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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Por que sou contra o aborto e a favor da legalização


Sempre fui contra o aborto como ato per se. Assim como a esmagadora maioria dos anti-aborto, meus motivos são basicamente religiosos. Os cristãos, em especial católicos e protestantes, acreditam que toda vida humana deve ser protegida a partir do momento da concepção (o que já é polêmico, pois é impossível definir exatamente em que etapa da fecundação começa a vida). Também acredito na defesa da vida. Mas vou além: dentro de uma perspectiva espiritualista, na qual me insiro, não vejo apenas a rejeição da vida como uma afronta à criação Divina. Acredito na Lei de Causa de Efeito (vulgo carma) e em reencarnação. 

Dentro desse parâmetro, toda gravidez é a possibilidade de um espírito voltar ao plano físico para reparar seus erros pregressos, o que por si só já é uma concessão de grande valia e ansiosamente esperada por muitos no plano extrafísico. Além disso, nada seria por acaso. Aquela criança tenta nascer naquele seio familiar em específico porque precisa, grande parte das vezes, unir-se àqueles com quem, outrora, estabeleceu relações conflituosas.  

Negar a oportunidade de reencarnação já concedida pela Força Criadora e rejeitar a oportunidade de reunir-se a um espírito com cuja convivência estão designados ensinamentos traz prejuízos ao progresso espiritual da mãe, pai e demais envolvidos no aborto. Uma gravidez indesejada revela uma relação onerosa entre os espíritos envolvidos (principalmente progenitores e filha/o), e a gravidez é a oportunidade de reunião (seja em que condição for, mesmo fruto de estupro). Renegar este resgate cármico é fortificar o ônus de uma relação que já é onerosa, além de apenas postergar um reencontro inevitável. 



Mas isso tudo é irrelevante. O Estado é laico. O Direito é materialista. Não posso propor leis jurídicas baseadas em crenças sobrenaturais. A todos é concedido o direito de liberdade de crenças, mesmo que isso signifique a total ausência delas.  E os ateus? E as pessoas que não acreditam em absolutamente nada além de seu corpo físico, que acreditam que, após a morte, não existe absolutamente nada além de um corpo que virará pó e uma mente que se apagará eternamente? Não seria injusto fazer essas pessoas se submeterem a certas regras e convenções baseadas nas crenças sobrenaturais dos outros? Obrigar uma mulher a ter um filho indesejado em nome de um carma, julgamento final ou Deus que ela sequer acredita?!


Tendo isso em vista, faz-se mister desenvolver um raciocínio mais abrangente para se poder ter um posicionamento mais imparcial. Discutirei aqui os temas principais. 

Contra o aborto e a favor da pena de morte

Muita gente é contra o aborto em função do princípio de “direito à vida” e, ao mesmo tempo, a favor da pena de morte, o que não faz o menor sentido. Alguns dirão: “mas o detento condenado à morte era um bandido”. Isso é infundado. O princípio “direito à vida”, por si só, é incondicional. Esse direito seria concedido apenas pelo fato de se estar vivo, ou seja, não há exceções ou requisitos. O próprio postulado é fechado em si mesmo. E, mesmo se houvesse uma brecha conceitual para essa discussão, cairíamos em um jogo de relativismos sem fim. O que faria alguém perder o direito à vida e merecer a morte?Ter assaltado um banco?Ter matado uma pessoa?Ter matado pelo menos duas pessoas?Assistir programas de auditório? O direito à vida é inflexível.


O Brasil aprova o aborto em casos de gravidez decorrente de estupro e em caso de risco à gestante

A atual legislação brasileira permite o aborto em casos de gravidez decorrente de estupro e risco de vida à gestante. Essas exceções já anulam o pressuposto de “direito à vida” que resguarda a proteção legal do feto. “O feto tem sempre direito à vida, salvo...” não tem fundamento lógico; logo, a proibição do aborto em função do pressuposto de “direito da vida” é inválida quando concomitante à sua liberação em determinadas circunstâncias. 

Se o aborto é proibido porque é a vida do feto que está no centro da discussão e, mesmo assim, admitem-se situações em que ele não pode ser protegido pela legislação, nota-se a necessidade urgente de se alterar velhos paradigmas e flexibilizar a discussão acerca do assunto. Desta vez, trazendo à tona também os interesses da mulher, e não só da criança.

“Sabia o que estava fazendo, agora arque com as consequências”


Duvido que as pessoas que falam isso estariam preparadas para aceitar um filho que fosse gerado de todas as relações sexuais que tivessem. Duvido mais ainda que deixem de fazer sexo porque a concepção de uma criança seria provável e, pior ainda, que façam apenas quando pretendem ter um filho. “Mas me protejo”, defendem-se alguns. Ótimo. Acontece que nenhum método anticoncepcional é 100% confiável, então ninguém está ileso. Nem mesmo os que repetem esse frase em negrito.


Somos donas de nossos corpos – mas só quando convém ao patriarcado



Ainda há o consenso de que a mulher é culpada pelos assédios e abusos que sofre, até pelo próprio estupro do qual tenha sido vítima. “Mas também, andando na rua com essas roupas, estava pedindo!”, “Foi ficar bêbada na festa cheia de homem, queria o quê?”, “Aceitou ir na casa dele”, “Entrou no carro dele porque quis” – são exclamações que rodeiam o senso comum – machista – que legitima os abusos. Ok, a menina desmaiou na festa de tanto beber. Isso significa que isso dá concessão para os homens abusarem? Vamos focar no algoz, pessoal?

Mesmo vítima de um abuso, a mulher tem sempre culpa porque, supostamente, “é dona do seu corpo, sabe o que faz com ele, como usá-lo e para quê”. O engraçado é que esse axioma só é válido para justificar as diversas formas de violência contra a mulher. Quando se trata de empoderá-la, como, por exemplo, permitir que decida sobre a continuação ou não de uma gravidez, aí é o Estado – e a Igreja – que assume a responsabilidade por seu corpo. 

Para legitimar os abusos sofridos, a sociedade confere à mulher a autonomia sobre seu corpo: foi ela quem tomou decisões relacionados à ele que culminaram no episódio de assédio ou violência sexual física. Para poder discernir sobre a continuidade de uma gravidez indesejada, entretanto, a sociedade oferece o oposto: espera-se que a mulher distancie-se de seu corpo e seja alienada deste.




Se os homens engravidassem, o aborto seria legalizado



Essa afirmação pode soar audaciosa e puramente circunstancial, mas reflete sobremaneira a estrutura patriarcal vigente. Não é difícil perceber como praticamente tudo é feito pelos homens e para os homens. O exemplo principal que quero dar, pois tem a ver com o tema, é a pílula anticoncepcional.

            A Medicina relega o controle de natalidade às mulheres, sendo a pílula anticoncepcional um dos métodos contraceptivos mais comuns. Elas precisam tomar a pílula quase todos os dias do mês, sem falhar e no mesmo horário por todos os meses do ano, durante todos os anos de sua vida fértil (até a menopausa). Os comprimidos estão repletos de carga hormonal que, adicionada aos já excessivos hormônios presentes no corpo da mulher, dada sua natural instabilidade devido aos ciclos menstruais, se tornam, a longo prazo, verdadeiras bombas potencializadoras de diversas doenças, especialmente o câncer. 

 


          Todo esse incômodo para evitar que uma mulher tenha, no máximo, uma gestação por ano. Os homens, em contrapartida, podem gerar, no mínimo, um filho por dia. Podem fecundar inúmeras mulheres no mesmo dia – falando apenas biologicamente, claro. Isto é, em um ano, uma mulher pode gerar uma criança; um homem, no mínimo 365. E a quem é dada a maior responsabilidade de fazer controle de natalidade? Não há interesse algum em mercantilizar uma pílula anticoncepcional masculina. O paradigma científico já permite o desenvolvimento dessa técnica, mas “as mulheres que fiquem com essa chatice”. Sim, afirmo com veemência que se o aborto fosse de interesse dos homens, caso engravidassem, já seria legalizado.

O aborto já é permitido - para homens abortarem filhos nascidos



A sociedade condena a mulher que pratica o aborto, mas não com a mesma ênfase que condena o homem que aborta simbolicamente seus filhos nascidos. São comuns as histórias de homens que renegam os filhos, que abandonam as companheiras enquanto ainda estão grávidas, que limitam-se a pagar pensão (ou nem isso), que acham entediante passar tempo de qualidade com os filhos, ou que levam as crianças pra tomar sorvete no sábado à tarde achando que é o suficiente. Esses homens não são estigmatizados. Eles não tem sua vida social condenada por causa disso.

Por que essa sociedade que vocifera tanto contra o aborto não faz o mesmo em relação aos homens que abortam os filhos nascidos, cenário que é tão comum? Se o foco é o bem-estar da criança, por que a razoável apatia diante de homens que não nutrem afeto pelos filhos? A resposta é fácil: o homem pode renegar os filhos. O homem pode abortar. É a mulher que não.


Quem é contra a legalização do aborto tem obrigação moral de ser vegetariano

É contra o aborto, mas a  favor de tudo isso(!)


  
 Incoerência é o que ronda uma sociedade que recrimina a terminação de uma vida embrionária com tanto vigor, mas aceita o holocausto diário perpetrado contra os animais usados na indústria alimentícia. Além de incondicional, o princípio do direito à vida deve ser universal e não se limitar à espécie humana. O ensinamento de não se poder acabar com uma vida inocente deve se estender às tantas vidas não-humanas, mas de semelhante complexidade e vontade de viver. Todos os animais são sencientes. Quanto maior a complexidade do animal, menos respostas meramente instintivas ele apresenta: maior sua consciência de si mesmo, sua experiência de dor e tristeza e sua capacidade de desenvolver afeto por outros seres fora de sua própria espécie.
               
            Os animais mortos na indústria alimentícia, vestuário, cosméticos e nas práticas de caça – esta última até hoje absurdamente vista como “esporte” (e me expliquem a virtuosidade de um esporte que tem como finalidade matar outros seres pelo simples prazer de matar e ver sofrer) – estão mais conscientes e sencientes das experiências de dor do que um embrião humano de algumas semanas.

           O porco, visto apenas como um delicioso pedaço de bacon para muita gente, já se provou um dos animais mais inteligentes do mundo, quase no mesmo nível de gorilas e chimpanzés. Sua inteligência é equivalente à de uma criança de 3 anos, tendo o poder de compreender a linguagem simbólica simples e aprender combinações complexas de símbolos para ações e objetos. Além disso, demonstram grande empatia e facilidade em desenvolver afeto por outrem. 

        Bois, vacas, galinhas, dentre outros, experienciam não só a dor plenamente, mas a angústia da iminência da morte quando vêem o sacrifício de seus pares. Angústia, tristeza, mal-estar e desespero também estão presentes no dia-a-dia desses animais dentro dos abatedouros, granjas e fazendas industriais. Eles vivem enclausurados em celas minúsculas onde mal podem se mexer ou usufruir de uma existência minimamente digna.

       As fêmeas são relegadas à função de reprodução, sendo mantidas continuamente grávidas por sucessivas fecundações contra sua vontade – vulgo estupro -, o que lhes confere as mais diversas enfermidades: doloridas infecções mamárias devido à incessante e eterna ordenha,  estresse, dores generalizadas e redução significativa da expectativa de vida. Quando não mais úteis ao processo reprodutivo, são impiedosamente enviadas ao abate, como peças quebradas descartadas e esquecidas no lixo.   


          Certamente terão aqueles alegando que uma vida humana não pode ser comparada a de um animal, que humanos são mais importantes do que as demais espécies. Essa afirmação é equivocada, reacionária e especista. Especismo é o que caracteriza o pensamento de que o ser humano domina o planeta e todas as demais espécies existem para lhe servir. É esse axioma perversamente antropocêntrico que legitima a exploração animal e põe a vida humana, seja em sua etapa mais rudimentar, em posição de infinita superioridade em relação a uma vida não-humana, mesmo em seu grau mais complexo.


Mamíferos complexos como vacas e bois tem menos direitos do que um blastocisto.


Porcos são inteligentes e afáveis, mas o Estatuto é para a Mórula. 
       
          Até hoje animais são usados para satisfazer os desejos humanos porque a sociedade ainda segue a premissa estipulada por Descartes, no século XVII, segundo a qual animais não sofrem por não possuírem a razão e serem, portanto, seres autômatos, o que permitiria sua dissecação viva para fins científicos e diversos, uso em cruéis testes laboratoriais e o bárbaro abate. Seria interessante evoluirmos e mudarmos nosso paradigma ético-moral em relação aos animais. Afinal, já se passaram 400 anos.

          Entretanto, poucos se importam com os animais. Importa mais, inclusive para muitos anti-aborto “pró-vida”, o suculento hambúrguer sangrento, a porção de asinhas de frango bem temperadas e o gostinho de uma linguiça no ponto. “O animal que sofra para me satisfazer”, repetem a maioria, mesmo que inconscientemente. Só humanos estão resguardados do sofrimento, mesmo que sejam apenas uma mórula. 


               
Holocausto animal diário: tudo para servir os humanos!


Animais mantidos em confinamento: bem-estar e dignidade zero. 




Em nome da Ciência

Vaca servindo ao único propósito permitido pelos seres humanos; servi-los.



Estados Unidos, Canadá, Europa > Todos pró-aborto

Brasileiro adora dizer que Estados Unidos e Europa são lugares magníficos e que tudo que vem de lá é super “prafrentex” e deveria ser aplicado aqui.  Tem aqueles que gostariam que exatamente tudo no Brasil fosse igual aos Estados Unidos - até a pena de morte - já que lá “as coisas funcionam”. Mas esquecem que todos esses países “prafrentex” já legalizaram o aborto há quase meio século. Por que a seletividade?

No continente europeu, apenas Polônia e Malta criminalizam o aborto. Polônia (de forte influência católica) aprova o aborto em caso de estupro e quando há risco para a gestante, enquanto Malta, nada menos do que propriedade do Vaticano, proíbe-o em qualquer circunstância. À exceção destes dois, absolutamente todos os países da Europa, além de Estados Unidos e Canadá, permitem o aborto à pedido livre da gestante. Se esses países são “prafrentex” e legalizaram o aborto, isso deve significar alguma coisa.



“Legalizar o aborto vai aumentar o número de abortos”, “aborto vai virar método anticoncepcional” e outros chavões

             Abortos acontecem diariamente, seja contra a lei ou não. Ninguém deixa de abortar porque os hospitais públicos não prestam esse serviço. Ao contrário, todas que desejam realmente descontinuar a gravidez o fazem de qualquer maneira, seja nas clínicas clandestinas onde altos pagamentos possibilitam um procedimento seguro, seja nos becos sem o mínimo de higiene e estrutura, onde muitas mulheres vem a sofrer consequências nefastas como esterilidade ou mesmo a morte.

            Não é possível garantir que legalizar o aborto acarretaria na maior procura pelo procedimento. Muitos países onde o aborto já foi descriminalizado detectaram que o número de abortos não aumentou depois da legalização. Tampouco deve-se supor que o aborto viraria método contraceptivo.  

Pensar que alguma mulher irá usar o aborto como método anticoncepcional é de uma infantilidade enorme. O aborto é extremamente invasivo e deixa profundas sequelas corporais e psicológicas. Nenhuma mulher em sã consciência iria preferir recorrer a este procedimento periodicamente ao invés de experimentar outros métodos contraceptivos. Além disso, o controle de natalidade deve ser responsabilidade do casal, e não recair somente às mulheres. 

Se entende-se que os abortos aumentariam, entende-se necessariamente que os homens também estão falhando na prevenção. Logo, o que é necessário, mais do que a proibição, é enfatizar a necessidade do controle contraceptivo do casal para que os abortos sequer sejam necessários, mesmo se legais. De todo modo, mesmo legalizando o aborto, o Estado poderia regulamentá-lo, estipulando limites de ocorrências por mulher em um determinado período de tempo, por exemplo.

Considerações finais

Feministas não são a favor do aborto. Somos a favor da descriminalização da decisão da mulher de descontinuar a gravidez.  Ser a favor da legalização do aborto não é necessariamente ser a favor do aborto. Ao contrário, é apenas esperar que o Estado possibilite à mulher que tomou a decisão de descontinuar uma gravidez indesejada os meios dignos de fazê-lo, além de não ser presa por isso.  Não defendemos o aborto como método contraceptivo, tampouco como ferramenta de uso indiscriminado para dar fim a qualquer gestação.

Se você é contra o aborto, assim como eu, não o faça. Mas permita que o outro decida o contrário quando isso só afetará a vida dele, e não a sua. Permita que as pessoas possam tomar uma decisão tão íntima e privada sem que haja intervenção estatal. Se é pecado, assassinato e se acarreta em débitos perante uma Divindade, o outro que preste suas contas, seja no Juízo Final, na próxima encarnação ou onde sua religião define. O Estado não pode legislar neste domínio.

Voto a favor da legalização do aborto, embora seja contra o ato em si. O avanço legislativo precisa acompanhar os passos que muitos países, séculos à nossa frente, já deram. Especialmente porque a legislação vigente não é a favor do feto; é contra a mulher.






quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Os reaças vão à loucura com as questões de gênero abordadas pelo ENEM

          UMA MULHER É ESTUPRADA A CADA 11 MINUTOS NO BRASIL, mas estima-se que esse índice seja até 10 vezes maior, haja vista que apenas 10% dos casos de estupro chegam a ser denunciados (por motivos óbvios: medo, vergonha, ameaças). Casos de estupro nas festas universitárias, especialmente de calouros, são recorrentes nas mais diversas instituições de ensino de todo o país. Todos se lembram dos casos de estupro nos trotes da USP, por parte dos alunos veteranos. Igualmente comuns são aqueles nas próprias dependências dos campi, em situações diversas. Não é fato isolado - esse cenário é recorrente na vida das universitárias.

           O Brasil é o 5o país que mais mata mulheres no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde citados no Mapa da Violência. Quase 30% dos feminicídios são ocorridos no lar, o que corresponde ao tripo do índice de assassinatos a homens dentro do mesmo âmbito doméstico. A violência contra a mulher, aquela em que o fato de ser mulher é determinante na perpetração do crime (uma atendente de caixa de supermercado morta a tiros por se recusar a entregar o dinheiro durante um assalto, por exemplo, não configura violência contra a mulher), é diária, independe de classe social e grau de formação - nem da vítima, nem do algoz. 

            O Caso Eloá foi só um dos inúmeros exemplos de mulheres vítimas de violência - em seus diversos níveis - por parceiros ciumentos ou inconformados com o fim do relacionamento. Ex-parceiros que ameaçam e perseguem; psicopatas que ficam à espreita de mulheres andando sozinhas nas ruas; assédios de raiva e lesões físicas cometidas por homens que se sentiram rejeitados. Não é difícil notar que existe uma violência perpetrada especialmente ao gênero feminino, à parte da violência generalizada.





        
          Como se isso não bastasse, também lidamos com a violência não-física: a violência simbólica e psicológica, que podem ser ainda mais perniciosas dada sua complexidade e sua característica de permanecer velada e despercebida conscientemente. A falta de credibilidade em muitos meios acadêmicos e profissionais pelo simples fato de ser mulher; a desonestidade de muitos prestadores de serviço perante nossa suposta ignorância naquele domínio; assédio nos ônibus e locais públicos onde encoxadas (e coisas piores) são comuns; o medo de andar sozinha nas ruas; a objetificação sexual da mulher na mídia; a mulher como enfeite sexual e estratégia para vender qualquer coisa; o condicionamento social perverso que impõe que temos que ser bonitas acima de tudo e que se não nos adequarmos ao padrão de beleza alienante não adianta sermos mais nada; a coerção social para ter filhos, mesmo quando não os desejamos, e a culpa imposta caso seguimos com nosso real desejo; assédio nas ruas, onde ouvimos em voz alta o que o imbecilzão pensa de nosso corpo, como se fôssemos frutas expostas numa prateleira de quitanda à mercê da opinião e apalpe alheios. 

Estar na rua é estar nos holofotes da opinião alheia sobre nosso corpo. 
Todo comentário é agressivo e aviltante, mas velado de "elogio".


Assédio sexual no âmbito profissional são comuns. "Se pegar, pegou".



Mulher objetificada na mídia.


As indústrias de entretenimento e consumo transformando as mulheres em bonecas de pano moldáveis a todo e qualquer requerimento estético. Nunca estar satisfeita com seu corpo - esse é o lema.

A sociedade ensina as mulheres a se protegerem, enquanto deveria ensinar os homens a  não estuprarem. O que resta é viver no medo. 
           
          Mas ainda tem gente que acha que falar em direitos das mulheres é frescura. Pior: indignam-se ao ver "a persistência da violência contra as mulheres" como tema de redação do ENEM. Revoltam-se, mais ainda, com uma questão de múltipla escolha pedindo tão somente que se associasse a obra "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir ao movimento feminista. Alegam que a prova fez doutrinação marxista e que os organizadores da prova são "feminazis". Outros se incomodam em levantar o tema pois "é necessário falar dos homens também". Restringir-se ao debate da questão das mulheres, alegam, é dar privilégios a elas. 



           Bonecos de ventríloquo da Revista Veja que acham que tudo é doutrinação marxista; Neandertais que ainda vivem entre nós e torcem o nariz para qualquer tentativa de empoderamento da mulher; reaças em geral, simpatizantes de Bolsonaro e afins, entendam uma coisa: a reivindicação pela dignidade humana, seja de qual grupo for, ultrapassa qualquer posicionamento politico e econômico. Falar em direitos das mulheres não é marxismo, petismo, "machismo ao contrário", "feminazismo" ou qualquer outra alucinação que suas mentes insanamente férteis para a imbecilidade poderiam defender. Violência contra a mulher não é brincadeira. Negá-la é, justamente, comprovar sua existência. Sua negação é a violência em si mesma.



Fonte: 
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/6-dados-que-revelam-a-gravidade-da-violencia-contra-a-mulher

http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151108_violencia_mapa_brasil_2015_fd?ocid=socialflow_facebook

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/mulherio/quando-as-universidades-vao-levar-o-tema-do-estupro-a-serio-o-caso-da-ufpr/

http://akina.jusbrasil.com.br/noticias/150973214/alunas-denunciam-estupros-em-festas-da-medicina-da-usp

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/maringa/classe-alta-ainda-esconde-a-violencia-contra-a-mulher-diz-secretaria-c0ffc55x5c24ujp9jm9v7rkge

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/maringa/classe-alta-ainda-esconde-a-violencia-contra-a-mulher-diz-secretaria-c0ffc55x5c24ujp9jm9v7rkge

domingo, 24 de novembro de 2013

Mulheres ainda querem homens das cavernas


Tem mulher que ainda quer um parceiro homem das cavernas. Pelo menos é isso o que eu deduzo quando fico sabendo que alguém deu um fora em um homem porque ele sugeriu dividir a conta no encontro, e não pagá-la sozinho. Ou, ainda, que alguma mulher teve um encontro ótimo com um cara super interessante, mas que afirma que não dará certo porque ele não tem emprego fixo.
 
 

Ora, para uma mulher dessas, teria algo melhor do que retroceder ao período Neolítico? Nessa época, a divisão de trabalho era marcantemente definida por sexo. Não restavam dúvidas de que o homem era responsável pela proteção e sustento das famílias. Do ponto de vista evolutivo, seria mais vantajoso perder uma mulher do que um homem, pois sem este último o bando teria as possibilidades de provento e sobrevivência fortemente afetados. Poderia haver papel com caráter mais limitante e subordinativo a se conferir às mulheres?

Em 2013, não muita coisa mudou. Não é raro ver mulheres com cara de paisagem quando o garçom traz a conta. Alguns carnês parecem até carregar consigo doenças infecciosas, pois muitas sequer ousam tocá-los. Muitos homens compartilham da mesma linha de pensamento – acreditam que é seu dever pagar a conta, talvez como uma forma de retribuir financeiramente o tempo passado junto (embora eu tema que exista outro nome para isso – e não é bonito). Outros apenas fazem porque é isso que se ouve dizer ser a atitude corriqueira, embora nunca tenham refletido sobre isso. Tantos outros, em contrapartida, acreditam que a mulher deveria compartilhar dessa responsabilidade; quase todos desse grupo, no entanto, preferem se render e ir contra seus princípios caso sintam que isso ameace suas chances de tirar uma calcinha no fim da noite.


Pra você que está procurando um namorado “que te dê segurança”: o da direita é mais gatinho. Fica a dica.

          É tão difícil perceber que a tal “segurança financeira” que as mulheres ainda hoje esperam dos homens não difere em nada da segurança (e controle) outrora oferecida –brutamente – pelos homens que viveram em 10 milênios antes de Cristo?

            O grande conflito paradigmático da atualidade, contudo, é o seguinte: as mulheres nascidas a partir da década de 1980 não esperam mais um homem que lhes forneça tudo para que possam se dedicar exclusivamente ao lar. Ao contrário. Elas desejam ter empregos, profissões, renda própria e até carreiras. Mas ainda assim esperam que o homem seja sempre MAIS: mais estável financeiramente, mais importante, mais bem sucedido, mais poderoso, enfim. Inevitavelmente, até mesmo as relações conjugais se transformam em relações de poder.

            Se este é o paradigma – defendido pelas próprias mulheres – quem de fato está lutando pelas tão aclamadas melhores condições de trabalho para as mulheres? As reivindicações por igualdade em cargos e salários para homens e mulheres não faz sentido, partindo desse princípio. Para que remunerá-los igual, se as próprias mulheres não aceitam ter as mesmas responsabilidades? Para que poder ter as mesmas oportunidades no mercado de trabalho, se a ideia é manter os homens no poder?

Mulheres, meu recado é o seguinte: a sociedade evoluiu. Muita coisa mudou desde o período Neolítico - e deve continuar mudando. As relações sociais ficaram muito mais complexas, os recursos para se viver se tornaram muito mais acessíveis e às mulheres foi concedido o direito à vida pública, que expandiu seu papel social enormemente.

Assumam a responsabilidade e controle de suas vidas. Mudem de paradigma. Pois, da mesma forma que vocês acham “justo” trocar de parceiro por outro que ofereça mais proteção e estabilidade, igualmente “justo” seria um homem trocar sua parceira (você mesma) por uma mulher mais jovem, mais bonita e mais fértil– apenas por esse motivo. Ora, é a lei da selva. Não é essa lei que vocês tanto defendem?

sábado, 19 de janeiro de 2013

Teoria dos Legos

   

          Já falei aqui sobre o tal “cabelo de lego”, aquele corte padrão e sem graça que a sociedade impõe que os homens devem adotar. Defendi, acima de tudo, que minha total falta de atração por tal corte de cabelo não ocorre apenas em função de seu fim estético, mas sobretudo por sua simbologia.

          Muitos se surpreendem com meu posicionamento. A sociedade ainda não parece estar preparada para a teoria dos cabelos de lego. De fato, é uma teoria demasiadamente inovadora e revolucionária até para o ano de 2013. É uma teoria multifacetada que envolve muitas variáveis. Sob sua ótica, fatores aparentemente desconexos se entrelaçam harmonicamente em uma lógica iluminadora. Ela envolve a problemática de condutas sociais, poder de dominação, padrões de comportamento, paradigmas culturais e até feminismo.

O tal "cabelo de lego".

Quem é radical, afinal?



          Muitos alegam que sou radical por considerar o cabelo comprido um pré-requisito para me interessar por um homem. Na realidade, radical é a norma de que todos os homens devem ter cabelo curto. Aliás, quantas mulheres já não disseram com todas as letras que detestam homem de cabelo comprido e, portanto, só ficam com homem de cabelo curto? E por que isso não é radical? Ora, porque esse é o paradigma vigente para a sociedade atual, essa é a convenção social em vigor. Isto é, qualquer que fosse o padrão, X ou Y, poderia ser veementemente reforçado ou rechaçado. E o que define se será reforçado ou rechaçado são as instituições no poder em dado momento histórico/político/econômico. A essência deste sistema é o poder de fazer qualquer coisa - o que convier no momento - ser defendida por toda uma sociedade como certo ou errado.

          Este é o sistema de domínio que define o que as pessoas vão achar bonito ou feio, divertido ou chato, correto ou injusto, ou o que vão apreciar ou depreciar em termos de música. É o sistema que padroniza a sociedade. Estas forças exercem um domínio tão pleno, que se dá de forma tão inconsciente, que as pessoas encaram muitos de seus padrões de comportamento como "naturais". Os homens nem questionam por que têm cabelo de lego. Eles simplesmente têm. Eles simplesmente nem cogitam outras opções. Eles foram hipnotizados pelo axioma segundo o qual "homens têm cabelo curto e mulheres têm cabelo comprido". As mulheres, em contrapartida, sequer refletem por que gostam – ou acreditam que gostam – apenas de homens com cabelo curto. Elas simplesmente gostam e sequer refletem que poderia ser diferente, que isso poderia ser questionável.

          O perigo desse domínio encontra-se justamente quando pensamos em todos os outros valores e formas de conduta que apenas repetimos, sem questionar. Fenômenos mais complexos do que um simples corte de cabelo (não que um corte de cabelo já não carregasse consigo valores, signos e representações complexos o suficiente!) a que estamos sujeitos a defender ou rechaçar com todas as nossas forças, acreditando, quase que num estado hipnótico, que tal posicionamento é genuinamente nosso.



“O que meus clientes vão pensar?”

          Ainda é evidente o preconceito em relação a homens de cabelo comprido em empresas privadas e corporações de todo tipo. Via de regra, é este o motivo que faz tantos homens se renderem ao cabelo de lego.

          Os empresários defendem que o cabelo comprido em um homem é motivo lícito para demitir ou não contratar, e justificam seu preconceito a partir da máxima "o que meus clientes vão pensar?". Esse pensamento é raso e arbitrário por dois motivos.

          Em primeiro lugar, todos somos clientes. Como massa consumidora, toda a sociedade é cliente de alguém. Logo, tal cliente sou eu, é você, é a própria pessoa que articulou tal frase. O empresário que a proferiu compartilha deste preconceito. Um preconceito que é covardemente transferido para outros: os clientes, a sociedade, a massa consumidora – a qual ele mesmo compõe.

          Em segundo lugar, o que o resto da sociedade – os tais “clientes” – tanto tem que exige tanto que estejamos à sua altura? O que seus clientes irão pensar de um funcionário de cabelo comprido, não é mesmo, caro empregador? Seus clientes, aqueles indivíduos ilustres que cheiram cocaína antes de colocar o terno e a gravata, que dirigem embriagados, que jogam lixo no chão, que não se levantam do assento prioritário quando um idoso entra no ônibus, que condenam a corrupção na política mas oferecem propina ao policial para se livrar da multa, que ultrapassam pelo acostamento, que não cumprimentam o porteiro, que estacionam em vagas de deficientes porque “serão só 10 minutinhos”.

          O funcionário adequado para sua empresa deve ser, acima de tudo, um homem de cabelo curto, certo, empregador? Porque, claro, o que mais poderia definir caráter e competência profissional a não ser centímetros de fibra capilar? O trabalhador que você procura deve estar alinhado à representação de sucesso dessa sociedade doente que você ajuda a manter: o cara que troca de carro todo ano, mas não tem dinheiro para pagar o IPVA; que ocupa uma posição de prestígio e poder e assedia sua secretária; que estudou nas melhores escolas, já realizou intercâmbios culturais em diversos países e cujo programa preferido é o Big Brother Brasil. São essas pessoas, exemplo de sucesso, que sua empresa precisa. Todos sempre com o cabelo devidamente podado e alinhado, porque é isso que faz a diferença, obviamente.


O cabelo comprido como crítica social

          De fato, o cabelo comprido em um homem representa um ato transgressor, uma crítica social. Daí seu perigo, aos olhos daqueles que visam manter o sistema. As instituições sociais – principalmente empresas e escolas – não desejam pessoas questionadoras e críticas; desejam marionetes, pessoas que apenas respeitam o sistema, seguem o que é ditado e reproduzem o que já existe. Anseiam pela manutenção do status quo, enfim. Uma das muitas formas de manter tal domínio é padronizando os homens fisicamente.



          Além de mascarar individualidades e esmagar autenticidades, o cabelo de lego reforça velhos padrões de gênero.

          Uma das várias facetas da teoria do cabelo de lego é a problemática de gênero. O cabelo curto é um dos tantos estereótipos masculinos sem sentido. É um padrão de masculinidade inconsistente e ultrapassado, como tantos outros.

          De igual importância, temos a questão da estética propriamente dita. Da mesma forma que as mulheres ficam melhor ou pior de acordo com o corte de cabelo, os homens também. É por isso que mulheres com rostos mais circulares evitam cabelo curto; que mulheres com cabelos finos e demasiadamente lisos optam por repicá-los; que mulheres com cabelos muito ondulados evitam franjas.

          Aos homens, ao contrário, é concedido o direito de não precisarem ser fisicamente atraentes. Pelo menos essa não é, nem de longe, a prioridade. Quantos não dizem que mantêm o cabelo curto porque seu cabelo é "ruim" ou "difícil"? Ora, quantas mulheres também não têm cabelos difíceis, muito volumosos, ou muito murchos; muito ondulados ou muito lisos; muito secos ou muito oleosos? Não é justamente por isso que elas diversificam os cortes, fazem alisamentos, escovas progressivas, permanentes, tinturas, hidratações, etc? E se elas também fizessem como os homens: raspar, ou deixar bem curto, porque é mais fácil?

          Isso está fora de cogitação. Nossas formas de conduta estão assentadas sob o princípio de que as mulheres precisam estar constantemente tomando ações que as tornem sexualmente atraentes. Dos homens, em contrapartida, é exigido apenas um básico ritual de higiene: basta tomar banho, aparar a barba e passar desodorante. E por quê? Porque o desejo da mulher raramente está em questão. "Elas que fiquem com as migalhas", diz a sociedade, nas entrelinhas. Ainda mais triste é o fato de a maioria das mulheres estar tão dominada por essa forma limitada de pensar que sequer percebe que estão se contentando com migalhas.



          É claro que não defendo que todos os homens passem a ter cabelo comprido; isso seria criar um padrão do mesmo tipo. Tampouco defendo que os homens passem a ser tão obcecados por seus cabelos como as mulheres, mas sim que as exigências estéticas sejam menos desiguais. O que sugiro, sobretudo, é que a sociedade reflita sobre as bases que fundamentam seus valores e seus padrões de comportamento.

          Alguns homens realmente ficam melhores com cabelo curto; outros, ao contrário, não seriam tão atraentes se cortasssem suas madeixas. Muitos homens combinam com seus cachos, e por isso deveriam deixá-los crescer; tantos outros se iluminam pelo rosto moldado com as mechas lisas. É esta a diversidade que se faz necessária. Impor um mesmo corte de cabelo a todos os homens, mesmo que não valorize a maioria deles, é um mecanismo de padronização tão alienante que beira a insanidade coletiva.



          Hoje encaramos como absurda a realidade de poucas décadas atrás segundo a qual as mulheres não podiam escolher seus maridos - tampouco podiam escolher não casar. Isto é, elas deveriam se casar com o homem - extremamente nojento, geralmente - que tivesse sido definido por outras pessoas – o pai ou o próprio futuro marido - independente de amá-lo ou sentir atração física por ele.

      De forma análoga, algum dia a sociedade ainda vai se despertar para o absurdo, considerado normal hoje, que é o fato de as mulheres serem impelidas a estarem sempre impecavelmente belas e sensuais, ao passo que devem se contentar com homens pouco vaidosos e pouco atraentes. Algo que poderia mudar – e muito – simplesmente pela iniciativa de alguns homens de diversificarem os cortes de cabelo. Se isto ocorresse, as mulheres não mais ficariam encurraladas por terem que escolher dentre as limitadas opções de homens que compartilham do mesmo corte de cabelo ridículo. Um corte que não pretende deixá-los mais bonitos e atraentes, mas apenas práticos. Um corte cujo único objetivo é facilitar a vida. Dos homens.





terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O mundo é o Colégio Medianeira

          Estudei todo o ensino fundamental no Colégio Medianeira, de onde saí apenas aos 14 anos. Tive uma infância feliz, mas lembro do início da adolescência como um período perturbado; é quando a personalidade começa a se consolidar, as reflexões emergem, as opiniões se formam e você começa a descobrir quem realmente é.

          Aos 9 anos de idade, o presente de meus sonhos era um autorama ou um videogame com volante, mas nunca tive coragem sequer de comentar esse desejo com meus pais porque, pensava eu, eles brigariam comigo se eu pedisse um brinquedo “de menino”. Meu brinquedo preferido, inclusive, era o Jeep da Barbie, e tenho certeza que ele me entusiasmava muito mais pelo fato de ser um carro do que por ser um acessório da boneca.

Sim, eu brincava de carrinho. Já era a feminista latente dentro em mim, revolucionando conceitos sexistas mesquinhos.

Nesta mesma idade, me inquietava o fato de aprendermos sobre a evolução humana sob o paradigma do sexo masculino; não bastasse as figuras sempre representando tão somente a evolução do corpo masculino, a denominação da espécie humana se resumia no termo “Homem”. Eu questionava porque o ensino da humanidade excluía as mulheres ilustrativa, lingüística e simbolicamente e focava-se nos indivíduos masculinos. Lembro-me de comentar com minha mãe que meu pai havia sido um homem das cavernas. Ela me corrigiu, afirmando que nós – mulheres – também havíamos sido. Ora, para uma compreensão infantil pautada em interpretações literais, meu pensamento não estava tão equivocado assim.  Simbolicamente, era isso o que ensinavam.


O ensino da evolução humana é ilustrativa, lingüística e simbolicamente masculinista.

Aos 10 anos de idade, enquanto minhas colegas ainda brincavam de Barbie, eu pedi uma guitarra para minha mãe. É claro que ela não atendeu meu pedido; ela não levou a sério um desejo que, mais de 15 anos depois, continua efervescentemente vivo e jamais morreria.
Aos 11, já possuía um vasto conhecimento musical e sentia-me limitantemente acorrentada por não poder compartilhar do meu interesse pela música com meus pares. Meus colegas não ouviam música. Não com consciência. Eram daqueles que acreditavam que o melhor disco do ano tinha sido a compilação da trilha sonora da novela das 8 e que só conheciam o que tocava nas rádios e no programa do Faustão.

          Diferente das meninas da sala, eu nunca me interessei por aqueles meninos sem graça da turma, os “galãzinhos de 12 anos”. Eu sempre gostei de homens mais velhos, intelectualmente provocantes e esteticamente perturbadores. Um de meus maiores sonhos, inclusive, era casar com o Jon Bon Jovi, 24 anos mais velho do que eu.


Eu tinha um sentimento muito certeiro, quase profético, de que eu seria a próxima esposa do Jon Bon Jovi (!).

          Meu sentimento de inadequação era marcante. Eu não me identificava com os colegas. Eu sentia falta de inquietude nas pessoas; de angústia; daquele caos interior que te move a pensar a vida de forma diferente, buscar respostas, agir criticamente sem se contentar com o que quer que seja; de ânsia por decifrar os mistérios da vida e compreender essa existência turbulenta.

          Ao iniciar o segundo grau, imaginei que seria o momento ideal para mudar de escola. Mudar de vida. Conhecer gente nova, menos previsível. Reconheço que melhorou ligeiramente, mas fundamentalmente tudo continuou igual. Fui crescendo, saindo para o mundo, me inserindo em novos contextos, entrando para o mercado de trabalho, trabalhando em diversas empresas e conhecendo todo tipo de gente. Curiosamente, tudo continuou como era no Colégio Medianeira.


          As meninas, hoje adultas, não mais desejam brincar de Barbie. Regrediram: querem ser a Barbie. Os meninos, hoje crescidos, continuam infantis: respondem a códigos masculinos medíocres e fazem o que quer que seja, até o que não desejam, para afirmar sua suposta masculinidade. Homens e mulheres permaneceram na infantilidade musical: abdicam até mesmo de seu gosto musical genuíno para serem aceitos socialmente. Não aprenderam a ouvir música com consciência e continuam acreditando que gostam daquilo que a mídia sugere que devem gostar. As meninas que naquela época ouviam pagode e axé só porque estava na moda são as mesmas que hoje ouvem sertanejo universitário pelo mesmo motivo. Naquela época, elas abominavam sertanejo porque a mídia o colocava como “música de diarista”. Mas é melhor não enfatizar este fato para que elas não fiquem sem graça. Reconhecer que se leva uma existência inautêntica é humilhante demais; é mais fácil negar e se justificar com desculpas esfarrapadas.


          As pessoas continuam padronizadas: são passivamente moldadas para pensar, agir, se vestir, se divertir e se interessar pelo que a televisão impõe inconscientemente em cada momento. Agora, no entanto, elas não têm mais a desculpa de serem apenas adolescentes. Já são adultas.

          Muita gente continua vivendo sob a proteção de máscaras, negando – para si mesmo, muitas vezes – sua verdadeira identidade a fim de aparentar estar bem ajustado à sociedade: tímidos tentando ser falsamente sociáveis e, para isso, enfrentando o doloroso desafio de viver interpretando um personagem o dia todo; pobres fingindo ser ricos; tagarelas que falam demais pois não suportam seu próprio silêncio; morenas tentando ser loiras; pessoas passando fome propositalmente para fingir que são magras.


          Hoje sei que o problema não era o Colégio Medianeira; era a sociedade. Qualquer contexto, dentro dessa mesma sociedade, seria essencialmente igual. Em qualquer canto as pessoas continuavam previsíveis, infantilizadas, moldáveis, manipuláveis. É um traço comum à maioria.


          Minhas lembranças do Colégio Medianeira são tão ruins que, logo após mudar de escola, sonhei, alguns vezes, que algo ainda me prendia lá. Eram pesadelos nos quais eu havia tido que voltar a estudar lá ou que de lá não consegui sair. Acordava aliviada lembrando que havia, sim, me libertado.

          Em essência, eu não me libertei. No mundo lá fora era igual. O mundo era como o Colégio Medianeira. Aos 14 anos, quando decidi mudar de escola, eu era ingênua e pouco ainda conhecia do mundo lá fora. Eu esperançava que qualquer outro ambiente seria melhor e tinha certeza que eu poderia me ajustar. Eu era ingênua demais para cogitar que mudar de escola não resolveria, e inocente demais para encarar o fardo que teria que carregar: durante toda a vida, eu nunca sairia do Colégio Medianeira.