Pretendo utilizar esse blog para exteriorizar minhas até então silenciosas reflexões acerca de sociedade,cultura,psicologia, filosofia,feminismo,música e assuntos contemporâneos. Prometo que este não será mais um espaço narcisista – como muitos outros blogs - para se postar as últimas fotos da “balada” e para falar sobre o que comi no almoço. Busco, aqui, lançar reflexões sobre assuntos que julgo de extrema importância serem debatidos. Let the show begin.
Estudei todo o ensino fundamental no Colégio Medianeira, de onde saí apenas aos 14 anos. Tive uma infância feliz, mas lembro do início da adolescência como um período perturbado; é quando a personalidade começa a se consolidar, as reflexões emergem, as opiniões se formam e você começa a descobrir quem realmente é.
Aos 9 anos de idade, o presente de meus sonhos era um autorama ou um videogame com volante, mas nunca tive coragem sequer de comentar esse desejo com meus pais porque, pensava eu, eles brigariam comigo se eu pedisse um brinquedo “de menino”. Meu brinquedo preferido, inclusive, era o Jeep da Barbie, e tenho certeza que ele me entusiasmava muito mais pelo fato de ser um carro do que por ser um acessório da boneca.
Sim, eu brincava de carrinho. Já era a feminista latente dentro em mim, revolucionando conceitos sexistas mesquinhos.
Nesta mesma idade, me inquietava o fato de aprendermos sobre a evolução humana sob o paradigma do sexo masculino; não bastasse as figuras sempre representando tão somente a evolução do corpo masculino, a denominação da espécie humana se resumia no termo “Homem”. Eu questionava porque o ensino da humanidade excluía as mulheres ilustrativa, lingüística e simbolicamente e focava-se nos indivíduos masculinos. Lembro-me de comentar com minha mãe que meu pai havia sido um homem das cavernas. Ela me corrigiu, afirmando que nós – mulheres – também havíamos sido. Ora, para uma compreensão infantil pautada em interpretações literais, meu pensamento não estava tão equivocado assim.Simbolicamente, era isso o que ensinavam.
O ensino da evolução humana é ilustrativa, lingüística e simbolicamente masculinista.
Aos 10 anos de idade, enquanto minhas colegas ainda brincavam de Barbie, eu pedi uma guitarra para minha mãe. É claro que ela não atendeu meu pedido; ela não levou a sério um desejo que, mais de 15 anos depois, continua efervescentemente vivo e jamais morreria.
Aos 11, já possuía um vasto conhecimento musical e sentia-me limitantemente acorrentada por não poder compartilhar do meu interesse pela música com meus pares. Meus colegas não ouviam música. Não com consciência. Eram daqueles que acreditavam que o melhor disco do ano tinha sido a compilação da trilha sonora da novela das 8 e que só conheciam o que tocava nas rádios e no programa do Faustão.
Diferente das meninas da sala, eu nunca me interessei por aqueles meninos sem graça da turma, os “galãzinhos de 12 anos”. Eu sempre gostei de homens mais velhos, intelectualmente provocantes e esteticamente perturbadores. Um de meus maiores sonhos, inclusive, era casar com o Jon Bon Jovi, 24 anos mais velho do que eu.
Eu tinha um sentimento muito certeiro, quase profético, de que eu seria a próxima esposa do Jon Bon Jovi (!).
Meu sentimento de inadequação era marcante. Eu não me identificava com os colegas. Eu sentia falta de inquietude nas pessoas; de angústia; daquele caos interior que te move a pensar a vida de forma diferente, buscar respostas, agir criticamente sem se contentar com o que quer que seja; de ânsia por decifrar os mistérios da vida e compreender essa existência turbulenta.
Ao iniciar o segundo grau, imaginei que seria o momento ideal para mudar de escola. Mudar de vida. Conhecer gente nova, menos previsível. Reconheço que melhorou ligeiramente, mas fundamentalmente tudo continuou igual. Fui crescendo, saindo para o mundo, me inserindo em novos contextos, entrando para o mercado de trabalho, trabalhando em diversas empresas e conhecendo todo tipo de gente. Curiosamente, tudo continuou como era no Colégio Medianeira.
As meninas, hoje adultas, não mais desejam brincar de Barbie. Regrediram: querem ser a Barbie. Os meninos, hoje crescidos, continuam infantis: respondem a códigos masculinos medíocres e fazem o que quer que seja, até o que não desejam, para afirmar sua suposta masculinidade. Homens e mulheres permaneceram na infantilidade musical: abdicam até mesmo de seu gosto musical genuíno para serem aceitos socialmente. Não aprenderam a ouvir música com consciência e continuam acreditando que gostam daquilo que a mídia sugere que devem gostar. As meninas que naquela época ouviam pagode e axé só porque estava na moda são as mesmas que hoje ouvem sertanejo universitário pelo mesmo motivo. Naquela época, elas abominavam sertanejo porque a mídia o colocava como “música de diarista”. Mas é melhor não enfatizar este fato para que elas não fiquem sem graça. Reconhecer que se leva uma existência inautêntica é humilhante demais; é mais fácil negar e se justificar com desculpas esfarrapadas.
As pessoas continuam padronizadas: são passivamente moldadas para pensar, agir, se vestir, se divertir e se interessar pelo que a televisão impõe inconscientemente em cada momento. Agora, no entanto, elas não têm mais a desculpa de serem apenas adolescentes. Já são adultas.
Muita gente continua vivendo sob a proteção de máscaras, negando – para si mesmo, muitas vezes – sua verdadeira identidade a fim de aparentar estar bem ajustado à sociedade: tímidos tentando ser falsamente sociáveis e, para isso, enfrentando o doloroso desafio de viver interpretando um personagem o dia todo; pobres fingindo ser ricos; tagarelas que falam demais pois não suportam seu próprio silêncio; morenas tentando ser loiras; pessoas passando fome propositalmente para fingir que são magras.
Hoje sei que o problema não era o Colégio Medianeira; era a sociedade. Qualquer contexto, dentro dessa mesma sociedade, seria essencialmente igual. Em qualquer canto as pessoas continuavam previsíveis, infantilizadas, moldáveis, manipuláveis. É um traço comum à maioria.
Minhas lembranças do Colégio Medianeira são tão ruins que, logo após mudar de escola, sonhei, alguns vezes, que algo ainda me prendia lá. Eram pesadelos nos quais eu havia tido que voltar a estudar lá ou que de lá não consegui sair. Acordava aliviada lembrando que havia, sim, me libertado.
Em essência, eu não me libertei. No mundo lá fora era igual. O mundo era como o Colégio Medianeira. Aos 14 anos, quando decidi mudar de escola, eu era ingênua e pouco ainda conhecia do mundo lá fora. Eu esperançava que qualquer outro ambiente seria melhor e tinha certeza que eu poderia me ajustar. Eu era ingênua demais para cogitar que mudar de escola não resolveria, e inocente demais para encarar o fardo que teria que carregar: durante toda a vida, eu nunca sairia do Colégio Medianeira.
-->Uma das perguntas que não querem calar ultimamente é: “você gosta de sertanejo universitário?”. Minha resposta é um entusiasmado “não”, mas minha posição não se justifica por uma mera questão de gosto, seja porque as letras têm o mesmo teor de corno romântico, porque as vozes são todas parecidas, porque as batidas são sempre as mesmas ou qualquer outro valor estético.
Alguma dupla sertaneja que não sei o nome, mas não faz diferença porque logo vai sumir.
Eu gosto de muita coisa da música country, especialmente as vertentes mais ligadas ao blues e southern rock (uma de minhas bandas preferidas, inclusive, é o Lynyrd Skynyrd) e curto muitas músicas de nomes como Alan Jackson, Paul Overstreet, Travis Tritt e até Garth Brooks. Mesmo assim, não curto sertanejo, tampouco o universitário, apesar de nutrir certo respeito –apenas isso– pelo sertanejo verdadeiro, “de raiz”.
Lynyrd Skynyrd é bom demais.
Sim, eu curto Alan Jackson.
--> O sertanejo universitário não é um problema per se.
Tendo em vista meu apreço por muitos cantores country, o sertanejo universitário não deveria ser-me tão repugnante. E confesso que, em termos simplistas de mero gosto, ele me soa muito “menos pior” do que axé e pagode, por exemplo.
Mas o problema não é o sertanejo universitário. Não em si. O problema é que isso é só mais uma coisa que as pessoas ouvem porque está na moda. É só mais uma coisa que as pessoas veneram por que se popularizou devido ao apoio da grande mídia. É só mais um padrão de comportamento que as pessoas adquiriram para se sentirem adequadas socialmente. Poderia ser qualquer outra coisa em seu lugar, daí sua mediocridade.
Lembro-me com extrema lucidez quando, há cerca de 5 ou 7 anos, as pessoas me zombavam por gostar de alguns nomes da música country (estes que citei acima). Hoje, são estas as mesmas pessoas que se deliciam com o último DVD do Fernando & Sorocaba, ou que freqüentam, animadíssimas, bares como Vitoria Vila e Wood’s.
Nesta época, por volta de 2004, a música sertaneja ainda carregava consigo o estigma de “música de diarista”. Foi apenas quando os grandes empresários da indústria fonográfica e barões da grande mídia resolveram mudar o “posicionamento de mercado” do sertanejo (porque o sertanejo universitário é só mais um produto para vender rápido e, portanto, se orienta estritamente pelas lógicas do marketing) e lhe criaram uma nova cara, uma nova identidade, que seu público-alvo mudou. Nada de histórias a respeito da dura vida no campo. O termo “universitário” lhe confere, agora, um traço mais elitizado, mais jovem. Seriam músicas para o jovem das classes até as mais abastadas, que adoram curtir e se divertir com os colegas e amigos.
Não coincidentemente, o funk, até os anos 2000, era “música de favelado”. O pagode, por sua vez, era “música de pobre” até o final dos anos 80. O reggae era “música de maconheiro” até meados dos 90. Julgo dispensável lembrar que todos já tiveram seus estereótipos transformados – por causa do apoio da grande mídia. Claro, sempre ela - e gozaram de anos de glória: o pagode na década de 90, o reggae no início dos anos 2000 e o funk dos anos 2000 até agora.
Quando eu era adolescente, todo mundo era surfistinha e ouvia reggae. Menos eu, claro.
Hoje, essas mesmas pessoas cresceram e viraram isso. "Pura coincidência", lógico.
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Isso é tão ridiculamente óbvio que sinto-me até envergonhada por estar explicando de forma tão pormenorizada. Perdoem-me os leitores perspicazes que certamente já sabem disso, mas outros tantos que ainda não perceberam me obrigam a fazê-lo.
Comportamentos e valores moldados por tendências efêmeras: grande liberdade de pensamento!
Ora, onde estão as pessoas que adoravam reggae quando era este o estilo ditado pela moda? Onde estão as mulheres que tinham incontestavelmente no pagode seu estilo musical preferido, quando era este o estilo apadrinhado pela mídia? Cadê o povo que, para se divertir, esperava música eletrônica na balada, quando este era o padrão de comportamento? Pois é.
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Todos queremos fazer parte de um grupo? Certamente, e essa é a natural conseqüência de nosso instinto gregário. Mas há uma diferença enorme entre o desejo de se estabelecer relações sociais, buscar adequação e convívio social, e entre agir como uma marionete para se adequar ao que está em voga em dado momento, e ainda se julgar autêntico. Desculpem-me a franqueza, mas isso beira a imbecilidade.
Experimente perguntar a qualquer pessoa quais são seus artistas preferidos. Salvo raras exceções, a resposta será unânime: são aqueles que estão em visibilidade no momento, que recebem convites para tocar no Domingão do Faustão, que são entrevistados por repórteres da televisão, aqueles cujos videoclipes são exibidos na MTV e cujas músicas tocam incessantemente nas rádios.
É certo que nem todos se relacionam tão intimamente com a música. Muitos a vêem como uma simples forma de entretenimento, algo que não suscita grande importância. Daí se justificariam os repertórios tão limitados e padronizados. Fair enough. A questão é que esse comportamento não atinge apenas estas pessoas.
Isso não seria um grande problema se as pessoas admitissem que só gostam de determinada coisa porque está na moda e, quando não estiver mais, “esquecerão” que gostam. O problema é que elas não percebem isso. Elas realmente acreditam que seu gosto é genuinamente individual e que o fato de gostarem do que está na moda é mera coincidência. Nada extremamente relevante para aqueles que, como disse, pouco valor dão à música. De todo modo, qualquer tipo de expressão musical jamais será neutra em significação. Ao contrário, sempre estará solidificada em alguma rede de valores, hábitos, comportamentos, pressupostos, ideais.
O X da questão.
O perigo, todavia, reside no seguinte ponto: se as pessoas conseguem ser tão facilmente modeladas no que concerne a seus valores e comportamentos em relação à música, se mostram-se tão passivas e inconscientemente sujeitas aos poderes da grande mídia para fazer algo tão singelo e elementar como ouvir música, por que não o seriam em outros contextos, ainda mais complexos? Esse é o ponto-chave.
Há pouco mais de 6 meses realizei um de meus grandes sonhos: comprar uma guitarra. Finalmente, aos 25 anos e com independência financeira, pude começar a aprender o instrumento com o qual sonho desde os 10 anos de idade. Apesar dos altos investimentos de dinheiro e tempo que este instrumento exige, a única coisa que me arrependo é de não ter feito isso antes.
Esses dias tive que ouvir de um cara a dúvida se eu estava aprendendo a tocar “direito” já que, nas próprias palavras dele, mulher não tem talento para guitarra. Disse que até podem existir algumas mulheres guitarristas razoavelmente boas, mas “fodas” como Steve Vai e afins, não. "Falta-lhes algo. Falta ´colhões´", resumiu.
O motivo, para ele, é que algumas habilidades são inerentes ao sexo masculino e feminino e, assim como os homens são indubitavelmente superiores às mulheres no que tange à força física, por exemplo, o seriam também na guitarra (assim como bateria e baixo, ainda defendeu) por motivos biológicos (Claaaro! Tudo no mundo se resume a fatores meramente biológicos e fatores histórico-culturais são totalmente irrelevantes, né gente?!). Ele legitima sua teoria a partir do fato de que conhece muitos bons guitarristas homens, mas nenhuma boa guitarrista mulher. Aponta sua posição como sendo uma conclusão natural do que percebeu de suas experiências pessoais e história da música. Nada de ser um conceito pré-determinado ou machismo, defende-se.
Mulher não leva jeito para guitarra porque os bons guitarristas sempre são homens
Ora, a primeira questão é: QUANTAS guitarristas mulheres existem? E quantos guitarristas homens? Não é meio óbvio que na amostra maior iremos encontrar mais facilmente o que estamos procurando justamente pelo fato da amostra ser maior? Em outras palavras: não é óbvio que, se existem 300 guitarristas homens para cada 5 guitarristas mulheres, os “bons” provavelmente estão na amostra maior, de homens? E olha que eu boiava nas aulas de análise probabilística.
Os filmes mais premiados são sempre americanos e não búlgaros porque estes não sabem fazer filme ou porque a esmagadora maioria das grandes produções cinematográficas vem dos Estados Unidos? A maioria dos enfermeiros tem olhos castanhos porque pessoas de olhos castanhos se adéquam mais ao ofício da enfermagem, ou será que é porque quase todo mundo (aqui no Brasil) tem olhos castanhos e, conseqüentemente, estes serão maioria na profissão? Resumindo: Todo guitarrista bom é homem porque as mulheres não levam jeito, ou será que é porque...vejamos...elas nem tocam guitarra?!
Mulher não combina com guitarra
Para analisar isso, é imprescindível discutir o contexto sócio-cultural que provoca o distanciamento das mulheres em relação ao rock ‘n’ roll. Desde pequenas nos ensinam a sermos meigas, resignadas, a ter limites e restrições, sermos doces e bonitas. Isso já bate de frente com a atitude rock ‘n’ roll, que sugere justamente o oposto: a subversão, o criticismo, a atitude. Nós aprendemos que devemos gastar nosso dinheiro com maquiagem, e não com tarraxas e cabos! Então como esperar que existam várias mulheres guitarristas excepcionais, se a maioria delas nem pensa em tocar esse instrumento?
Temos ainda que, como a esmagadora maioria dos músicos roqueiros são homens, é difícil para as mulheres se identificarem com o estilo pois não se sentem representadas, não se sentem pertencidas. É um sentimento inconsciente de “isso não me diz respeito”. A identificação de gênero é fortíssima, por isso as mulheres – e vice-versa - sempre irão se identificar com coisas feitas por mulheres e para mulheres (pagode pode ser feito por homens, mas é especialmente para mulheres). É a mesma coisa quando éramos crianças e assistíamos aos filmes da Xuxa e convidados especiais. Com quem as meninas se identificavam? Com a Xuxa ou com o Sérgio Malandro?!
Nossas experiências pessoais e a história da música comprovam que a mulher não leva jeito para tocar guitarra
Ora, se isso é legítimo, também o é afirmar que os brancos são mais inteligentes que os negros porque nunca os vemos passarem em primeiro lugar nos vestibulares. Aliás, antes do sistema de cotas, mal os víamos passando nos vestibular, sejam em que colocação fosse! Mas ei, não é preconceito! Foi minha experiência pessoal que demonstrou isso!
Você não iria se safar no tribunal com uma dessas, iria? E por quê? Porque dizer que os brancos são mais inteligentes que os negros em decorrência do fato de que aqueles sempre conquistam os primeiros lugares (ou qualquer lugar!) é desconsiderar todo o contexto histórico/político/cultural que criou esse cenário. Tal cenário, que é o que “a experiência pessoal” nos mostra, é a conseqüência de vários fatores, e não a causa.
Ainda seguindo o mesmo raciocínio, também poderia dizer que os negros nunca tiveram grande relevância para o mundo, pois os avanços, criações e descobertas na história sempre foram feitos por brancos. Existiram alguns negros relevantes, mas a esmagadora maioria das pessoas que ficaram para a história foram brancos. Logo, a história está me dizendo que os brancos são melhores. É um fato! Não é preconceito!
Esta pessoa – um cara que, aliás, é mulato –, além de dizer que essa comparação é distorção de sua opinião (e não o é de forma alguma. É, no máximo, uma extensão, um deslocamento de sua própria teoria), ainda teve a cara de pau audácia de argumentar que o motivo pelo qual a quantidade de negros “fodas” da história é bem menor que a de brancos “fodas” seria porque os brancos são a maioria da população mundial (!!). Claro! O fato deles terem sido escravizados por séculos e terem adquirido direitos políticos - quem dirá os simbólicos!- há poucos anos é só mera coincidência, não é mesmo?!
Mulher não serve para guitarra, até que me provem o contrário
A pessoa defendeu que até poderia mudar de opinião, desde que alguma mulher provasse que é boa. Ora, você não se torna menos preconceituoso por estar disposto que te provem o contrário do que você acredita. A necessidade de provar que se é bom – seja para os outros ou para você mesmo – já subentende a premissa de que você não é bom. Eu precisar provar que toco guitarra bem já implica dizer que mulher não toca guitarra bem só por ser mulher.
Mulher, negro, anão, [adicione aqui quem vai discriminar] não serve para [adicione aqui o que só os homens brancos fodas sabem fazer bem]. Inclua fatores biológicos para validar sua teoria.
Nunca vi um gerente anão. Posso defender, então, que os anões não servem para ocupar cargos de liderança porque todos os gerentes que conheço não têm nanismo. Foi minha experiência pessoal que me mostrou isso. A história da humanidade me mostrou isso. Os anões nunca fizeram história. Logo, se um anão se candidatar à vaga de gerente em minha empresa, posso até contratá-lo, mas mediante a condição que ele (ou qualquer pessoa pertencente a qualquer tipo de minoria) prove que é bom. Isso não é correto ou justo, então por que deveria sê-lo quanto se trata de mulheres?
Dizer que as mulheres não levam jeito para tocar guitarra (principalmente sob os argumentos de que 1) os bons guitarristas sempre são homens, 2) a história da música comprova isso, 3) nossas experiências de vida comprovam isso) é tão abjeto quanto dizer que os brancos são mais inteligentes que os negros e que os “não-anões” são melhores que os anões. É só usar os mesmos argumentos. O elo de semelhança encontra-se no fato de desconsiderar os meios que justificam o fim.
O olhar sociológico sob a diferença de gênero não anula as diferenças verdadeiramente biológicas
Existem diferenças biológicas entre homens e mulheres? Certamente que sim. Homens são mais fortes, mais resistentes fisicamente, etc. O olhar sociológico sob a diferença de gênero não anula as diferenças verdadeiramente biológicas. Mas a guitarra, além de não exigir força física ou nada que seja inerentemente superior nos homens, é um símbolo e, como tal, repleto de sentidos e acepções. E, como símbolo, não pode ter toda sua bagagem histórica invalidada.
Não sei se um dia tocarei tão bem quanto Steve Vai ou qualquer outro “macho foda”. Mas mesmo que eu nunca toque bem, eu quero que isso seja justificado não pelo fato de que sou mulher, mas pelo fato de que sou apenas humana. Só assim a igualdade simbólica da mulher – porque igualdade jurídica já temos - vai estar de fato alcançada. O mesmo vale para qualquer outra minoria.
Em agosto deste ano, em São José do Rio Preto-SP, um menino de 8 anos foi repreendido pela diretora de sua escola por ouvir heavy metal (leia aqui). Ele foi encaminhado à diretoria por estar batucando na carteira, fingindo que tocava bateria. Ao contar à diretora que seu sonho era tocar guitarra com o Iron Maiden, ela o desincentivou severamente, mostrando a ele imagens de capas dos discos da banda que, segundo ela, eram imagens associados ao demônio, satanismo e à morte. Segundo o menino, a diretora ainda disse que os roqueiros sacrificam animais, cortam cabeças e fazem pacto com o demônio. A diretora se defende, afirmando que quis despertar uma reflexão no menino. Segundo ela, este é seu trabalho, já que as imagens não têm mensagem positiva.
Não vou nem entrar no mérito da questão da generalização que se faz do rock, em que acreditam que é tudo a mesma coisa, sendo isso evidente até na forma como o chamam. Os desavisados jogam no mesmo “caldeirão” coisas extremamente diferentes: Rolling Stones, Iron Maiden, Dimmu Borgir, Guns n’ Roses, Limp Bizkit, Red Hot Chilli Peppers, etc. Para eles, é tudo a mesma coisa. É tudo “rock”. Mas o rock se desmembra em diversos estilos, e cada uma das bandas citadas acima pertence a um diferente. Uma de suas subdivisões, inclusive, é o metal que, por sua vez, também se destrinche em vários estilos, como heavy metal, heavy metal melódico, power metal, thrash metal, black metal, white metal, etc. Existe até o termo “metal barroco”, que se refere ao estilo interpretado por Yngwie Malmsteen. Mesmo assim, o metal, de forma geral, é sempre chamado de “heavy metal” pela grande mídia. Isto já é pelo menos um avanço, pois há não muito tempo ela o denominava ainda mais pobremente de “rock pauleira”.
O que quero dizer com tudo isso (e olha que eu disse que não iria entrar no mérito dessa questão) é que existem, sim, bandas que fazem apologia ao satanismo e afins. Mas isso é uma vertente bem específica do metal, mais precisamente do black e até death metal. Cada estilo tem suas particularidades, mas, via de regra, as letras das músicas falam sobre sociedade, subversão, histórias de civilizações, temas políticos, contos, mitos, relações amorosas (sim, metaleiro fala de amor). O próprio Iron Maiden, em torno do qual se criou a polêmica na escola, é um exemplo de banda cujas letras remetem, principalmente, a histórias e mitos. O oculto é, de fato, muito explorado por eles, mas de forma alguma se faz apologia ao satanismo ou algo do tipo.
Também não vou entrar no mérito da questão sobre a atitude da diretora de questionar as escolhas do menino. Na verdade, a ênfase que a mídia deu ao caso foi em relação à reprovável atitude autoritária da diretora, ferindo o livre arbítrio do aluno, julgando o que ele deveria ou não ouvir. Para mim, não foi esse o problema. Em tempos de visível perda de autoridade dos pais perante os filhos e da total desorientação destes em diversos assuntos, não me incomoda ver alguém tentar direcionar as opiniões e valores de um jovem; pelo contrário. O que me incomoda é o fato da diretora ter feito isso em relação aos pré-conceitos que tem em relação ao rock.
É impossível não perceber que o funk, axé e até alguma coisa do pagode, estilos musicais descaradamente apadrinhados pela grande mídia, exercem influência muito mais negativa sobre as pessoas, em especial as crianças. E é bem sabido que as escolas, sejam elas de qualquer nível sócio-econômico, incitam as atividades de dança desses estilos, aceitando inclusive as mais grotescas.
A questão é: por que questionar as atividades supostamente anticristãs de um aluno, e não fazer o mesmo ao ver meninas de 8 anos dançando na boquinha da garrafa? Como é possível acatar meninas que ainda levam lancheira da Moranguinho, mas ao mesmo tempo vão para a escola com calças apertadíssimas especialmente ajustadas para delinear seus corpinhos de manequim tamanho 16? Como se pode aceitar meninas que ainda nem menstruaram dançando funk e venerando mulheres-frutas? Como aceitar que meninas do jardim de infância deixem de brincar por causa do sapato de salto que usam? Como encarar com normalidade o fato de meninas de menos de 10 anos serem o público-alvo cada vez mais crescente de distúrbios alimentares e/ou já pensarem nas cirurgias estéticas que “precisam” fazer para se adequar ao padrão de mulher-objeto que elas recebem da mídia e das músicas grotescas que ouvem? Tudo isso é fortemente reforçado pelo brega-popularesco que é veiculado e reforçado pela grande mídia. E é muito assustador que pensem que seja o rock (mesmo o metal) o vilão.
A sexualização precoce é gritante e, embora os pais sejam os responsáveis pela educação de seus filhos, a escola tem o poder – e o dever – de intervir nessas questões. Por isso o que me chateia – e me preocupa- não é o fato de a diretora questionar as escolhas de um aluno, mas quais escolhas ela questiona e quais deixa de questionar.
Isso...
Iron Maiden
...é bem diferente disso...
Marduk, banda de Black Metal
Mas ainda é realmente pior do que isso?
Olhem que "gracinha" essas crianças super sexualizadas (e incentivadas pela mãe, que faz até closes nas partes íntimas das meninas. Tenha fôlego para assistir o 2:44) dançando axé. Os comentários dos pedófilos na própria página do youtube (leia aqui) são super fofos também, nem precisa ser fluente em inglês e espanhol para entender.
Mas hei, pais!Deixem seus filhos longe do Iron Maiden!
Eu tenho mania de achar todo mundo parecido com todo mundo. Acho que é uma consequência de ser tão observadora, aí eu vejo semelhanças mesmo onde aparentemente não há. Resolvi, então, fazer uma coletânea dos roqueiros e seus sósias.
Existem outros, mas só coloquei aqui as semelhanças que nunca vi comentarem em lugar algum, embora tenha sido muito tentador colocar as fotos da dupla Bret Michaels e Goldie Hawn (mas não coloquei porque não fui eu quem percebeu a semelhança)!
O Puyol, jogador da seleção espanhola, não é a cara do Gary Moore?
A Fernanda Lima parece o Sebastian Bach. Ou é o Sebastian Bach que parece a Fernanda Lima?
André Matos é o Steve Perry brasileiro.
Quando assisti ao clipe "We are the World" de 1985, vi o "André Matos" ali no fundo, cantando no coro. Levou alguns segundos para cair a ficha de que não poderia ser o André Matos, já que naquela época ele ainda estava na 8a série. Foi quando descobri que ele tinha um sósia, o Steve Perry, do Journey!
O Kevin Bacon sempre teve um "que" de Jon Bon Jovi.
A Suécia não fica perto da África do Sul, mas bem que Joey Tempest e a atriz Charlize Theron poderiam ser irmãos.
Jason Patrick em versão vampira de Kip Winger.
Jason Patrick foi o protagonista do filme "Garotos Perdidos" - ah, essa nostalgia da infância anos 80/90 e a lembrança dos filmes legais que passavam na Sessão da Tarde! - , e era muito parecido com o Kip Winger, vocalista do Winger, na época.
Val Kilmer e Kip Winger nos anos 2000.
Hoje, alguns anos e quilos a mais, o Kip Winger parece o Val Kilmer!
Roland Orzabal versão stand-up comedy.
Roland Orzabal, vocalista do Tears for Fears, parecia o Jerry Seinfeld. Tá certo, só nas primeiras temporadas do seriado, época em que ele também era adepto dos mullets. Aliás, quem não era?
Eric Martins, do Mr Big, e Fernanda Takai
Eric Martin está na minha lista das 10 maiores vozes que este mundo já conheceu. Convenhamos que ele não era bonito nem quando era cabeludo, mas cortar o cabelo e ficar igual a Fernanda Takai só piorou as coisas!
Owen Wilson X Richie Sambora
Podem achar que não, mas pra mim o Owen Wilson sempre pareceu o irmão loiro de olho azul do Richie Sambora!
Domingo, 06/02/2011, foi o dia em que perdemos mais um grande ícone da música. O Gary Moore, um dos maiores guitarristas de blues que esse mundo já conheceu, morreu em um quarto de hotel na Espanha. As causas da morte ainda são desconhecidas.
Parece ironia, mas meu último post, em que falo sobre minha jornada para ver o show do Europe, foi concluído com a idéia de que eu nunca mais iria para São Paulo para ver um show, exceto se fosse do Gary Moore. Afinal, em minhas próprias palavras, era “Deus no Céu e Gary Moore na Terra”. É muito triste pensar que nunca terei a oportunidade de vê-lo ao vivo, muito menos de conversar com ele (se é que eu poderia ter feito isso um dia).
No texto “A decadência da música”, eu também comentei que os ídolos do rock estão morrendo, e que mais angustiante do que isso é o fato de ninguém os estar substituindo. Vale lembrar que Dio também morreu há menos de 1 ano, em maio de 2010. Outra grande perda de alguém insubstituível. É claro que nem preciso comentar a injustiça desses últimos acontecimentos. Gary Moore e Dio morrem, mas Compadre Washington e outras “trasheiras” continuam vivos.
Devo muito ao Gary Moore. Ele me influenciou muito na música. Foi ele quem me fez entrar (e não sair mais) no blues, que me mostrou uma nova lógica de ouvir e fazer música, que me ensinou a fusão (maravilhosa) de blues e rock (seu inconfundível blues rock), quem me fez ter certeza que era guitarra o instrumento que eu queria tocar, e que me ajudou a amadurecer minha identidade musical. Se eu adentrasse profissionalmente no mundo da música, certamente iria fazer algo ao estilo Gary Moore.
Isso ia ser surpresa, mas muito em breve comprarei uma guitarra. Ainda estou estudando a melhor opção (custo X benefício, timbre, marca, modelo), mas esse é um sonho que sempre tive e agora finalmente vou poder realizar. Mesmo me sentindo um pouco desamparada por iniciar os estudos logo após minha maior referência morrer, me sentirei eternamente como a pupila de Gary Moore, e certamente sempre manterei presente na guitarra a subjetividade que aprendi com ele. Desde que comecei a cogitar estudar guitarra, eu pensava: “mesmo que eu veja que não levo jeito, quero pelo menos conseguir tocar ‘The Loner’ ”. E esse será sempre meu ideal.
Chorei ao saber da notícia. Ele vai fazer muita falta. Agora é “Gary Moore no Céu e na Terra”. Claro, nos corações dos bluseiros que aqui permanecem.
Angústia ética. Foi nessa curta frase que consegui resumir todas as minhas preocupações, reflexões e críticas. "Angústia" porque é o estado de inquietude decorrente da vivência ou da percepção de algo que causa mal-estar. Ela é aparentemente perniciosa, mas é a árdua tarefa de aceitá-la e vivenciá-la sem medo que move as mudanças. "Ética" porque, para atender aos princípios ideais de conduta social, precisamos, necessariamente, vez ou outra, abdicar de alguns impulsos pessoais em prol do interesse coletivo. "Angústia ética" porque minha angústia abarca a ética, ou seja, ela é, frequentemente, resultado de um conflito ético. Esta angústia ética é inexorável, pois, como mencionei, é imprescindível renunciar a certos desejos pessoais a favor da ética. E a ética, por sua vez, causa e é causada pela angústia.