia exerce sobre a sociedade e, principalmente, sobre as crianças. Fiquei muito contente, pelo menos o lugar não estava infestado de pessoas com críticas ingênuas e vazias, como as que só são capazes de dizer “mas nem tudo é influência da mídia”, ou “mas eu gosto de ver baixaria na TV”, ou, pior ainda, “o mundo é assim mesmo”. Logo em seguida, porém, um rapaz da platéia pega o microfone para alertar que muitos vídeos – especialmente os meus, segundo ele – tendiam para uma “demonização da mídia”, e que tínhamos que tomar cuidado com isso. Ele alegou que muitas pessoas têm a tendência de culpar a mídia por tudo (e acrescentou que isso era uma forma de cada um se eximir de suas responsabilidades), e que acabavam encarando fantasiadamente a mídia como algo com vida própria, como algo personificado.

Resumindo: na visão dele, a mídia é uma instituição imparcial na sociedade, que não exerce tanta influência assim nas pessoas. Não foi difícil responder a ele, e o alertei que eu não estava vendo a mídia como “uma entidade transcendental” que exerce um poder supremo e indefectível sobre as pessoas, mas que, ao contrário disso, o que deixei bem presente e claro nos meus vídeos, era justamente a idéia do quanto cada um, individualmente, tem de responsabilidade na manutenção desse tipo de mídia, ou seja, o que cada um fazia para promover os lixos que a mídia nos apresenta e, logicamente, o que cada um poderia fazer para não mais ser conivente com isso.

A crítica deste rapaz, que provavelmente era da área da comunicação social (possivelmente do jornalismo, tendo em vista sua desenvoltura para falar em público e por sua defesa ferrenha aos sistemas de mídia, afinal, como ele iria falar mal do “chefão” dele?) foi tão ingênua, que até um outro jornalista que estava na platéia ousou responder a ele. Este disse ao primeiro rapaz que não há equívoco algum em “personificar” a mídia, afinal, ela responde a uma estrutura de poder, poder este, aliás, que pertence a uma pessoa,ou a um grupo de pessoas. A mídia adota a forma que tem porque alguém a faz ser assim. Acrescentou ainda que ele não fazia esse tipo de mídia, mas que achava bem possível que muitos ali o fizessem.

Começou-se então a debater outros vídeos, e caiu-se numa discussão meramente técnica sobre os vídeos. Discussões como “por que filmaram o microfone?”, “por que cortavam a cena quando a entrevistada começava a chorar?”, “por que utilizar câmera 35mm”? Ou seja, a discussão se limitou à semiótica do jornalismo. É evidente, no entanto, que a discussão da semiótica do jornalismo é necessária, justamente por estarem presentes nos signos as reflexões que se deseja passar.

Acabado o evento, a mesma moça que elogiou meus vídeos no debate veio pessoalmente a mim, dizer que admirava muito minha coragem por ter abordado aquele tema naquele meio. Fiquei confusa, não entendi porque precisaria ter coragem para estar ali. Quando lembrei do cronograma do evento e que nenhuma trabalho abordava os temas que eu abordei, juntei o comentário desta moça à crítica do rapaz e ao debate puramente técnico dos vídeos e montei o quebra-cabeças. Então tudo se encaixou! Ali vi que, embora eu estivesse num evento sobre Mídia Cidadã, meu trabalho não era um trabalho de comunicação social. Era, isso sim, um trabalho sociológico, psicológico. E adentrar nesse tipo de reflexão era pedir demais naquele meio de profissionais que estão mais preocupados com a qualidade técnica do “produto final” do que com o impacto social deste produto final.

Tive a sensação de que meus vídeos causaram uma espécie de choque no público. Eu os choquei porque eles -que eram todos profissionais da comunicação social- estavam ali
tentando mostrar meios de se fazer mídia cidadã, e o que eu fiz foi justamente o oposto: mostrar o que se tem feito até agora na nua e crua realidade. Em outras palavras: o que eles, como profissionais da área, vinham fazendo até então e como o que tem sido feito é justamente anti-cidadania.

Confesso que fiquei um pouco decepcionada, porque percebi que até quem está tentando fazer mídia cidadã ainda não sabe exatamente o que é isso. Fiquei desanimada porque percebi mais claramente o porquê da mídia, hoje, ser assim: ela é assim porque quem está efetivamente fazendo mídia (os profissionais da comunicação social) ainda não se deu conta do impacto que ela exerce sobre a sociedade.

Tenho consciência, entretanto, da dificuldade que muitos jornalistas bons têm para passar alguma reflexão crítica na mídia. Todo mundo sabe o quão “editado” é o mundo do jornalismo. A informação chega até nós de forma muito tendenciosa. Qualquer um que conheça alguém do meio, ou que já tenha tido qualquer tipo de participação na mídia (seja em entrevistas, jornais, revistas, televisão) sabe que eles editam muito do que a pessoa falou pra fazer com que a matéria tenda para o lado que eles desejarem. É por isso que muitos jornalistas bons, muitas vezes, não conseguem transmitir a idéia que desejam. Mas também devo ser realista e encarar o fato de que muitos não o fazem porque não tem grandes reflexões para passar adiante mesmo.

Muitos já me disseram que eu deveria ter feito jornalismo. Admito que nunca pensei em ser jornalista, mas, se em algum momento eu considerei ligeiramente essa idéia, confesso que estou tranquilíssima por ter outra profissão. O motivo? Sem ser da área, estou fazendo muito mais mídia cidadã do que poderia estar fazendo se trabalhasse para os meios de comunicação formais.

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domingo, 18 de outubro de 2009

Homenagem ao Miguelzinho

Embora eu tenha defendido no último post que tenho um tema e que, por isso, não falo sobre qualquer assunto, vivenciei um acontecimento que me fez mudar de idéia. Vou acrescentar a este blog o tema “Proteção aos animais”, coisa, aliás, que já defendo há algum tempo.

Meu cachorrinho chamado Miguelzinho foi atropelado e ficou gravemente ferido. Teve que retirar o baço, suturar o fígado e amputar uma das patinhas. Havia tido uma lesão neurológica e provavelmente não iria voltar a urinar e defecar sozinho, apenas com sonda. Milagrosamente ele não havia morrido na hora. Embora eu estivesse ciente dos riscos que ele ainda corria devido à gravidade do caso, acreditei que ele ficaria bem pois era um cachorro forte e parecia estar se recuperando. Infelizmente, este sábado ele não resistiu aos ferimentos e morreu.

Minha mãe, minutos antes dele morrer, disse a ele que, se ele estivesse sofrendo muito e se quisesse partir, que ele podia ir em paz. Não deu 20 minutos e ele arrancou tudo o que tentava mantê-lo vivo: o dreno, o soro, os curativos. Ele ouviu as palavras de minha mãe e optou por morrer, pois estava sofrendo demais. Lembrei, então, que todos os dias em que eu ia vê-lo na clínica, durante o período de duas semanas que ele lá ficou, eu dizia a ele que estávamos morrendo de saudades e que o estávamos aguardando em casa. Aí me dei conta da força das palavras que eu dizia a ele; ele só tentava permanecer vivo para não nos decepcionar, tamanho era o amor que ele sentia por nós.

Meu Miguelzinho morreu e saber que ele nunca mais irá voltar me causa uma dor inconsolável. Tudo o que eu queria era tê-lo de volta pra mim. O que me resta é esperar que ele esteja em um lugar infinitamente melhor que este, sem dores, com todas as patas, e alegre como sempre foi.

Mas o motivo pelo qual estou escrevendo sobre isso é outro. Como tive contato com a rotina diária de uma clínica veterinária, descobri coisas horríveis. Muitas pessoas abandonam seus animaizinhos porque eles foram atropelados ou porque ficaram doentes. Muita gente acha que animal de estimação é brinquedo: o querem apenas quando ele “funciona”. Quando o brinquedo “estraga”, não querem mais e jogam fora. Muita gente, aliás, só quer ter cachorro de raça. E o problema começa aí.

Sempre questionei quem só quer ter cachorro de raça. Em primeiro lugar, um amigo animal não se compra, se adota. Em segundo, existem milhares de cachorros abandonados à espera de um lar e de carinho. Desprezá-los e só querer cachorro bonito e de raça é até pecado.

Muitas pessoas pedem para o veterinário realizar eutanásia em seus cachorros só porque eles tiveram um ferimento. É claro que os médicos veterinários que aceitam realizar tal conduta não têm ética alguma - nem sentimentos. Felizmente, existem alguns veterinários que se recusam a realizar eutanásia nestes casos desnecessários e, geralmente, acabam adotando estes cachorros. (Que fique claro para quem não sabe interpretar direito e fica louco pra achar algo no texto pra criticar: não estou me referindo à eutanásia nos casos em que os animais não têm mais salvação, mas, sim, nos casos em que o cachorro só precisaria de uma ou algumas cirurgias, mas o dono quer fazer eutanásia só para não se incomodar, porque assim será mais fácil e barato).

Na gaiolinha ao lado da do Miguelzinho, tinha um cachorrinho que havia sido atropelado por um caminhão e que, por isso, teria que realizar cirurgia nas pernas, na bacia e no quadril. Embora a cirurgia na bacia fosse complicada, ele iria ficar bem, e nem sequer iria precisar amputar as patas. A dona deste lindo e inocente cachorrinho pediu à veterinária para matá-lo. Ela se recusou a fazê-lo, afinal, estudou 5 anos para salvar animais, e não matá-los. Infelizmente, a dona do cachorro o tirou da clínica e desmarcou a cirurgia. Provavelmente foi procurar outro veterinário – algum monstro sem ética nem sentimentos – que concordasse em matar o cachorro. Quando lembro dos lindos olhinhos castanhos daquele cachorrinho olhando pra mim, me dá uma tristeza que se soma à tristeza de ter perdido meu Miguelzinho. Tristeza porque tudo o que aquele bichinho inocente queria era viver, amar e ser amado. E a pessoa que deveria amá-lo – sua dona – queria assassiná-lo porque assim seria mais fácil. Se eu soubesse onde essa mulher mora, iria até lá dizer coisas a ela que a fizessem ver o quão ruim ela é. Gostaria que um dia ela quebrasse as pernas e que sua família sugerisse ao médico para matá-la de uma vez, afinal, “assim seria mais fácil e barato”.

A lembrança do lindo olhar daquele cachorrinho, suplicando apenas por ajuda e carinho – que agora provavelmente está morto, assassinado por sua própria dona – me assombra e fortalece minha tristeza decorrente da perda do meu Mig.

Estou tranqüila porque sei que fui capaz de amar verdadeiramente o meu animalzinho, coisa que muita gente jamais será capaz de fazer. Muitos amam só quando o cachorro é de raça ou enquanto estão saudáveis, o que, justamente por isso, não pode ser considerado amor.

Estou sofrendo muito pelo Miguelzinho porque ele morreu e nunca mais irá voltar pra casa. Mas agora sofro, também, por todos os demais cachorros que estão vivos em suas casas acreditando que são amados por seus donos, mas cujo amor não passa de uma ilusão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

À menina de 14 anos

Eu publico todos os comentários que me deixam e, tentando ser o mais democrática possível, publico também as críticas que me fazem. Nestes casos, porém, eu publico a crítica em um novo post para poder responder. Essa atitude pode parecer um pouco arrogante, mas é que eu adoro debater e sinto uma vontade irresistível de responder, especialmente quando os argumentos são fracos e quando a pessoa se ocupa mais de criticar a minha pessoa do que minhas idéias.
Reservo esse post, portanto, para responder uma crítica que recebi sobre o texto “Pelo direito de me sentir bem com um sutiã P”. Eis a critica:

“Bom, tenho 14 anos e encontro facilmente nas lojas sutiã P, SEM ENCHIMENTO. Entendo q se vc acredita q usando um sutiã todos os dias com enchimento tera a sensação de q não vivera sem ele, é pq n esta segura de ser uma mulher com pouco peito.A impressão q tenho é q vc é revoltadinha pq n tem peito.Ja imaginou q existem mulheres q tem peitos grandes naturais e tb tem problema c sutiã?Alguma vez já se colocou no lugar de uma pessoa, deficiente fisico, q encontra dificuldades em se locomover pelas ruas de curitiba?Penso q não, pq percebo q seu questionamento a respeito da vida baseia-se apenas em situações q envolvam a estética.”
Bem, para não perder o costume, vamos analisar a crítica por partes.

“Entendo q se vc acredita q usando um sutiã todos os dias com enchimento tera a sensação de q não vivera sem ele, é pq n esta segura de ser uma mulher com pouco peito”.

Eu nunca disse que eu não uso sutiã com enchimento porque me dará a sensação de que não viverei sem ele. Eu disse que esse é um efeito inconsciente sobre a maioria das mulheres que não refletem sobre isso, mas o fato de eu particularmente não usar sutiã com enchimento é por outro motivo. Eu não uso sutiã com enchimento porque eu não aceito a imposição simbólica fundamentada nessa moda, segundo a qual “pra ficar bonita você tem que fingir que seu peito é maior do que realmente é”.

“A impressão q tenho é q vc é revoltadinha pq n tem peito.”

Acho que essa é a pior das falácias. Isto é, atacar o interlocutor apelando para suas características físicas, tentando encontrar, em tais características, a justificativa para ele pensar de tal maneira. Tentando, por esse viés, destituir de sentido o que foi dito. Além de ser uma falácia, é um julgamento arbitrário, pois analisam-se variáveis que deveriam ser imparciais em determinado contexto. Ou seja, esse argumento é arbitrário - e, por isso, inconsistente - porque supõe que, se eu sou contra sutiãs de enchimento ou silicone, “é porque não tenho peito”. Aí dizem: “ah, ela pensa assim porque não tem peito”. Agora, se uma mulher tem bastante peito e é contra o silicone, vão julgar: “que credibilidade você tem pra ser contra o silicone?Você tem peito, então não tem moral pra falar sobre isso”. Percebem? Tendo ou não tendo peito, esse argumento falacioso sempre suporá que quem é contra silicone ou sutiã com enchimento não tem respaldo para se posicionar de tal forma. Mais um exemplo: se sou contra o padrão de beleza imposto e não correspondo a esse padrão, vão dizer: “ela é contra porque é feia”. Agora, se sou contra esse padrão de beleza e me adequo perfeitamente a ele, vão dizer: “mas quem é ela para ser contra o padrão de beleza?Pra ela é fácil falar, ela é bonita, por isso não há crédito no que ela diz”. Em outras palavras, é o famoso “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

"Ja imaginou q existem mulheres q tem peitos grandes naturais e tb tem problema c sutiã?"

Com certeza, existem muitas mulheres que têm seios grandes e também têm problemas em achar sutiã. Mas aqui eu falo sobre as situações que eu experiencio, e o fato de eu não comentar sobre as situações difíceis pelas quais outras pessoas passem não quer dizer, em hipótese alguma, que eu não compadeça com a situação delas, tampouco significa que eu considere a minha situação pior. Eu estou aqui para falar das coisas que eu vivo, pelas quais eu passo. Eu adoraria conseguir escrever sobre todas as situações conflitantes pelas quais um ser humano pode passar, mas, infelizmente, minhas habilidades linguísticas restringem-se a conseguir escrever tão somente sobre as situações pelas quais eu passo. Resumindo: o fato de eu não abordar outras situações não significa, repetindo, que eu não compadeça com elas ou que eu não as reconheça como situações angustiantes. Significa, tão somente, que eu não escrevo sobre o que não passo.

“percebo q seu questionamento a respeito da vida baseia-se apenas em situações q envolvam a estética.”

Engraçado, todos os autores famosos, especialistas, palestrantes, pesquisadores, etc, limitam-se a versar sobre um único tema. Isto é, seu nome passa a estar explicitamente associado a um tema. Existem pessoas que só escrevem livros sobre Direito Trabalhista, ou sobre Gestão de Riscos, sobre Sexualidade na Adolescência ou sobre Educação Infantil, etc. Tais especialistas, em seus livros e entrevistas, só falam sobre o determinado assunto que está associado a seus nomes. O especialista em Saúde Geriátrica, por exemplo, decidiu adotar este tema para ser seu objeto de estudo, e foca-se nele. Assim, todos os seus livros, artigos e entrevistas referem-se a tal tema. Agora, por que eu não tenho o direito de ter escolhido um tema e nele me focar? Por que que, se eu falo principalmente sobre feminismo e estética, “é porque tenho uma neura” (como uma colega funkeira diz)? Todo especialista escolhe seu tema. A especialização, aliás, pressupõe que a pessoa versa sobre um tema apenas. Então por que eu não tenho o direito de ter escolhido uma causa específica a abraçar?


Meu tema é o feminismo e tudo o que está associado a ele. Por mais que eu escreva um texto sobre música, sempre vou puxar um gancho para falar de questões de gênero. A questão da estética é apenas um desdobramento do feminismo atual. Não vejo como falar em feminismo na atualidade sem mencionar a questão da ditadura da beleza. E como a questão da estética é um assunto que está muito em voga (a cada semana ouço uma pessoa diferente dizendo que vai fazer uma cirurgia plástica – e infelizmente, não estou exagerando, não), tenho escrito frequentemente sobre ele. Também faço questionamentos sobre consumismo, valores, música, etc. Mas, como eu disse, o assunto que escolhi para escrever é gênero, e vou sempre escrever sobre temas associados.

Não entendo porque falar de feminismo incomoda tanto as pessoas. Se uma pessoa passa a vida inteira escrevendo sobre as espécies de formigas da Amazônia, ninguém fala nada. Agora, se eu só quero falar de feminismo e seus desdobramentos (como estética, por exemplo), é porque “eu tenho uma neura” ou porque “sou obcecada porque não tenho peito” ou porque “sou invocadinha porque sou feia”.

“Alguma vez já se colocou no lugar de uma pessoa, deficiente fisico, q encontra dificuldades em se locomover pelas ruas de curitiba?”

Novamente, o fato de eu não comentar sobre determinados assuntos não significa que eu não esteja nem aí para eles. Significa, isso sim, que eu tenho um tema específico. Adoraria conseguir escrever sobre a vida difícil dos deficientes físicos, sobre o impacto da crise imobiliária norte-americana sobre as microempresas brasileiras, ou sobre reprodução de coelhos Himalaia. Mas felizmente ou infelizmente, eu escolhi um tema e é sobre ele que escrevo.


Outra coisa: a causa que eu defendo é inferiorizada caso eu não defenda milhares de outras causas ao mesmo tempo? A minha credibilidade se dissipa caso eu não defenda todas as causas do mundo? Em outras palavras, se eu levanto a bandeira do feminismo e não levanto a bandeira contra o preconceito contra deficientes, isso compromete a credibilidade do movimento que eu defendo mais vivazmente?

“Bom, tenho 14 anos e encontro facilmente nas lojas sutiã P, SEM ENCHIMENTO”

Existem sim sutiãs P sem enchimento, mas são daquela malha horrível que mais parece uma meia-calça, ou seja, não cobrem nada, e com algumas blusas é impossível usar porque marcam demais o seio. É quase que para funcionar como uma justificativa, pras mulheres realmente acreditarem que “ realmente, pra não marcar tem que ser de bojo mesmo, não tem jeito”.
E vale ressaltar aqui que por “enchimento” eu também quero dizer “bojo”. Ou seja, um sutiã de bojo sem enchimento já é um sutiã de enchimento, porque o bojo já funciona como tal. Então, se ainda assim você insiste que encontra sutiãs P sem enchimento, sem bojo, mas sem ser de “modelo de vó” ou de malhas que mais parecem uma meia calça, por favor, me avise onde são essas lojas, pois estou precisando comprar.

Me avisem logo onde tem sutiã que não seja nem de enchimento, nem "de vó" (ou "estilo amamentação").