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sábado, 19 de janeiro de 2013

Teoria dos Legos

   

          Já falei aqui sobre o tal “cabelo de lego”, aquele corte padrão e sem graça que a sociedade impõe que os homens devem adotar. Defendi, acima de tudo, que minha total falta de atração por tal corte de cabelo não ocorre apenas em função de seu fim estético, mas sobretudo por sua simbologia.

          Muitos se surpreendem com meu posicionamento. A sociedade ainda não parece estar preparada para a teoria dos cabelos de lego. De fato, é uma teoria demasiadamente inovadora e revolucionária até para o ano de 2013. É uma teoria multifacetada que envolve muitas variáveis. Sob sua ótica, fatores aparentemente desconexos se entrelaçam harmonicamente em uma lógica iluminadora. Ela envolve a problemática de condutas sociais, poder de dominação, padrões de comportamento, paradigmas culturais e até feminismo.

O tal "cabelo de lego".

Quem é radical, afinal?



          Muitos alegam que sou radical por considerar o cabelo comprido um pré-requisito para me interessar por um homem. Na realidade, radical é a norma de que todos os homens devem ter cabelo curto. Aliás, quantas mulheres já não disseram com todas as letras que detestam homem de cabelo comprido e, portanto, só ficam com homem de cabelo curto? E por que isso não é radical? Ora, porque esse é o paradigma vigente para a sociedade atual, essa é a convenção social em vigor. Isto é, qualquer que fosse o padrão, X ou Y, poderia ser veementemente reforçado ou rechaçado. E o que define se será reforçado ou rechaçado são as instituições no poder em dado momento histórico/político/econômico. A essência deste sistema é o poder de fazer qualquer coisa - o que convier no momento - ser defendida por toda uma sociedade como certo ou errado.

          Este é o sistema de domínio que define o que as pessoas vão achar bonito ou feio, divertido ou chato, correto ou injusto, ou o que vão apreciar ou depreciar em termos de música. É o sistema que padroniza a sociedade. Estas forças exercem um domínio tão pleno, que se dá de forma tão inconsciente, que as pessoas encaram muitos de seus padrões de comportamento como "naturais". Os homens nem questionam por que têm cabelo de lego. Eles simplesmente têm. Eles simplesmente nem cogitam outras opções. Eles foram hipnotizados pelo axioma segundo o qual "homens têm cabelo curto e mulheres têm cabelo comprido". As mulheres, em contrapartida, sequer refletem por que gostam – ou acreditam que gostam – apenas de homens com cabelo curto. Elas simplesmente gostam e sequer refletem que poderia ser diferente, que isso poderia ser questionável.

          O perigo desse domínio encontra-se justamente quando pensamos em todos os outros valores e formas de conduta que apenas repetimos, sem questionar. Fenômenos mais complexos do que um simples corte de cabelo (não que um corte de cabelo já não carregasse consigo valores, signos e representações complexos o suficiente!) a que estamos sujeitos a defender ou rechaçar com todas as nossas forças, acreditando, quase que num estado hipnótico, que tal posicionamento é genuinamente nosso.



“O que meus clientes vão pensar?”

          Ainda é evidente o preconceito em relação a homens de cabelo comprido em empresas privadas e corporações de todo tipo. Via de regra, é este o motivo que faz tantos homens se renderem ao cabelo de lego.

          Os empresários defendem que o cabelo comprido em um homem é motivo lícito para demitir ou não contratar, e justificam seu preconceito a partir da máxima "o que meus clientes vão pensar?". Esse pensamento é raso e arbitrário por dois motivos.

          Em primeiro lugar, todos somos clientes. Como massa consumidora, toda a sociedade é cliente de alguém. Logo, tal cliente sou eu, é você, é a própria pessoa que articulou tal frase. O empresário que a proferiu compartilha deste preconceito. Um preconceito que é covardemente transferido para outros: os clientes, a sociedade, a massa consumidora – a qual ele mesmo compõe.

          Em segundo lugar, o que o resto da sociedade – os tais “clientes” – tanto tem que exige tanto que estejamos à sua altura? O que seus clientes irão pensar de um funcionário de cabelo comprido, não é mesmo, caro empregador? Seus clientes, aqueles indivíduos ilustres que cheiram cocaína antes de colocar o terno e a gravata, que dirigem embriagados, que jogam lixo no chão, que não se levantam do assento prioritário quando um idoso entra no ônibus, que condenam a corrupção na política mas oferecem propina ao policial para se livrar da multa, que ultrapassam pelo acostamento, que não cumprimentam o porteiro, que estacionam em vagas de deficientes porque “serão só 10 minutinhos”.

          O funcionário adequado para sua empresa deve ser, acima de tudo, um homem de cabelo curto, certo, empregador? Porque, claro, o que mais poderia definir caráter e competência profissional a não ser centímetros de fibra capilar? O trabalhador que você procura deve estar alinhado à representação de sucesso dessa sociedade doente que você ajuda a manter: o cara que troca de carro todo ano, mas não tem dinheiro para pagar o IPVA; que ocupa uma posição de prestígio e poder e assedia sua secretária; que estudou nas melhores escolas, já realizou intercâmbios culturais em diversos países e cujo programa preferido é o Big Brother Brasil. São essas pessoas, exemplo de sucesso, que sua empresa precisa. Todos sempre com o cabelo devidamente podado e alinhado, porque é isso que faz a diferença, obviamente.


O cabelo comprido como crítica social

          De fato, o cabelo comprido em um homem representa um ato transgressor, uma crítica social. Daí seu perigo, aos olhos daqueles que visam manter o sistema. As instituições sociais – principalmente empresas e escolas – não desejam pessoas questionadoras e críticas; desejam marionetes, pessoas que apenas respeitam o sistema, seguem o que é ditado e reproduzem o que já existe. Anseiam pela manutenção do status quo, enfim. Uma das muitas formas de manter tal domínio é padronizando os homens fisicamente.



          Além de mascarar individualidades e esmagar autenticidades, o cabelo de lego reforça velhos padrões de gênero.

          Uma das várias facetas da teoria do cabelo de lego é a problemática de gênero. O cabelo curto é um dos tantos estereótipos masculinos sem sentido. É um padrão de masculinidade inconsistente e ultrapassado, como tantos outros.

          De igual importância, temos a questão da estética propriamente dita. Da mesma forma que as mulheres ficam melhor ou pior de acordo com o corte de cabelo, os homens também. É por isso que mulheres com rostos mais circulares evitam cabelo curto; que mulheres com cabelos finos e demasiadamente lisos optam por repicá-los; que mulheres com cabelos muito ondulados evitam franjas.

          Aos homens, ao contrário, é concedido o direito de não precisarem ser fisicamente atraentes. Pelo menos essa não é, nem de longe, a prioridade. Quantos não dizem que mantêm o cabelo curto porque seu cabelo é "ruim" ou "difícil"? Ora, quantas mulheres também não têm cabelos difíceis, muito volumosos, ou muito murchos; muito ondulados ou muito lisos; muito secos ou muito oleosos? Não é justamente por isso que elas diversificam os cortes, fazem alisamentos, escovas progressivas, permanentes, tinturas, hidratações, etc? E se elas também fizessem como os homens: raspar, ou deixar bem curto, porque é mais fácil?

          Isso está fora de cogitação. Nossas formas de conduta estão assentadas sob o princípio de que as mulheres precisam estar constantemente tomando ações que as tornem sexualmente atraentes. Dos homens, em contrapartida, é exigido apenas um básico ritual de higiene: basta tomar banho, aparar a barba e passar desodorante. E por quê? Porque o desejo da mulher raramente está em questão. "Elas que fiquem com as migalhas", diz a sociedade, nas entrelinhas. Ainda mais triste é o fato de a maioria das mulheres estar tão dominada por essa forma limitada de pensar que sequer percebe que estão se contentando com migalhas.



          É claro que não defendo que todos os homens passem a ter cabelo comprido; isso seria criar um padrão do mesmo tipo. Tampouco defendo que os homens passem a ser tão obcecados por seus cabelos como as mulheres, mas sim que as exigências estéticas sejam menos desiguais. O que sugiro, sobretudo, é que a sociedade reflita sobre as bases que fundamentam seus valores e seus padrões de comportamento.

          Alguns homens realmente ficam melhores com cabelo curto; outros, ao contrário, não seriam tão atraentes se cortasssem suas madeixas. Muitos homens combinam com seus cachos, e por isso deveriam deixá-los crescer; tantos outros se iluminam pelo rosto moldado com as mechas lisas. É esta a diversidade que se faz necessária. Impor um mesmo corte de cabelo a todos os homens, mesmo que não valorize a maioria deles, é um mecanismo de padronização tão alienante que beira a insanidade coletiva.



          Hoje encaramos como absurda a realidade de poucas décadas atrás segundo a qual as mulheres não podiam escolher seus maridos - tampouco podiam escolher não casar. Isto é, elas deveriam se casar com o homem - extremamente nojento, geralmente - que tivesse sido definido por outras pessoas – o pai ou o próprio futuro marido - independente de amá-lo ou sentir atração física por ele.

      De forma análoga, algum dia a sociedade ainda vai se despertar para o absurdo, considerado normal hoje, que é o fato de as mulheres serem impelidas a estarem sempre impecavelmente belas e sensuais, ao passo que devem se contentar com homens pouco vaidosos e pouco atraentes. Algo que poderia mudar – e muito – simplesmente pela iniciativa de alguns homens de diversificarem os cortes de cabelo. Se isto ocorresse, as mulheres não mais ficariam encurraladas por terem que escolher dentre as limitadas opções de homens que compartilham do mesmo corte de cabelo ridículo. Um corte que não pretende deixá-los mais bonitos e atraentes, mas apenas práticos. Um corte cujo único objetivo é facilitar a vida. Dos homens.





sábado, 26 de maio de 2012

Saúde da vaidade

É incrível como as pessoas empreendem esforços homéricos para se adequarem ao padrão de beleza vigente. Passam fome propositalmente; trocam uma lasanha deliciosa por uma porção sem graça de alface; perdem o momento de ajudar os filhos na lição de casa, mas não perdem a sessão de spinning; dizem que adorariam aprender a tocar um instrumento musical e não o fazem porque não tem dinheiro, mas pagam satisfatoriamente a mensalidade da academia.
Mas o mais surpreendente é como elas justificam tudo isso: “é pela saúde”. Ok, fazer exercícios é recomendação médica. Evitar determinados alimentos previne certas doenças. Levar uma vida saudável é requisito para a longevidade. Mas as pessoas que dizem isso são as mesmas que se orgulham do quanto beberam nas festinhas com os amigos, que fumam, que bebem muito mais Coca-Cola do que água, que usam drogas para “se soltarem mais” nas noitadas, que misturam energéticos a bebidas alcoólicas, que já deformaram os ossos dos pés por usarem salto alto indiscriminadamente, que prejudicam a pele a expondo ao sol exageradamente e sem cuidado algum, que consomem suplementos alimentares potencialmente cancerígenos para evidenciar a musculatura, que ingerem remédios emagrecedores com fórmulas mirabolantes e cheios de efeitos colaterais, que fazem sexo sem preservativo.

Isso realmente tem cara de ser muito saudável.

Os remédios emagrecedores te deixam magra, mas sem saúde nenhuma por dentro.

Montagem esteticamente exagerada, mas de fundo verdadeiro: salto alto em excesso retrai a musculatura da panturrilha, atrofia o tendão de Aquiles e pode até modificar a estrutura da coluna.

Não sei se a imagem é real, mas deu pra entender a idéia.


Ora, vocês não acham que a busca por uma vida saudável deveria envolver muito mais do que técnicas para emagrecer ou métodos para enrijecer os glúteos e secar a barriga? Tem algo incoerente aí, não? E quem disse que ser gordo é sinônimo de falta de saúde? Muitos gordos têm mais saúde do que muitas pessoas magras. Muitos gordos têm melhor índice de colesterol do que muitos homens que estão na faixa ideal de peso. Muitas mulheres magras têm anemia (pesquisas indicam que mais de 30% das brasileiras sofrem de insuficiência em ferro), problema de saúde este, dentre muitos outros, que muitas mulheres acima do peso não têm.
É evidente que não estou generalizando. Não são todas as pessoas que fazem academia ou regime que o fazem apenas por estética. Problemas de pressão alta, diabetes e obesidade são apenas alguns exemplos de como estas medidas são, por vezes, realmente necessárias. Mas é inegável que grande parte dos adeptos tem outro objetivo.
Como já disse em outro texto, não sou contra a vaidade. Não a vaidade em si, mas sim a supervalorização do corpo em detrimento de outras coisas, em especial em relação à mulher, pois é inegável a problemática de que, julga-se, nosso único poder é pela beleza e que devemos nos afirmar socialmente por este meio.
Todavia, se você quer levar uma vida focada no corpo, é um direito seu. É você quem decide. Quem sou eu para impedir? Mas seja coerente. Admita que quase tudo o que faz é puramente por estética, para se sentir adequado, para seguir a uma ditadura de beleza e para corresponder ao que a mídia e a sociedade em geral espera de você. Confesse que a saúde pouca importa. Ou então, quando alguém te perguntar porque você evita um pedaço maravilhoso de pizza "porque faz mal", mas toma shakes emagrecedores suspeitos; porque não toma refrigerante devido ao açúcar excessivo e prejudicial, mas consome anabolizantes e derivados; porque enche o corpo de substâncias ilícitas nas noitadas, mas evita uma irresistível porção de batata frita porque “fritura é nociva”, responda: “ é tudo pela saúde. Saúde da vaidade”. Será mais sincero.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Não sou contra a vaidade





Muitos leitores, assim como Amanda, devem acreditar que sou contra a vaidade. Devem crer que eu considere futilidade se arrumar, se maquiar, ir ao shopping, etc. Alguns devem até deduzir que eu acredite que as mulheres devam ser feias para serem revolucionárias. Essa interpretação equivocada de meu pensamento me preocupa muito, pois passa longe da veracidade.

Eu não sou contra a vaidade. Não a vaidade propriamente dita. Eu mesma sempre faço escova no cabelo, por exemplo. Adoro cabelo ondulado e cacheado, mas o meu, naturalmente, é daquele estilo ondulado indefinido, que parece descabelado não importa quantas mil vezes penteei. Soma-se a isso o fato de que tenho 3 vezes a quantidade de cabelo que uma pessoa normal tem (é sério).

Adoro comprar roupa nova (mas confesso que ultimamente só compro em promoção) e já fiz várias sessões de depilação a laser. Adoro pintar as unhas, principalmente de cores fortes como vermelho, vinho e marrom. Amo brincos, principalmente os enormes, e não cogito ficar sem eles.

Maquiagem admito que não uso no dia-a-dia pelo simples fato de não achar necessário. Uso apenas em ocasiões especiais, mas mesmo assim de um modo muito leve. Digamos que batom não combina muito comigo, eu simplesmente fico parecendo um periquito comendo uma cereja. Bizarro mesmo.

Mas não acho que quem se maquia é fútil. Um delineador de olhos e um brilho labial não fazem mal à ninguém; pelo contrário. O que eu acho fútil é aquela necessidade de estar sempre com aquela maquiagem extremamente carregada, estilo Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, para todas as situações, inclusive as mais insignificantes. O que eu acho fútil é aquela obsessão por estar sempre impecavelmente arrumada 24 horas por dia. Além de futilidade, isto denuncia um problema maior: o machismo invisível, segundo o qual as mulheres devem sempre ser julgadas por suas características físicas.


A vaidade não é um problema...até que se torne uma questão de gênero.

Isso não tem a mínima graça.

 
Não é novidade para ninguém que, enquanto as mulheres estão neuroticamente preocupadas com sua aparência, os homens só tomam banho, passam desodorante e vestem aquela camisetinha branca básica. Isso pouco importa para a vida social ou profissional deles. Eles simplesmente não precisam ser aprovados pela aparência para conquistarem respeito ou o que quer que seja. Tem algo injusto aí, não?

Outra questão relevante é que a esmagadora maioria da população mundial não esbanja quantias inesgotáveis de dinheiro. Muito menos as mulheres, que ainda ganham menos que os homens. Sendo assim, você não consegue comprar tudo o que deseja e ainda pagar todas as contas do mês; é preciso estabelecer prioridades.

E o que isso significa? Bem, é fácil: se a prioridade de muitas mulheres é freqüentar o salão de beleza todo mês, fazer drenagem linfática habitualmente, pagar a “lipinho básica” no fim do ano e comprar bolsas que custam mais que um salário mínimo, quem acaba pagando a escola das crianças, a conta de luz, o IPVA, a comida para pôr na mesa? Exatamente, o homem. E, se desejamos igualdade, ela começa pelos deveres iguais, inclusive os financeiros.

Acho que sei pra quem vão sobrar essas contas...


Quando a vaidade deixa de ser saudável.

Cansei de ver meninas e mulheres chegando à faculdade à noite, após um longo dia de trabalho e minutos antes de começar a aula, obstinadas a retocar a maquiagem (com instrumentos tão diversos que alguns deles sequer sei o nome). Ora, pra quê? É só uma aula, você está aqui para estudar! Algumas estão tão maquiadas logo cedo (e para os compromissos mais desnecessários) que só podem ter acordado 5 horas da manhã para isso. Algumas são tão neuroticamente retocadas com pó que dão até vontade de espirrar.

Sempre vejo mulheres que mal conseguem andar devido ao salto altíssimo. No fim do dia, estão fisicamente esgotadas e seus pés moídos não lhes permitem fazer mais nada. Não é à toa que são presa fácil de assaltantes: elas não vão conseguir fugir!

Sapato com salto é mais bonito? Pode até ser, mas o primordial não deveria ser o conforto? Vejam, não precisamos viver de “rasteirinha” para estarmos confortáveis. É possível sim usar sapatos com saltos, mas daquele tipo que ainda te permite realizar funções básicas como andar e sair para almoçar.

Todo dia vejo mulheres se privando de certos alimentos, reclamando que “esse engorda”, “isso dá barriga”. Não se entregam a uma pizza deliciosa ou a um cachorro-quente suculento. Se o fazem, é com culpa. Elas contam calorias até de um copo de suco.
 



Ora, isso não é vaidade. Isso é escravidão à estética; é incorporar o conceito de que mulher só tem valor se for para enfeitar o ambiente sexualmente; é reforçar o conceito de que nosso único poder é pela beleza; é fortalecer o valor de que precisamos ser julgadas pela aparência, antes de tudo.

Beleza e revolucionarismo não são antônimos.

Isso não significa que devemos ser feias para sermos revolucionárias. O que tento mudar é justamente o conceito de mulher feia: arrumo meu cabelo, uso roupas novas, pinto as unhas, combino as cores do sapato, mas não preciso passar batom, pó, delineador, blush, pôr cílios postiços, gastar minhas economias em cirurgias plásticas e usar diariamente salto de 10 cm para poder ir até a esquina.


Hoje em dia, muitas mulheres não sabem a diferença entre ser vaidosa e ser fútil. Creem que só existem dois extremos: ser vaidosa e fútil ou não-vaidosa e “baranga”. O que se tem em mente é que, para ser bonita, é necessário cair na futilidade, o que é um grande equívoco. É muito possível que os dois conceitos não caminhem juntos, o que significa que podemos ser vaidosas sem sermos fúteis e, melhor ainda, podermos ser bonitas e ainda sermos revolucionárias.

Se arrumar e se maquiar é legal? É. O que não é legal é tratar isso como se fosse o maior valor de uma mulher, o primordial em nossa existência, um passaporte necessário para ser respeitada, um pré-requisito para poder aceitar a si mesma. O espelho não pode se tornar a nova submissão da mulher.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Resposta para Amanda

 
Recebi um comentário da Amanda no texto “Faltam homens ou mulheres legais?”. Sua crítica foi extensa e contundente, e por isso merece atenção especial. Entretanto, minha prolixidade não me permite responder em uma mera caixinha de comentários. Como ela levanta dois questionamentos que acredito serem comuns a outros leitores (resumidamente, que eu não passo de uma “revoltadinha” e que eu não deveria ser psicóloga por ser tão intransigente e incisiva em minhas críticas), resolvi dedicar um post para respondê-la, pois pode servir a outras pessoas.

O comentário foi o seguinte:

"Bruna,
É impressionante como suas opiniões são parecidas com as opiniões que ostentava quando tinha meus 15,16 anos!
Eu era uma menina extremamente do contra. Enquanto minhas amigas ouviam pagode, eu escutava Pink Floyd, enquanto elas usavam vestidinho e salto alto, eu usava all-star e cintos de rebiche. Era comum fazer longas reflexões sobre a vida, sobre capitalismo, sobre futilidade, sobre querer ir morar em uma daquelas reservas (?) anti-capitalistas onde os alimentos são plantados e cultivados. Eu cresci revoltada, anti-social, apedrejava carros que passavam com “músicas” altas e não me aproximava, de maneira alguma, de pessoas que considerava produtos do sistema capitalista/consumista.
E olha que ainda levantava a bandeira do “Não ao preconceito”.
É verdade que por trás de toda essa revolta havia muitos ressentimentos, muitos traumas, muitas coisas não resolvidas dentro de mim. No entanto, isso não me dava o direito de ter agido com tamanha hostilidade com pessoas que sequer conhecia! Eu não me deixei viver tanta coisa!...
Hoje, com 23 anos, estou planejando minha cirurgia para a prótese do silicone. Calma, não puxe os cabelos. Não me tornei uma mulher-fútil-interesseira-robotica-plástica-sem opinião. Apenas amadureci. Não que o amadurecimento esteja ligado ao uso do silicone, por Deus. Tenho minhas razões para fazer a cirurgia e elas não envolvem somente à questão da estética.
Tudo o que consegui foi devido ao meu próprio esforço. Formei-me na faculdade com meu próprio dinheiro, enfrentei dificuldades, venci batalhas, superei doenças. Hoje sou uma mulher independente, com a mente aberta, tentando me livrar de estigmas e definitivamente muito mais feliz!
Eu vejo em seus textos muito preconceito camuflado em pseudo- revolucionarismo, perdoe-me a sinceridade. Onde raios você se baseou para afirmar que mulheres que gostam de se arrumar e, conseqüentemente, se maquiar, são fúteis??! Devemos todas sair pelas ruas iguais umas mocorongas, com o cabelo desgrenhado e olheiras assustadoras só porque é “revolucionário”???. Amiga, entenda o que eu demorei muito a atender: A SUA VERDADE NÃO É ABSOLUTA. O certo e o errado, se não os levarmos ao extremo, são sim relativos! Espanta-me saber que você é psicóloga.
Como você trataria uma paciente que chegasse ao seu consultório com peitos de silicone, cabelo “acinzentado” de luzes e maquiagem à la patati-patatá? Você falaria “Vá de retro satanás” ou tentaria entender os motivos que levaram essa pessoa a ser/se comportar daquela maneira? E por que não pode ter essa mesma postura no seu dia-a-dia?
Anyway, falei de mais.Platão com certeza mandou bem na frase que intitula seu blog e acredito piamente que questionar as próprias atitudes também estão inclusas na significação da frase.

Tenha uma boa vida!"

Meus comentários seguem abaixo.


1)    Mulher que se arruma e se maquia é fútil.

Eu peço que me mostre quando e onde eu disse que mulher que se arruma e se maquia é fútil. Quando e onde, aliás, eu disse ou dei a entender que devemos ser “mocorongas” para sermos revolucionárias?

Eu não sou contra a vaidade propriamente dita. Eu mesma sempre faço escova no cabelo, adoro comprar uma roupa nova (pois é) e já fiz algumas (várias) sessões de depilação a laser. Maquiagem admito que não uso no dia-a-dia pelo simples fato de não achar necessário (exceto em ocasiões especiais).

Mas não acho que quem se maquia é fútil. Um delineador de olhos e um batom não fazem mal à ninguém, pelo contrário. O que eu acho fútil, e é o que critico, é aquela necessidade de estar sempre com aquela maquiagem extremamente carregada, estilo Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, para todas as situações, inclusive as mais insignificantes.

Cansei de ver meninas e jovens moças chegando à faculdade à noite, após um longo dia de trabalho e minutos antes de começar a aula, obstinadas a retocar a maquiagem (com instrumentos tão diversos que alguns deles sequer sei o nome). Ora, pra quê? É só uma aula, você está aqui para estudar! Algumas estão tão maquiadas logo cedo (e para os compromissos mais corriqueiros) que só podem ter acordado 5 horas da manhã para isso.

 Ora, isso é escravidão à estética, é incorporar o conceito de que mulher só tem valor se for atrativa sexualmente; que tem que enfeitar o ambiente sexualmente a todo instante de sua vida; é reforçar o conceito de que nosso único poder é pela beleza. Chegar ao ponto de só se sentir bonita com quilos de maquiagem e encará-la como indispensável para os mais insignificantes compromissos é experienciar uma insolente falta de auto-aceitação.

Explica perfeitamente o que quero dizer.


Não acho que devemos ser feias para sermos revolucionárias. O que tento mudar é justamente o conceito de beleza: arrumo meu cabelo, uso roupas novas, pinto as unhas, combino as cores do sapato, mas não preciso passar batom, pó, delineador, blush, cílios postiços e salto de 10 cm para sair de casa.

O problema é que, hoje em dia, muitas mulheres não sabem a diferença entre ser vaidosa e ser fútil. O que se tem em mente é que, para ser vaidosa, é necessário cair na futilidade, o que é um grande equívoco. É muito possível que os dois conceitos não caminhem juntos, isto é, podemos sim ser vaidosas sem sermos fúteis.

O problema, portanto, não está na vaidade. Não na vaidade propriamente dita, mas na confusão que se faz de não saberem cuidar da aparência sem cair em extremismos fúteis e desnecessários.

2) O espanto por eu ser psicóloga

Evito falar de minha vida pessoal no blog, mas o faço quando isso é relevante para o tema que abordo. Sim, eu sou formada em Psicologia, mas não atuo na área (para seu alívio). É muito difícil explicar resumidamente porque não, mas, se tivesse que resumir em uma questão, seria justamente isso: o psicólogo precisa ser neutro, precisa aceitar as pessoas em suas diferenças e singularidades sem prejudicar a relação com o paciente em função de seus próprios valores.

Isso vai totalmente contra meu traço de personalidade mais característico: sempre viso a mudança, e acredito que as pessoas podem – e devem - mudar. E, para isso, muitas precisam de um “empurrãozinho”, pois sozinhas não chegaram à determinado questionamento. A transparência é meu oposto, e é com muito orgulho que afirmo que é justamente essa parcialidade que já me possibilitou “iluminar” muitas pessoas, as quais nunca mais foram as mesmas após o momento que passei por suas vidas. Mudaram, para melhor.

Veja, minha angústia é tão ética que prefiro jogar meu diploma – conquistado após longos 5 anos de alegrias e tristezas, anseios e agonias – na gaveta do que fingir ser quem eu não sou, do que utilizar um método com o qual não concordo, do que agir de um modo que vai contra tudo o que acredito.


3)    “Tenho minhas razões para colocar silicone e elas não envolvem somente a questão da estética”.

Amanda, nenhuma mulher nunca vai dizer que quer colocar silicone porque  está na moda. As pessoas resistem à própria mediocridade. Admitir isso – mesmo que para si mesma – seria mesquinho demais. Logo, todas, por mais que tenham feito apenas por moda, irão justificar tal ato com as mais variadas desculpas. “Eu fiz por mim”, “foi pela minha auto-estima”, “sempre quis”, etc. Note que nenhuma delas invalida a influência da mídia.

“Foi pela minha auto-estima”. Claro, na televisão a esmagadora maioria das mulheres que nos sugerem como bonitas e símbolos sexuais têm silicone. As próprias poucas artistas brasileiras que ainda não fizeram a cirurgia comentam ser freqüentemente alvo da pergunta de “quando vão colocar”. Note que sequer está em pauta se elas querem ou precisam, a pergunta “quando” simplesmente já deduz que isso deveria acontecer mais cedo ou mais tarde. Logo, não é algo sobrenatural que as mulheres com pouco seio fiquem com a auto-estima baixa. A todo momento elas são incitadas a isso. Sendo assim, sua baixa auto-estima não vem de você mesma.

“Eu fiz por mim”. Engraçado, nos anos 80 o ideal de mulher bonita e sensual tinha seios pequenos. A própria Christiane Torloni já disse em entrevista que sempre teve complexo dos seios grandes, mas que hoje são símbolo de sensualidade. Pergunte para qualquer mulher acima de 40 anos e a resposta será unânime: seios grandes eram considerados feios, o que explicava grandes índices de cirurgia redutora de mamas.

E por quê há duas décadas as mulheres corriam para os cirurgiões plásticos para reduzir os seios, e hoje o fazem para aumentá-los? Ora, não é óbvio? Porque é moda, porque a mídia dita esta tendência, porque as mulheres são tratadas como seres infantis e eternamente faltantes, eternamente compelidas a fazerem esforços desmedidos para se sentirem aceitas socialmente – pela beleza, em primeiro lugar - seja por qual instrumento for mais conveniente em dado momento, pois fazem-nas acreditar que esse é seu único poder.

Dizer que você quer colocar silicone porque “é um desejo seu”, que “ é por sua auto-estima”, que é “o que você acha bonito” e que, portanto, é um desejo genuinamente individual e que não tem influência externa alguma, é tão ingênuo e falacioso quanto negar a relação óbvia de que, nos anos 80, as mulheres que tinham seios grandes tinham complexos e se sentiam feias, e hoje quem vivencia isso são as de seios pequenos porque em cada momento foi exatamente isso que a mídia pregava. Sério, alguém realmente acredita que essa relação é apenas uma misteriosa coincidência do universo?!

“Não é só por estética”. Se não é por estética, é por quê? É por ser confortável? Ora, ter 2 bolsões de látex debaixo da pele não me parece mais confortável do que ter seios sadios e naturais. É por saúde? Não me soa lógico, haja vista que todos os médicos concordam que as próteses podem mascarar possíveis indícios de câncer de mama, ou seja, você pode desenvolver nódulos e eles não aparecerão nos exames, ficarão escondidos atrás das próteses. É por status? É para se sentir adequada? É para ter assunto com as amigas? Independente da resposta, nada contestaria o exposto acima. 

Os únicos motivos sinceros e legítimos para se colocar silicone, acredito, é em casos de extirpação das mamas devido à câncer ou outro infortúnio ou, ainda, naqueles casos raríssimos em que problemas hormonais não estimularam em absoluto o desenvolvimento dos seios. Em qualquer outro caso, as desculpas simplesmente não colam.

4)    Sou preconceituosa.

Vocês são engraçadas. Reforçam padrões mais preconceituosos impossível, mas ir contra eles é que é ter preconceito. De todo modo, é a velha história do Robin Wood: ele rouba dos ricos para dar aos pobres. Deve ser julgado do mesmo modo que os demais ladrões?

5)    Questionar as próprias atitudes.

Concordo plenamente com você quando diz que o título de meu blog deveria servir a mim também. Garanto-lhe que, antes de questionar os outros, questiono (e muito) a mim mesma. Não sou uma pessoa perfeita, longe disso, mas minha auto-crítica é ferrenha e por isso sempre tento ser uma pessoa melhor e mais coerente – virtude que poucos almejam, devo ressaltar.

Mas da mesma forma que você me vê como uma menina infantil, que camufla seus preconceitos de “pseudo-revolucionarismo”, que esconde seus posicionamentos atrás de questões pessoais não resolvidas, você também me soa como alguém que mudou – declinou, diga-se de passagem - para poder usufruir de um convívio social mais cômodo e justificar desejos vãos, contraditórios ao que outrora julgava corretos.


Considerações finais:

Acho realmente uma pena que sua fase de senso crítico não passou de uma rebeldia adolescente passageira. Se, como você defende, amadurecer é aceitar coisas que não deveríamos aceitar; se é deixar de ser “do contra”, isto é, ter opinião própria e divergente; se é nadar conforme a maré para levar uma vida mais fácil; se é se cegar propositalmente a reflexões para poder justificar seus próprios atos injustificáveis; então eu desejo intensamente chegar aos 80 anos com a mentalidade de uma menina de 15/16 anos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Inveja da minha branquelice

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Já comentei aqui sobre as tirações de sarro que sempre sofri por ser branquela. É raro, para não dizer impossível mesmo, sair de saia ou vestido e não ouvir algum comentário, baixinho, de alguém intrigado com minha branquelice. Muitos não são nada tímidos: falam alto, intencionalmente para eu ouvir, como minha perna é branca. Vale lembrar que a intenção não é exatamente elogiar; pelo contrário. “Que perna ridícula!”, “nossa, o que é isso?!”, “tá precisando ir pra praia, hein?!”, são os mais comuns.
                São comentários tão absurdamente depreciativos, insultos esses recebidos gratuitamente de pessoas que nem conheço, que poucos acreditavam quando eu contava. Até questionavam minha própria sanidade mental algumas vezes, pois muitos duvidavam que aquelas pessoas e comentários realmente existiram. Felizmente, em algumas situações eu estava acompanhada, o que possibilitou que a pessoa que estava comigo em dada situação pudesse ter certeza que essas coisas realmente aconteciam, que eu não estava mentindo e tampouco caminhando para a esquizofrenia.
                Não basta te acharem feio. As pessoas têm que esfregar isso na sua cara.
Se você acha algo feio em mim, tudo bem. Não sou uma mulher vaidosa e não acho que meu mundo acabou porque alguém me acha feia (sei de uma guria, inclusive, que chorou o dia inteiro porque, caminhando pelas ruas com uma amiga, um caça-modelo as parou. Ele abordou apenas sua amiga para fazer alguns trabalhos fotográficos, e não ela). Mas por que essa necessidade de esfregar isso na minha cara? Por que a necessidade de me fazer sentir ridícula e inadequada? Por que a vontade tão feroz de me humilhar publicamente? Por que minha branquelice incomoda tanto? Por que se sentir no direito de dizer – a um estranho, repito – como uma pessoa deve ser ou não porque é isso que você acha que é o certo?
Eu também acho muitas coisas horríveis nas pessoas, mas não saio por aí falando isso para elas, muito menos aquelas com as quais não tenho vínculo algum. Acho pavorosas aquelas mulheres que pintam o cabelo de loiro e que ficam super artificiais, mas não saio por aí perguntando se elas pintaram o cabelo com Suvinil (tinta de parede). 
A tal loira Suvinil.
Abomino homem com "cabelo de lego" (aquele corte normalzão que é simplesmente uma penugem capilar na cabeça), mas não saio por aí gritando nas ruas, perguntando se eles não tem vergonha de usarem o mesmo corte de cabelo desde os 6 meses de idade. 
O corte de cabelo “lego”adotado por 98% dos homens: palha pra cacete.

Acho medonhos aqueles cabelos cheios de luzes que chegam a ficar cinza. De costas, essas mulheres mais parecem bisavós com corpos de 25 anos. Mas não saio questionando essas mulheres se a intenção delas era ficar com o cabelo loiro ou grisalho mesmo.
A intenção era ficar loiro ou grisalho?

Argumento da inveja: o mecanismo de defesa dos narcisistas.
Tentando me consolar, as pessoas sempre me diziam: “não ligue, é inveja”. “Bobagem”, sempre pensei. Nunca acreditei que fosse inveja, e por 2 motivos: 
1)      As pessoas, especialmente as mulheres, realmente acham feio ser branca demais. Logo, não faz sentido elas terem inveja. Elas não invejam algo que acham feio.
2)      Nunca fui fã do argumento da inveja. Acho muito narcisismo achar que, se não gostam da gente, é porque nos invejam. É uma forma de sempre se colocar por cima: nosso defeito, se existir, é ser bom demais. Tão bom que até traz desavenças. Sei de pessoas que sequer conseguem cogitar outro motivo fora a inveja para alguém não gostar delas. Ora, nós podemos ter tantos defeitos, as pessoas podem desgostar de nós por tantos motivos! Deduzir precocemente que não gostam de nós por inveja é mesquinho demais. É narcisismo demais.

Ser diferente incomoda. Ser diferente e feliz incomoda mais ainda.
Em um dado momento, me atentei ao fato de que a esmagadora maioria das pessoas que faz esses comentários é mulher. Esse detalhe me leva a crer que sim, talvez possa ser inveja mesmo. Mas não inveja por achar bonito, pelo contrário. Inveja justamente por acharem feio, mas me verem auto-confiante sendo eu mesma. Inveja porque não conseguem conceber a idéia de uma mulher não corresponder ao padrão de beleza imposto (e que elas seguem neuroticamente) e ainda assim ser feliz. Inveja porque não conseguem aceitar que muitos homens acham bonito justamente aquilo que elas tentam ser ao contrário. Inveja porque alguém tem coragem de desafiar o senso comum e ser feliz assim. Como eu ouso estar feliz e satisfeita quando todos os signos sociais e midiáticos me dizem para eu me sentir um lixo, não é mesmo? Que audácia perante o padrão de comportamentos previsíveis!
Não, elas não têm inveja de mim porque acham minha cor bonita. Elas realmente me acham feia. E é justamente isso que incomoda e causa inveja: ser considerada feia e mesmo assim se sentir bonita. Isso vale para as negras, gordas, baixinhas, altas demais, magricelas, sardentas, ou qualquer mulher com uma característica fora do padrão, por causa da qual tentam nos fazer sentir como lixo. Mas não somos lixo. Somos livres. E como isso incomoda!






sábado, 24 de dezembro de 2011

Tenho medo de gurias alaranjadas

Se tem uma coisa bizarra nesse mundo, é o tal do bronzeamento artificial. Não entendo por que alguém paga para se bronzear artificialmente depositando seu corpo naquela câmara claustrofóbica e assumidamente cancerígena. Pô, isso é Brasil! Nosso país de grandeza continental é quase que inteiramente banhado pelo Oceano Atlântico. E não precisa nem ir à praia pra pegar um solzinho: passe o domingo no parque, se estenda no quintal de casa, sei lá. Não tem desculpa para pagar por isso.

A idéia de ficar trancada dentro de uma câmara de bronzeamento artificial
 me dá tanto medo quanto ser enterrada viva. 

Mas a questão principal não é essa. A questão principal é que a pele bronzeada é uma das maiores imposições estéticas da atualidade. É mais um padrão de beleza que a mídia reforça, por meio de diversos instrumentos, e quem não atende a essa característica é ridicularizado por estar fora dos padrões. Tendo isso em vista, o bronzeamento artificial é mais uma coisa estúpida que as mulheres fazem, mesmo correndo riscos de saúde por isso, para se sentirem adequadas, pertencidas e, claro, bonitas, já que a esmagadora maioria delas está totalmente imbecilizada e realmente acredita que a beleza é a maior fonte de realização de uma mulher. 

Porque o que importa é ser loira, bronzeada e ter peito de plástico.
       Apesar de haver diversos homens que chegam a ter mulheres muito brancas - especialmente as de cabelo escuro - como um verdadeiro fetiche, esse padrão estético, via de regra, é muito rechaçado. Eu, que nunca vi ninguém mais branco do que eu (no máximo tão branca quanto) sei bem o que é isso. Mas eu nunca iria condenar meu tempo, dinheiro e principalmente minha saúde para me adequar a um padrão de beleza.

       Essa decisão é audaciosa, porém. A todo momento recebo os indícios de que estou andando na contramão do que é aceito socialmente. Muitas vezes já ouvi mulheres (morenas normalíssimas, alías) dizendo estarem envergonhadas por estarem tão brancas. Ora, isto dito na minha frente deveria soar como o quê? Um elogio? Toda vez que volto da praia as pessoas me questionam, consternadíssimas, porque não voltei bronzeada. Bem, quando vou para a praia, o faço para aproveitar o mar e nadar. Se for só pra ficar pegando sol, não é mais prático ficar na laje de casa? E não vou nem entrar em detalhes de todas as 57 mil vezes que ouvi comentários na rua sobre minha perna branquela. É “super gostoso” ficar ouvindo críticas sobre sua aparência, de pessoas que você nunca viu na vida, no meio da rua, quando só o que você quer é poder andar com suas pernas descobertas sob um calor de 30 graus. Resumindo: é preciso ter muita atitude e auto-confiança para enfrentar um padrão de beleza e ser você mesma. Mas em tempos de individualidades esmagadas e pessoas padronizadas, ávidas para se sentirem aceitas socialmente e seguir irrefletidamente o que é imposto como normal ou bonito, é raro ver alguém que tenha essa coragem de ser verdadeiro consigo mesmo e respeitar seu biotipo, fenótipo e até etnia.

       É desolador ver como as mulheres –normalíssimas, repito - vivem cercadas de neuras e complexos, especialmente para ir à praia. Os homens, em contrapartida, raramente têm vergonha de seu corpo e, mesmo que o tenham, é em nível muito inferior ao das mulheres. Canso de ver homens cheios de cicatrizes, pernas feias, barrigas imensas, medonhas costas peludas que dispensam cobertores para dormir, dentre outros exemplos, e nem por isso ficam constrangidos. Pelo contrário. Usam roupas que evidenciam suas cicatrizes e formas fora do padrão, vão à praia sem angústia de mostrar o corpo.

Dispensa comentários, né?

Reparem como só homens e crianças entram no mar, enquanto todas as mulheres ficam estiradas na areia. Chega a ser ridículo. Algumas eventualmente entram no mar, mas é muito rapidamente, e apenas para se refrescar e voltar à areia com a sensação de estar queimando mais devido ao sal.

Quando estiver na praia, troque a imagem das mulheres 
                            por esta em sua mente. Dá na mesma.

Certo dia passou na televisão uma matéria sobre bronzeamento artificial (a favor, claro). A apresentadora disse: “quem não quer ficar bronzeada, com essa cor de saúde?” Cor de saúde? Gente, essas gurias praticamente expelem raios ultravioletas! Tem que passar protetor solar pra ficar perto delas! Elas ficam alaranjadas e essa cor não é humana! Como isso pode ser saudável?!

O que a televisão não faz para sustentar um padrão de beleza patético, hein? Não só incentiva uma ferramenta de bronzeamento que causa envelhecimento precoce e câncer de pele (esses "detalhes" nunca são devidamente enfocados nas reportagens), como o associa à esbanjamento de saúde!
Vera Fischer, uma das maiores representantes da gangue
das garotas alaranjadas.
Para a maioria das pessoas, essas mulheres abaixo são muito mais belas... 


Paris Hilton, Fergie e Christina Aguilera.

...do que essas.

Ao centro, Nathália Dill, e em sentido horário:
 Nicole Kidman, Julianne Morre, Liv Tyler e Mayana Moura.



Se você ainda quiser insistir que pra ser bonito tem que ser bronzeado, que é seu “gosto pessoal” e que isso não tem influência externa nenhuma, tudo bem. Mas por favor, não tente dizer que isso....

 
Anne Hathaway após sessão de bronzeamento artificial para o filme "Noivas em Guerra".



parece  mais saudável do que isso...Seria insano. 

Anne Hathaway sendo ela mesma.