sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Caso Uniban: o machismo está na atitude de quem, exatamente?

Eu estava tentando evitar escrever sobre o acontecimento na Uniban, mas tenho lido coisas tão absurdas que decidi me manifestar. Uma pessoa, inclusive, pediu minha opinião pois queria “uma visão feminista” sobre o acontecimento.

Eu estava evitando falar sobre isso porque não queria dar ainda mais notoriedade ao caso, o que evidentemente reforçaria o comportamento de mulheres oportunistas que passam a vida procurando uma forma de se promover pelo corpinho e assim alcançar o sucesso, mesmo que brevemente.

A reação popular perante o caso consiste basicamente no seguinte: julgar os alunos e o Reitor da Universidade como machistas. Reconheço que o assédio violento dos alunos foi escrotíssimo e machista. Realmente tem muito homem que acha que mulher é pedaço de carne, e aqueles alunos mais pareciam macacos no cio, ávidos para conseguir a fêmea. Em barzinho isso chega a ser patético. Quando tem uma dupla ou grupinho de mulheres solteiras, sempre tem um bando de homens reunidos que nem piscam de tão hipnotizados, rodeando as moças igual urubu rodeia a carniça que encontra.

Ameaçar de estupro uma mulher por causa das roupas que ela usa é absurdo, uma primitividade sem tamanho (muitas pessoas até acreditam que o estupro se “justifica” por causa da roupa ou das atitudes da vítima). Mas, embora eu reconheça a culpa dos alunos e concorde que eles deveriam ter sido punidos severamente, acredito que não podemos fazer julgamentos unilaterais, e o que mais me incomoda nessa história toda é o povo achando que o machismo só existiu desse lado.

A Folha de São Paulo, quando retratou o caso da Uniban, usou o título “Taliban na Universidade”. Estimei a criatividade do trocadilho, mas discordei da analogia. Não concordo que julgar as vestimentas de alguém como “pouco adequadas” tenha alguma relação com o regime taliban, tampouco que seja um passo andado neste caminho. Muito disso é apenas uma questão de bom senso: é preciso vestir-se adequadamente quanto ao local que se está freqüentando. Não é adequado usar micro vestidos para assistir a aula. Na realidade, certos micro vestidos são vulgares em qualquer lugar, quem dirá num ambiente de estudos. Por isso não considero errado julgar a garota como inadequada: ela o foi, de fato. E seria o cúmulo uma universidade ter que oferecer aos alunos um “código de vestimentas”. No dia em que alguém precisar ler um papel escrito pelo Reitor para conseguir identificar o que é adequado ou não usar na aula, é porque a sociedade já perdeu de vez o senso crítico. Saber o que vestir ou não vestir em ambientes educacionais, empresarias, etc, é uma questão de bom senso, e ponto final.

E isso nos leva à outra questão que já destrinchei em outros textos: as pessoas, hoje, têm muito medo do “suposto moralismo”. “Moralismo” é encarado como um conceito monstruoso do qual as pessoas fogem desesperadamente. Qualquer coisa ou atitude que possa vir a ser encarada como “moralista”, é rechaçada imediatamente pelas pessoas. Para muitos, um julgamento quanto à inadequação da vestimenta de alguém é uma atitude moralista, quando na verdade é um simples ato de bom senso. Mas, como já falei sobre isso, a maioria das pessoas não consegue mais diferenciar o bom senso do moralismo. Como as pessoas têm medo de parecer moralistas, elas repelem qualquer atitude que possa se enquadrar nesse conceito equivocado. Por isso muitas pessoas aceitam muitos absurdos (ou condenam algum tipo de proibição) com medo de estarem sendo “moralistas”. Essa palavra causa até calafrios em algumas pessoas! O que quero dizer é o seguinte: não tem nada de mal em dizer que ela estava vestida inadequadamente. Fica tranqüilo, você não vai ser moralista porque pensa isso. E isso também não significa dizer que as roupas da garota justificaram o assédio. Não, não justificaram, e não é isso que estou defendendo.

O que vim aqui defender é o fato de que não apenas os alunos foram machistas. Aquela menina também reforça o machismo e todo o padrão de comportamento dela é nada menos do que um espectro do machismo. E por quê? Bem, na televisão a todo momento recebemos os valores de que "é a mulher-objeto que se dá bem", "é a mulher que se reduz a um corpinho sarado que se dá bem, que ganha fama e dinheiro fácil", "é a mulher que fica famosa por causa do corpo que é esperta". "Pra que estudar? É mais fácil sair pelada numa revista". Não surpreendentemente, Geyse Arruda já está analisando a hipótese de posar nua.

Na Veja saiu uma foto do protesto a favor da garota, em que pessoas nuas seguravam os seguintes dizeres: “Não ao machismo!” e “Mulher, o corpo é seu!”. Admito que foi ao ler essas palavras que senti o ímpeto de escrever sobre o caso e elucidar algumas questões.

“Não ao machismo!” por quê? Porque os alunos foram machistas ao assediarem a garota por causa das roupas que ela usava, acreditando que isso justificava a violência sexual? Por esse ângulo, concordo. Mas todo o comportamento dela também é conseqüência da cultura machista. A mulher se promover pelo corpo é um dos elementos mais característicos da cultura machista tal qual a conhecemos aqui no Brasil. A nossa cultura institui impiedosamente que mulher é peito e bunda. E só. Institui igualmente que a beleza é a maior -ou até única- fonte de inserção ou progressão social para uma mulher. A tal Geyse é apenas mais uma de tantas mulheres que aguardam a vida toda por uma oportunidade de se promover pelo corpo.

O outro dizer a favor de Geyse Arruda, “Mulher, o corpo é seu!” é igualmente ambíguo. Curiosamente, há poucos dias li uma declaração da Fernanda Young que me revoltou demais, e consistia basicamente nesse mesmo pressuposto. (Não conhecia direito o trabalho dela e por isso nunca fui uma fã, mas confesso que o visual irreverente que ela tem me fazia acreditar que ela era uma pessoa mais profunda do que as demais pessoas da televisão. Isso mudou há cerca de um ano, quando li uma entrevista com ela nas páginas amarelas da Veja. Que decepção. Em resumo: ela é uma dondoca vestida de mulher alternativa. Confesso que após ler essa entrevista criei uma antipatia incontornável por ela, e o que ela disse há alguns dias reforçou ainda mais esse sentimento.) Defendendo o direito de posar nua, ela afirmou: "Queria fazer algo contrário da proibição, da burca. O erótico faz parte da liberdade feminina. Triste é o país que não permite a nudez da mulher". Esse comentário foi tão infeliz que dá até um desânimo. Me surpreendo muitas vezes de ver como algumas pessoas são totalmente perdidas nas idéias.

Mulher, o corpo é seu. De fato. Mas a “libertação” do corpo feminino, apesar de significar o direito de a mulher usar o que quiser sem isso justificar um possível assédio, não significa expor o corpo como um produto ou usá-lo como caminho para o sucesso e para o dinheiro. Significa, justamente, o direito de resguardá-lo, de não precisar exibi-lo para ser aceita socialmente (ou até profissionalmente), de não reduzi-lo a um objeto no mercado de produtos.

Machismos iguais, porém sob pontos de vista antagônicos.


O que parece tão difícil pras pessoas perceberem é justamente o fato de que essa cultura que temos das mulheres "subirem na vida com o corpinho" é uma cultura tão machista quanto a cultura talibã que impõe que a mulher não deve nem mostrar o rosto. A cultura Ocidental faz justamente o inverso disso, mas o fundamento continua sendo o mesmo: ver o corpo feminino como mercadoria.




Geisy, antes do episódio fatídico, já demonstrando seu talento e interesse em
investir na carreira de "ex-reality show".

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

V Conferência Nacional de Mídia Cidadã

Vou contar aqui minha experiência na V Conferência Nacional de Mídia Cidadã, evento no qual apresentei meus 2 vídeos, um sobre a influência da mídia na auto-estima feminina, e outro sobre baixaria na TV (termo que utilizo para me referir à apelação sexual na televisão).

Olhando para o cronograma das apresentações (teriam apresentações de vídeos, artigos, palestras e lançamentos de livros), estranhei que não havia um sequer trabalho sobre a vulgarização e apelação sexual na televisão (e tudo o que isso acarreta, como a sexualização precoce; a subjetividade feminina desvalorizada; a imagem mercantilizada da mulher, usada como mero objeto sexual de uso e desuso, etc) e, evidentemente, não há como debater cidadania na televisão sem tocar neste ponto.

A sexta-feira do dia 9 foi destinada à exposição dos vídeos e, ao final da tarde, haveria um debate de 30 minutos para discuti-los. O vídeo “Mídia e auto-estima feminina” foi o segundo a ser apresentado, e o “Baixaria na TV”, o terceiro. O primeiro vídeo de todos foi um documentário realizado em uma escola, como cobertura da comemoração do Dia da Mulher. Era um documentário nos moldes jornalísticos, com câmeras, filmagens de pessoas, entrevistas. Ao me levantar para apresentar meus vídeos que seriam apresentados na sequência, logo informei que eram vídeos simples, caseiros, fora dos moldes jornalísticos. Passei essa informação, no entanto, sem preocupação alguma, afinal, não sou da área da comunicação e minha preocupação maior com aqueles trabalhos era incitar uma reflexão, e não apenas repassar uma informação (que é o objetivo principal do jornalismo). O “produto final” pensando em termos de qualidade técnica, pra mim, era o de menos.

Depois dos meus vídeos um vídeo se passou. E dois. E três. E cerca de 10 vídeos no total. Todos no mesmo formato jornalístico, meramente informativos, nos mesmos moldes de filmagem, edição, sonoridade. Ali comecei a perceber que estava no lugar errado.

Iniciado o debate, uma moça se prontificou a falar, e foi logo parabenizando meus vídeos, afirmando que estava muito feliz em saber que ainda há pessoas que refletem sobre a influência negativa que a mídia exerce sobre a sociedade e, principalmente, sobre as crianças. Fiquei muito contente, pelo menos o lugar não estava infestado de pessoas com críticas ingênuas e vazias, como as que só são capazes de dizer “mas nem tudo é influência da mídia”, ou “mas eu gosto de ver baixaria na TV”, ou, pior ainda, “o mundo é assim mesmo”. Logo em seguida, porém, um rapaz da platéia pega o microfone para alertar que muitos vídeos – especialmente os meus, segundo ele – tendiam para uma “demonização da mídia”, e que tínhamos que tomar cuidado com isso. Ele alegou que muitas pessoas têm a tendência de culpar a mídia por tudo (e acrescentou que isso era uma forma de cada um se eximir de suas responsabilidades), e que acabavam encarando fantasiadamente a mídia como algo com vida própria, como algo personificado.

Resumindo: na visão dele, a mídia é uma instituição imparcial na sociedade, que não exerce tanta influência assim nas pessoas. Não foi difícil responder a ele, e o alertei que eu não estava vendo a mídia como “uma entidade transcendental” que exerce um poder supremo e indefectível sobre as pessoas, mas que, ao contrário disso, o que deixei bem presente e claro nos meus vídeos, era justamente a idéia do quanto cada um, individualmente, tem de responsabilidade na manutenção desse tipo de mídia, ou seja, o que cada um fazia para promover os lixos que a mídia nos apresenta e, logicamente, o que cada um poderia fazer para não mais ser conivente com isso.

A crítica deste rapaz, que provavelmente era da área da comunicação social (possivelmente do jornalismo, tendo em vista sua desenvoltura para falar em público e por sua defesa ferrenha aos sistemas de mídia, afinal, como ele iria falar mal do “chefão” dele?) foi tão ingênua, que até um outro jornalista que estava na platéia ousou responder a ele. Este disse ao primeiro rapaz que não há equívoco algum em “personificar” a mídia, afinal, ela responde a uma estrutura de poder, poder este, aliás, que pertence a uma pessoa,ou a um grupo de pessoas. A mídia adota a forma que tem porque alguém a faz ser assim. Acrescentou ainda que ele não fazia esse tipo de mídia, mas que achava bem possível que muitos ali o fizessem.

Começou-se então a debater outros vídeos, e caiu-se numa discussão meramente técnica sobre os vídeos. Discussões como “por que filmaram o microfone?”, “por que cortavam a cena quando a entrevistada começava a chorar?”, “por que utilizar câmera 35mm”? Ou seja, a discussão se limitou à semiótica do jornalismo. É evidente, no entanto, que a discussão da semiótica do jornalismo é necessária, justamente por estarem presentes nos signos as reflexões que se deseja passar.

Acabado o evento, a mesma moça que elogiou meus vídeos no debate veio pessoalmente a mim, dizer que admirava muito minha coragem por ter abordado aquele tema naquele meio. Fiquei confusa, não entendi porque precisaria ter coragem para estar ali. Quando lembrei do cronograma do evento e que nenhuma trabalho abordava os temas que eu abordei, juntei o comentário desta moça à crítica do rapaz e ao debate puramente técnico dos vídeos e montei o quebra-cabeças. Então tudo se encaixou! Ali vi que, embora eu estivesse num evento sobre Mídia Cidadã, meu trabalho não era um trabalho de comunicação social. Era, isso sim, um trabalho sociológico, psicológico. E adentrar nesse tipo de reflexão era pedir demais naquele meio de profissionais que estão mais preocupados com a qualidade técnica do “produto final” do que com o impacto social deste produto final.

Tive a sensação de que meus vídeos causaram uma espécie de choque no público. Eu os choquei porque eles -que eram todos profissionais da comunicação social- estavam ali
tentando mostrar meios de se fazer mídia cidadã, e o que eu fiz foi justamente o oposto: mostrar o que se tem feito até agora na nua e crua realidade. Em outras palavras: o que eles, como profissionais da área, vinham fazendo até então e como o que tem sido feito é justamente anti-cidadania.

Confesso que fiquei um pouco decepcionada, porque percebi que até quem está tentando fazer mídia cidadã ainda não sabe exatamente o que é isso. Fiquei desanimada porque percebi mais claramente o porquê da mídia, hoje, ser assim: ela é assim porque quem está efetivamente fazendo mídia (os profissionais da comunicação social) ainda não se deu conta do impacto que ela exerce sobre a sociedade.

Tenho consciência, entretanto, da dificuldade que muitos jornalistas bons têm para passar alguma reflexão crítica na mídia. Todo mundo sabe o quão “editado” é o mundo do jornalismo. A informação chega até nós de forma muito tendenciosa. Qualquer um que conheça alguém do meio, ou que já tenha tido qualquer tipo de participação na mídia (seja em entrevistas, jornais, revistas, televisão) sabe que eles editam muito do que a pessoa falou pra fazer com que a matéria tenda para o lado que eles desejarem. É por isso que muitos jornalistas bons, muitas vezes, não conseguem transmitir a idéia que desejam. Mas também devo ser realista e encarar o fato de que muitos não o fazem porque não tem grandes reflexões para passar adiante mesmo.

Muitos já me disseram que eu deveria ter feito jornalismo. Admito que nunca pensei em ser jornalista, mas, se em algum momento eu considerei ligeiramente essa idéia, confesso que estou tranquilíssima por ter outra profissão. O motivo? Sem ser da área, estou fazendo muito mais mídia cidadã do que poderia estar fazendo se trabalhasse para os meios de comunicação formais.

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domingo, 18 de outubro de 2009

Homenagem ao Miguelzinho

Embora eu tenha defendido no último post que tenho um tema e que, por isso, não falo sobre qualquer assunto, vivenciei um acontecimento que me fez mudar de idéia. Vou acrescentar a este blog o tema “Proteção aos animais”, coisa, aliás, que já defendo há algum tempo.

Meu cachorrinho chamado Miguelzinho foi atropelado e ficou gravemente ferido. Teve que retirar o baço, suturar o fígado e amputar uma das patinhas. Havia tido uma lesão neurológica e provavelmente não iria voltar a urinar e defecar sozinho, apenas com sonda. Milagrosamente ele não havia morrido na hora. Embora eu estivesse ciente dos riscos que ele ainda corria devido à gravidade do caso, acreditei que ele ficaria bem pois era um cachorro forte e parecia estar se recuperando. Infelizmente, este sábado ele não resistiu aos ferimentos e morreu.

Minha mãe, minutos antes dele morrer, disse a ele que, se ele estivesse sofrendo muito e se quisesse partir, que ele podia ir em paz. Não deu 20 minutos e ele arrancou tudo o que tentava mantê-lo vivo: o dreno, o soro, os curativos. Ele ouviu as palavras de minha mãe e optou por morrer, pois estava sofrendo demais. Lembrei, então, que todos os dias em que eu ia vê-lo na clínica, durante o período de duas semanas que ele lá ficou, eu dizia a ele que estávamos morrendo de saudades e que o estávamos aguardando em casa. Aí me dei conta da força das palavras que eu dizia a ele; ele só tentava permanecer vivo para não nos decepcionar, tamanho era o amor que ele sentia por nós.

Meu Miguelzinho morreu e saber que ele nunca mais irá voltar me causa uma dor inconsolável. Tudo o que eu queria era tê-lo de volta pra mim. O que me resta é esperar que ele esteja em um lugar infinitamente melhor que este, sem dores, com todas as patas, e alegre como sempre foi.

Mas o motivo pelo qual estou escrevendo sobre isso é outro. Como tive contato com a rotina diária de uma clínica veterinária, descobri coisas horríveis. Muitas pessoas abandonam seus animaizinhos porque eles foram atropelados ou porque ficaram doentes. Muita gente acha que animal de estimação é brinquedo: o querem apenas quando ele “funciona”. Quando o brinquedo “estraga”, não querem mais e jogam fora. Muita gente, aliás, só quer ter cachorro de raça. E o problema começa aí.

Sempre questionei quem só quer ter cachorro de raça. Em primeiro lugar, um amigo animal não se compra, se adota. Em segundo, existem milhares de cachorros abandonados à espera de um lar e de carinho. Desprezá-los e só querer cachorro bonito e de raça é até pecado.

Muitas pessoas pedem para o veterinário realizar eutanásia em seus cachorros só porque eles tiveram um ferimento. É claro que os médicos veterinários que aceitam realizar tal conduta não têm ética alguma - nem sentimentos. Felizmente, existem alguns veterinários que se recusam a realizar eutanásia nestes casos desnecessários e, geralmente, acabam adotando estes cachorros. (Que fique claro para quem não sabe interpretar direito e fica louco pra achar algo no texto pra criticar: não estou me referindo à eutanásia nos casos em que os animais não têm mais salvação, mas, sim, nos casos em que o cachorro só precisaria de uma ou algumas cirurgias, mas o dono quer fazer eutanásia só para não se incomodar, porque assim será mais fácil e barato).

Na gaiolinha ao lado da do Miguelzinho, tinha um cachorrinho que havia sido atropelado por um caminhão e que, por isso, teria que realizar cirurgia nas pernas, na bacia e no quadril. Embora a cirurgia na bacia fosse complicada, ele iria ficar bem, e nem sequer iria precisar amputar as patas. A dona deste lindo e inocente cachorrinho pediu à veterinária para matá-lo. Ela se recusou a fazê-lo, afinal, estudou 5 anos para salvar animais, e não matá-los. Infelizmente, a dona do cachorro o tirou da clínica e desmarcou a cirurgia. Provavelmente foi procurar outro veterinário – algum monstro sem ética nem sentimentos – que concordasse em matar o cachorro. Quando lembro dos lindos olhinhos castanhos daquele cachorrinho olhando pra mim, me dá uma tristeza que se soma à tristeza de ter perdido meu Miguelzinho. Tristeza porque tudo o que aquele bichinho inocente queria era viver, amar e ser amado. E a pessoa que deveria amá-lo – sua dona – queria assassiná-lo porque assim seria mais fácil. Se eu soubesse onde essa mulher mora, iria até lá dizer coisas a ela que a fizessem ver o quão ruim ela é. Gostaria que um dia ela quebrasse as pernas e que sua família sugerisse ao médico para matá-la de uma vez, afinal, “assim seria mais fácil e barato”.

A lembrança do lindo olhar daquele cachorrinho, suplicando apenas por ajuda e carinho – que agora provavelmente está morto, assassinado por sua própria dona – me assombra e fortalece minha tristeza decorrente da perda do meu Mig.

Estou tranqüila porque sei que fui capaz de amar verdadeiramente o meu animalzinho, coisa que muita gente jamais será capaz de fazer. Muitos amam só quando o cachorro é de raça ou enquanto estão saudáveis, o que, justamente por isso, não pode ser considerado amor.

Estou sofrendo muito pelo Miguelzinho porque ele morreu e nunca mais irá voltar pra casa. Mas agora sofro, também, por todos os demais cachorros que estão vivos em suas casas acreditando que são amados por seus donos, mas cujo amor não passa de uma ilusão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

À menina de 14 anos

Eu publico todos os comentários que me deixam e, tentando ser o mais democrática possível, publico também as críticas que me fazem. Nestes casos, porém, eu publico a crítica em um novo post para poder responder. Essa atitude pode parecer um pouco arrogante, mas é que eu adoro debater e sinto uma vontade irresistível de responder, especialmente quando os argumentos são fracos e quando a pessoa se ocupa mais de criticar a minha pessoa do que minhas idéias.
Reservo esse post, portanto, para responder uma crítica que recebi sobre o texto “Pelo direito de me sentir bem com um sutiã P”. Eis a critica:

“Bom, tenho 14 anos e encontro facilmente nas lojas sutiã P, SEM ENCHIMENTO. Entendo q se vc acredita q usando um sutiã todos os dias com enchimento tera a sensação de q não vivera sem ele, é pq n esta segura de ser uma mulher com pouco peito.A impressão q tenho é q vc é revoltadinha pq n tem peito.Ja imaginou q existem mulheres q tem peitos grandes naturais e tb tem problema c sutiã?Alguma vez já se colocou no lugar de uma pessoa, deficiente fisico, q encontra dificuldades em se locomover pelas ruas de curitiba?Penso q não, pq percebo q seu questionamento a respeito da vida baseia-se apenas em situações q envolvam a estética.”
Bem, para não perder o costume, vamos analisar a crítica por partes.

“Entendo q se vc acredita q usando um sutiã todos os dias com enchimento tera a sensação de q não vivera sem ele, é pq n esta segura de ser uma mulher com pouco peito”.

Eu nunca disse que eu não uso sutiã com enchimento porque me dará a sensação de que não viverei sem ele. Eu disse que esse é um efeito inconsciente sobre a maioria das mulheres que não refletem sobre isso, mas o fato de eu particularmente não usar sutiã com enchimento é por outro motivo. Eu não uso sutiã com enchimento porque eu não aceito a imposição simbólica fundamentada nessa moda, segundo a qual “pra ficar bonita você tem que fingir que seu peito é maior do que realmente é”.

“A impressão q tenho é q vc é revoltadinha pq n tem peito.”

Acho que essa é a pior das falácias. Isto é, atacar o interlocutor apelando para suas características físicas, tentando encontrar, em tais características, a justificativa para ele pensar de tal maneira. Tentando, por esse viés, destituir de sentido o que foi dito. Além de ser uma falácia, é um julgamento arbitrário, pois analisam-se variáveis que deveriam ser imparciais em determinado contexto. Ou seja, esse argumento é arbitrário - e, por isso, inconsistente - porque supõe que, se eu sou contra sutiãs de enchimento ou silicone, “é porque não tenho peito”. Aí dizem: “ah, ela pensa assim porque não tem peito”. Agora, se uma mulher tem bastante peito e é contra o silicone, vão julgar: “que credibilidade você tem pra ser contra o silicone?Você tem peito, então não tem moral pra falar sobre isso”. Percebem? Tendo ou não tendo peito, esse argumento falacioso sempre suporá que quem é contra silicone ou sutiã com enchimento não tem respaldo para se posicionar de tal forma. Mais um exemplo: se sou contra o padrão de beleza imposto e não correspondo a esse padrão, vão dizer: “ela é contra porque é feia”. Agora, se sou contra esse padrão de beleza e me adequo perfeitamente a ele, vão dizer: “mas quem é ela para ser contra o padrão de beleza?Pra ela é fácil falar, ela é bonita, por isso não há crédito no que ela diz”. Em outras palavras, é o famoso “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

"Ja imaginou q existem mulheres q tem peitos grandes naturais e tb tem problema c sutiã?"

Com certeza, existem muitas mulheres que têm seios grandes e também têm problemas em achar sutiã. Mas aqui eu falo sobre as situações que eu experiencio, e o fato de eu não comentar sobre as situações difíceis pelas quais outras pessoas passem não quer dizer, em hipótese alguma, que eu não compadeça com a situação delas, tampouco significa que eu considere a minha situação pior. Eu estou aqui para falar das coisas que eu vivo, pelas quais eu passo. Eu adoraria conseguir escrever sobre todas as situações conflitantes pelas quais um ser humano pode passar, mas, infelizmente, minhas habilidades linguísticas restringem-se a conseguir escrever tão somente sobre as situações pelas quais eu passo. Resumindo: o fato de eu não abordar outras situações não significa, repetindo, que eu não compadeça com elas ou que eu não as reconheça como situações angustiantes. Significa, tão somente, que eu não escrevo sobre o que não passo.

“percebo q seu questionamento a respeito da vida baseia-se apenas em situações q envolvam a estética.”

Engraçado, todos os autores famosos, especialistas, palestrantes, pesquisadores, etc, limitam-se a versar sobre um único tema. Isto é, seu nome passa a estar explicitamente associado a um tema. Existem pessoas que só escrevem livros sobre Direito Trabalhista, ou sobre Gestão de Riscos, sobre Sexualidade na Adolescência ou sobre Educação Infantil, etc. Tais especialistas, em seus livros e entrevistas, só falam sobre o determinado assunto que está associado a seus nomes. O especialista em Saúde Geriátrica, por exemplo, decidiu adotar este tema para ser seu objeto de estudo, e foca-se nele. Assim, todos os seus livros, artigos e entrevistas referem-se a tal tema. Agora, por que eu não tenho o direito de ter escolhido um tema e nele me focar? Por que que, se eu falo principalmente sobre feminismo e estética, “é porque tenho uma neura” (como uma colega funkeira diz)? Todo especialista escolhe seu tema. A especialização, aliás, pressupõe que a pessoa versa sobre um tema apenas. Então por que eu não tenho o direito de ter escolhido uma causa específica a abraçar?


Meu tema é o feminismo e tudo o que está associado a ele. Por mais que eu escreva um texto sobre música, sempre vou puxar um gancho para falar de questões de gênero. A questão da estética é apenas um desdobramento do feminismo atual. Não vejo como falar em feminismo na atualidade sem mencionar a questão da ditadura da beleza. E como a questão da estética é um assunto que está muito em voga (a cada semana ouço uma pessoa diferente dizendo que vai fazer uma cirurgia plástica – e infelizmente, não estou exagerando, não), tenho escrito frequentemente sobre ele. Também faço questionamentos sobre consumismo, valores, música, etc. Mas, como eu disse, o assunto que escolhi para escrever é gênero, e vou sempre escrever sobre temas associados.

Não entendo porque falar de feminismo incomoda tanto as pessoas. Se uma pessoa passa a vida inteira escrevendo sobre as espécies de formigas da Amazônia, ninguém fala nada. Agora, se eu só quero falar de feminismo e seus desdobramentos (como estética, por exemplo), é porque “eu tenho uma neura” ou porque “sou obcecada porque não tenho peito” ou porque “sou invocadinha porque sou feia”.

“Alguma vez já se colocou no lugar de uma pessoa, deficiente fisico, q encontra dificuldades em se locomover pelas ruas de curitiba?”

Novamente, o fato de eu não comentar sobre determinados assuntos não significa que eu não esteja nem aí para eles. Significa, isso sim, que eu tenho um tema específico. Adoraria conseguir escrever sobre a vida difícil dos deficientes físicos, sobre o impacto da crise imobiliária norte-americana sobre as microempresas brasileiras, ou sobre reprodução de coelhos Himalaia. Mas felizmente ou infelizmente, eu escolhi um tema e é sobre ele que escrevo.


Outra coisa: a causa que eu defendo é inferiorizada caso eu não defenda milhares de outras causas ao mesmo tempo? A minha credibilidade se dissipa caso eu não defenda todas as causas do mundo? Em outras palavras, se eu levanto a bandeira do feminismo e não levanto a bandeira contra o preconceito contra deficientes, isso compromete a credibilidade do movimento que eu defendo mais vivazmente?

“Bom, tenho 14 anos e encontro facilmente nas lojas sutiã P, SEM ENCHIMENTO”

Existem sim sutiãs P sem enchimento, mas são daquela malha horrível que mais parece uma meia-calça, ou seja, não cobrem nada, e com algumas blusas é impossível usar porque marcam demais o seio. É quase que para funcionar como uma justificativa, pras mulheres realmente acreditarem que “ realmente, pra não marcar tem que ser de bojo mesmo, não tem jeito”.
E vale ressaltar aqui que por “enchimento” eu também quero dizer “bojo”. Ou seja, um sutiã de bojo sem enchimento já é um sutiã de enchimento, porque o bojo já funciona como tal. Então, se ainda assim você insiste que encontra sutiãs P sem enchimento, sem bojo, mas sem ser de “modelo de vó” ou de malhas que mais parecem uma meia calça, por favor, me avise onde são essas lojas, pois estou precisando comprar.

Me avisem logo onde tem sutiã que não seja nem de enchimento, nem "de vó" (ou "estilo amamentação").

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Exército de mulheres fúteis


Estou constatando uma situação muito desesperadora: as mulheres estão cada vez mais fúteis. Elas estão cada vez mais obcecadas por estética, consumistas, valorizando coisas (e pessoas) superficiais e vazias, e seguindo modismos sem crítica nenhuma. Fico espantada de ver como a maioria delas está absolutamente igual: pintando o cabelo de loiro (quase sempre “estilo canetinha”, uma espécie de luzes sobre a qual discursei no meu texto chamado “A culpa é da Anastácia”), estão sempre de dieta, usando as mesmas roupas e com peito de plástico, é, quer dizer, silicone (ou sonhando em pôr).



A beleza é a maior virtude e a maior fonte de aceitação social para elas. Para alcançá-la, elas fazem qualquer coisa: passam fome para não engordar, gastam horas no centro de estética fazendo drenagem linfática ou algo do tipo, gastam rios de dinheiro no salão de beleza todo mês, saem de casa parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo de tanta maquiagem, chegam em casa com o pé moído de ter andado de salto alto o dia todo (mas não cogitam em hipótese alguma deixar de usar alto, afinal, o que importa é estar bonita, por mais que você esteja morrendo de dor), chegam na faculdade às 19h e ainda vão retocar a maquiagem, passam horas na academia malhando pra ficar com o corpinho padronizado que a mídia impõe que as mulheres devem ter.

Muitas querem ter sua independência financeira, querem trabalhar, mas juntam o primeiro dinheiro que começam a ganhar profissionalmente pra pagar a cirurgia plástica com a qual sonham desde os 14 anos. Muitas querem se estabelecer profissionalmente, mas acham que o homem deve ter, no mínimo, a mesma condição financeira que elas. (“Deus o livre” estar com um cara que ganha menos do que elas.)



Muitas acreditam ser modernas e politicamente corretas, acreditando que o casal deve dividir a conta dos lugares que freqüentam, mas acham um absurdo ter que dividir o motel ou ter que dividir a conta no primeiro encontro. Outras tantas acham um absurdo ter que dividir a conta em qualquer circunstância: acham que o namorado tem que pagar tudo, ou pelo menos sonham com como seria delicioso ter um relacionamento assim (“Já que eu gastei tanto tempo e dinheiro no salão de beleza, o cara não faz mais do que obrigação por pagar o restaurante”, elas devem pensar). Muitas têm seu próprio carro (porque ganharam dos pais ou porque conquistaram com seu próprio dinheiro), mas acham um absurdo ter que deixar o cara em casa; acreditam piamente que o homem tem o dever de ser o motorista particular delas. Revezar as caronas - ou seja, às vezes o cara as pega e as deixa em casa para eles saírem, e, outras vezes, ela pega e deixa o cara em casa com o carro dela – é, para elas, coisa de homem folgado.



O namorado é sempre o motorista oficial, até quando eles estão usando o carro dela. Ela só dirige quando está com as amigas, e nesses momentos se divide entre prestar atenção no trânsito, passar rímel e cantar junto com a Ivete Sangalo seu mais novo sucesso das rádios.
Elas só freqüentam bares em que toca o estilo de música que está na moda no momento. Ouvem sertanejo, música eletrônica, Rihanna, etc. Enfim, qualquer coisa que esteja na moda. Em outras épocas, quando tais cantores e tais estilos musicais não tocavam nas rádios, elas ouviam o que estava na moda na época. Adoram sertanejo, mas é claro que na época em que isso era música de diarista elas nem passavam perto desse estilo. O que importa é ouvir o que toca na MTV e nas rádios; qualquer coisa diferente disso, nem chega ao restrito conhecimento musical delas.


Só se interessam por homens que fazem o estilo “galã de novela das 8”. Mas não basta ser o Ken (afinal, elas são a Barbie), tem que ter carro. E o carro deles deve ser, no mínimo, do mesmo padrão que o delas. Se eles tiverem um Audi A3, um Honda Civic (branco!) ou um Vectra Hatch, pronto, elas gamam. Se ela tem um Renault Sandero e você um Gol 1998, pode esquecer.


As mulheres fúteis não têm posicionamento crítico sobre nada. Discordar de algo é quase improvável. Na roda de amigas, todas com roupa de academia e tênis Nike Shox, elas só concordam com tudo e respondem a seguinte frase pra qualquer que tenha sido o comentário: “ai amigaaa, se vai te fazer feliz, faça mesmooo!”.


Minha estratégia para propiciar alguma mudança nesse quadro é fazer um apelo aos homens. É claro, entretanto, que existem homens igualmente fúteis e que gostam de mulheres assim. Para esses, meu apelo seria em vão. Dirijo-me, portanto, aos outros homens – e sei que há muitos deles - que não simpatizam com a futilidade de certas mulheres e sofrem, de alguma forma, com isso. A esses, sugiro: rejeitem o comportamento fútil de suas namoradas, irmãs, amigas! Exijam autenticidade por parte delas, vocês têm liberdade de dizer que acham ridícula aquela bota com salto de travesti (o salto parece um casco) que elas usam só porque está todo mundo usando. Vocês não precisam ficar horas ouvindo reclamações de quantos quilinhos a mais elas ganharam e de quais exercícios elas tiveram que fazer na academia para queimá-los. Vocês não precisam entrar no mar sozinhos só porque sua namorada não quer perder um minuto de exposição ao sol; mostre a ela o quanto é bom nadar e que não voltar bronzeada da praia não é pecado. Vocês não precisam ser os únicos a ter que gastar o carro e a gasolina; ela também pode te buscar e te deixar em casa. Vocês não devem pagar por tudo; se a guria não gostou que você sugeriu a divisão da conta, parta pra outra, ela está mais interessada em sua conta bancária do que em você. Não tire seu CD do Deep Purple pra ela ouvir Cláudia Leite. Não se privem de ir à pizzaria quando tem vontade e arrastem sua namorada junto, mostre a ela que é absurdo deixar de comer uma pizza deliciosa pra comer salada.

É possível alguém achar esse troço bonito?


Homens, façam sua parte!Ajudem essas mulheres a largar o mundo da futilidade! Antes que eu me convença que vocês gostam de ser tratados como otários.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

À minha colega anônima que me criticou

Recebi uma crítica em relação ao texto que escrevi sobre algumas fraudes que se intitulam psicólogos. A pessoa, anônima, que me mandou o comentário provavelmente pensou que eu jamais publicaria a crítica, e que ficaria me remoendo de curiosidade tentando descobrir quem foi que escreveu. Bem, estou aqui fazendo o oposto disso: não apenas vou publicar, como vou escrever um texto como resposta ao ataque colando-o na íntegra para todo mundo ler.

O comentário foi o seguinte:

"bruna,esse seu post mostra o quanto você é ignorante acima de tudo, pois acreditar que engenheiros ou farmacêuticos não tenham pensamento crítico é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo. todo extremo é ruim, e você, como psicóloga, deveria saber que isso representa algum problema SÉRIO dentro de vc mesma. em vários posts vc volta a citar a história do funk no baile, mais uma vez por um problema psíquico SEU, pq isso representa o quanto a sua neura te impede de se divertir. quem se diverte é taxado então por você como moralista conservador. vai se tratar guria, dá medo de vc atendendo pacientes, sério mesmo".

Em primeiro lugar, quero dizer que aceito críticas e opiniões, mas a pessoa deve dizer quem é. Isso é uma questão de maturidade e de ética. Eu expresso aqui minhas opiniões, faço críticas a inúmeras coisas, mas assino meu nome embaixo e ainda coloco minha foto. E esse princípio não é uma mera opinião pessoal, pelo contrário, ele consta até na Constituição Federal de 1988, e te dou as coordenadas para conferir:

Título II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais

Capítulo I, Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos:

Art. 5º, inciso IV: “é livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato”.

Ou seja, você pode falar o que quiser, contanto que se identifique. E não adianta colocar um nome fictício, quero nomes e sobrenomes verdadeiros que eu reconheça.


Bem, vamos analisar a crítica passo a passo.

Você disse: "esse seu post mostra o quanto você é ignorante acima de tudo, pois acreditar que engenheiros ou farmacêuticos não tenham pensamento crítico é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo.”
Você, que fez Psicologia, já deveria saber que os valores e as aptidões das pessoas determinam a escolha da profissão. A pessoa que acha que o dinheiro é o primordial, e que pensa que o importante é “ganhar bem” e não “fazer o que gosta”, não vai fazer um curso como Geografia, por exemplo. Uma pessoa que adora debater sobre assuntos da sociedade, e se aprofunda no assunto, não vai querer ter um trabalho em que ela fica o dia inteiro montando circuitos eletrônicos. Uma pessoa que tenha talento pra música, mas que se importe muito com o status social,vai procurar um curso que lhe confira esse status (como Medicina ou Direito, por exemplo), por mais que não tenha a ver com seu talento. O engenheiro (e uso essa profissão apenas como símbolo de profissões em que não se usa o pensamento analítico e reflexivo para o exercício de tal ofício) geralmente não tem o senso crítico que pessoas da área de Humanas têm (e é justamente por isso, também, que ele vai procurar um curso em que ele não precise ter esse senso crítico) assim como a pessoa que não entende nada de matemática vai procurar um curso em que ela não use esse tipo de conhecimento. Em contrapartida, quem faz um curso de humanas, geralmente, não tem habilidades para a área do raciocínio lógico e abstrato, e muitas mal conseguem resolver um sistema de equações. Não é ofensa. É uma questão de aptidão, de habilidade. E isso é senso comum, não precisa nem ter estudado Orientação Profissional pra perceber isso. E doa a quem doer, isso é um fato. Essa é minha visão sim pois, se pessoas que durante 5 anos estudaram diversos filósofos e diversas teorias do comportamento continuam bitoladas e com comportamentos padronizados, imagine então quem ficou esse mesmo período de tempo tentando achar o valor de x.

“(...)é tão ridículo quanto sua neura pelo feminismo.”
Essa sua visão não me espanta, afinal, para pessoas cujo lema é “viver o momento sem se preocupar com nada, o que importa é se divertir”, ter qualquer engajamento e/ou defender seus ideais com veemência, significa “ter neuras”. Pra pessoas como vocês, o ideal é “fechar os olhos pras coisas que precisam ser mudadas e fingir que o mundo está lindo do jeito que está”.


“quem se diverte é taxado então por você como moralista conservador”.
Eu não sei se você se expressou mal, ou se é incapacidade de interpretar um texto mesmo. Reli a frase várias vezes para tentar entender qual das duas alternativas era. Bem, já que você, pelo visto, leu todos os meus posts, você viu que eu toquei nesse assunto no texto “É proibido proibir” que, aliás, foi o texto que eu mandei a vocês nos emails da turma após a formatura. Eu disse (e bem claramente) que as pessoas hoje em dia não sabem mais diferenciar o que é ser um moralista conservador e o que é ter senso crítico. E que, para essas pessoas, tudo se justifica pela diversão e pelo dinheiro, e que quem critica qualquer coisa (ou seja, quem tem um posicionamento crítico) é taxado de moralista conservador. Em momento algum eu disse que quem se diverte é um moralista conservador; é justamente o contrário disso. Não foi uma idéia complexa de se entender, e até um aluno da 7ª série entenderia.


“em vários posts vc volta a citar a história do funk no baile”
Você tentou disfarçar, mas aqui não conseguiu esconder que é uma colega de turma minha. E, como eu disse, você provavelmente leu todos os meus textos (Curiosidade mata...).E, pra sua informação, eu só mencionei a história do funk no baile nesse texto do “É Proibido Proibir”. No texto “O preço da diferença” eu mencionei algo sobre não gostar de dançar, mas não estava me referindo ao funk do baile. Eu estava me referindo a qualquer tipo de dança e, segundo a idéia no texto, todo mundo que é diferente (leia-se “que tem personalidade” e não faz o que está todo mundo fazendo) paga um preço por isso. Um dos exemplos, ademais, foi o de não gostar de dançar ( e que as pessoas que não gostam de dançar têm sempre que ficar se protegendo dos outros que ficam tentando arrastá-las pra pista de dança), afinal, na visão de pessoas com comportamento padronizado, quem não gosta de dançar é um alienígena.


“pq isso representa o quanto a sua neura te impede de se divertir”
Eu me divirto, e muito. Acontece que o meu conceito de diversão é completamente diferente do seu. O seu conceito de diversão é fazer o que está todo mundo fazendo, afinal, quem diz “não” a qualquer coisa e assim se mantém autêntico e coerente, é um chato. O seu conceito de diversão é fazer até o que não faria normalmente, afinal, "é festa" e "em ambientes festivos não se precisa manter os valores se as pressões do grupo assim o exigirem". O seu conceito de diversão é dançar simulando sexo anal na frente de toda a família e, para pessoas como você, quem não faz isso é porque tem um problema psíquico que a impede de se divertir. Que valores mais assustadores. E, felizmente, eu aprendi em casa que não preciso arregaçar o rabo na frente dos meus avós para estar me divertindo.


“vai se tratar guria, dá medo de vc atendendo pacientes, sério mesmo.”

No meu texto sobre as fraudes de psicólogos, a minha teoria era a de que algumas pessoas não tinham condição ética e crítica para atender pessoas. E você quis devolver a mesma idéia pra mim. Só fico com pena, pois não conseguiu nem inventar um argumento novo; teve que imitar o meu.

E por fim: esse blog é meu e eu escrevo o que eu quiser. Quem não gosta que vá ler revista Caras.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Resgatando a importância do feminismo



É imprescindível tentar resgatar a importância do feminismo, haja vista que, para muitos, ele é um movimento desatualizado e atualmente desnecessário. Consultando o dicionário, temos que feminismo significa “movimento que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher, ou a equiparação dos seus direitos aos do homem”. Ora, para a maioria, tal condição parece ter sido suficientemente conquistada, não havendo mais a necessidade de se lutar por essa igualdade, uma vez que, supostamente, ela já teria sido alcançada.

De fato, juridicamente falando, a situação da mulher parece adequada. Na realidade, foi a Constituição Federal de 1988 que consolidou a igualdade legislativa entre os sexos. Nas Constituições anteriores, formas de discriminação contra a mulher eram instituídas legalmente. Por meio de restrições às mulheres nas relações sociais, políticas, maritais e trabalhistas, diversas leis brasileiras visavam manter a estrutura patriarcal e a conseqüente negação da mulher como um ser plenamente ativo socialmente.

Dentre as restrições impostas às mulheres até a promulgação da Constituição de 1988, destacam-se: a proibição de realizar horas extras, trabalho noturno, insalubre, com periculosidade, em postos de gasolina e em subterrâneo de minas; ao homem era destinado o exercício do pátrio poder, permitindo tal exercício a mulher apenas na falta ou impedimento do marido; se houvesse discordância entre os cônjuges prevalecia a vontade paterna; a mulher assumia, pelo casamento, a condição de auxiliar nos encargos da família; à mulher eram vedados certos atos sem a autorização do marido, como, por exemplo, exercer profissão; alienar os imóveis do seu domínio particular, aceitar ou repudiar herança ou legado; era reservado ao marido a chefia da sociedade conjugal, a representação legal da família e o direito de fixar o domicílio desta. Foi somente na Constituição de 1988 (pasmem!) que foi excluída a lei que autorizava o marido a anular o casamento se descobrisse que sua esposa não era mais virgem (!), bem como a lei que concedia ao homem a imunidade criminal diante dos “crimes passionais em defesa da honra”, ou seja, o marido traído gozava de um julgamento atenuado se houvesse matado sua esposa em caso de infidelidade desta. Vale ressaltar, ainda, que o direito feminino de votar entrou em vigor apenas na Constituição de 1934.

Tais preceitos, hoje, soam extremamente absurdos, mas deixaram de assumir a forma de lei há apenas duas décadas. Para nossa Constituição atual – felizmente – homens e mulheres, perante a lei, têm os mesmos direitos e deveres nos diversos âmbitos da sociedade. Diante disso, pensar que a igualdade entre os sexos já foi plenamente alcançada é muito cômodo e consiste num equívoco sedutor em que muitos incorrem. Com isso em vista, não é raro ouvir que o feminismo é desatualizado e que não é mais necessário.

Na atualidade pragmática, todavia, o machismo impera. Porém, adquiriu predominantemente uma forma simbólica de se instituir. No mundo corporativo, por exemplo, os homens ainda têm preferência diante das funções de poder, uma vez que ainda prevalece a divisão sexual dos papéis, segundo a qual às mulheres é destinado o papel principal de criação e dedicação aos filhos. Embora a permissão da isenção do papel paterno tenda vagarosamente a desfazer-se, os homens ainda são os escolhidos para atuarem em funções que os exigirá maior tempo longe de casa. As mulheres, portanto, continuam relegadas a funções que exijam menos tempo fora do âmbito doméstico.

Ainda no mundo corporativo, são freqüentes bajulações sobre os clientes em que a eles são oferecidos até mesmo mulheres e sexo, o que demonstra como está institucionalizada a idéia de que a mulher é um objeto consumível. Assédios sexuais dentro das empresas, ademais, não são pouco freqüentes. Salários menores ainda são oferecidos às mulheres, pois julga-se que elas podem ganhar menos, principalmente as casadas, uma vez que ainda é plenamente aceitável a subordinação da mulher a seu cônjuge.

As mulheres das gerações mais recentes crescem diante do pressuposto de que uma mulher deve trabalhar e ter sua independência financeira, mas continuam arraigadas a valores patriarcais de acordo com os quais a participação financeira feminina restringe-se a superficialidades, cabendo ao homem, principalmente, bancar as despesas fundamentais do ambiente familiar. Isso as configura apenas como contribuintes, e não como efetivas partícipes do orçamento familiar.

Na televisão, o corpo feminino é mercantilizado nas situações mais gratuitas. A mulher é promovida como objeto sexual de uso e desuso, como um sujeito que se define plenamente apenas por sua sexualidade. A imagem feminina retratada na mídia é preconceituosa, menosprezante e machista. É preconceituosa porque promove e privilegia apenas uma etnia e um biotipo. É menosprezante pois reduz a mulher unicamente a seu corpo e sexualidade, relegando à segundo plano (ou nem mesmo considerando) suas qualidades intelectuais. É machista porque institui que, para uma mulher, a beleza é a maior e/ou única fonte de inserção social.

A mídia a todo momento incentiva as mulheres a sentirem-se inadequadas consigo mesmas ao impor um padrão de beleza único e inquestionado. Ela faz com que as mulheres acreditem na necessidade de negar sua individualidade, seu físico, e até sua etnia para atender às exigências estéticas que são impostas quase inconscientemente. Ela, dessa forma, não apenas age como uma afronta à auto-estima feminina, como, além disso, reforça o cenário cultural que mantém a estagnação social da mulher.

Existem ainda fortes regras machistas e patriarcais na atualidade. Entretanto, a peculiaridade de tais regras é que, ao contrário das regras legislativas que tínhamos pautadas nas Constituições anteriores à de 1988, hoje elas são invisíveis, não há um estatuto em que elas estejam escritas. Elas estão, fundamentalmente, instituídas nos nossos valores e comportamentos do dia-a-dia.

Há a necessidade de alertar a sociedade que machismo não é apenas proibir a mulher de exercer atividade profissional, subjugá-la sob um domínio doméstico violento ou restringir sua atuação político-social. O machismo está presente nos comerciais de cerveja; na mercantilização do corpo feminino para atrair ibope para os programas televisivos; na ditadura da beleza (que acomete quase que exclusivamente as mulheres); na primazia da estética, a qual se sobrepõe às qualidades intelectuais das mulheres; na percepção de que mulheres são brindes a serem oferecidos a quem merecer; na idéia de que as mulheres são apenas contribuintes do orçamento doméstico, e que elas podem eximir-se das responsabilidades a que aos homens são rigorosamente exigidas.

Analisando por este reluzente viés, torna-se evidente que a igualdade de gênero ainda não se solidificou, o que faz do feminismo, por conseguinte, um movimento tão atual e necessário como nunca.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fraudes que se intitulam psicólogos

É desanimador ver que a sociedade tem cada vez mais preguiça de pensar. Alguns estão tão arraigados aos paradigmas impostos que não conseguem pensar pela incapacidade de criticismo que tais amarras lhes conferem. Com algumas dessas pessoas tenho a infelicidade de compartilhar minha profissão, cujos profissionais deveriam ter o papel de reflexão e questionamento. No entanto, muitos deles são apenas pessoas cujos comportamentos e valores são definidos de acordo com o que é vigente no momento, o que inviabiliza qualquer tipo de senso crítico. Quando se deparam com uma reflexão nova sugerida por outra pessoa, conseguem apenas dizer “há há há” ou dar respostas irônicas.
Não seria tão espantador se deparar com um engenheiro que pensa assim, afinal, ele só precisa entender de números e capacitores. Igualmente compreensível seria conhecer um farmacêutico que age de tal forma, já que a habilidade que precisa ter para desenvolver seu ofício restringe-se aos assuntos da biologia e da química. Psicólogos, por sua vez, devem ser pensadores, filósofos, sociólogos, críticos no que se refere aos assuntos pertinentes aos indivíduos e à sociedade.

Como um psicólogo que não tenha um posicionamento crítico sobre nada pode tratar do sofrimento psicológico dos outros? Como alcançar este fim, se o único ou maior sofrimento psíquico que muitas destas profissionais têm é não ter o peito do tamanho do da atriz da capa da revista? Como vão manejar a angústia de seus pacientes, se a única angústia que conhecem é não ter um otário ao lado para pagar por todas as suas futilidades? Como dar credibilidade a elas, se o maior objetivo profissional delas é juntar dinheiro para pagar uma cirurgia plástica? Como vão ter uma postura ética, se, mesmo que não gostem de algo, o fazem porque “é festa, então pode”? Se acreditam que “se é festa vale tudo, o que importa é rir e se divertir”? Como vão, novamente, se posicionar eticamente, se acreditam que qualquer tentativa de resgate de valores “é querer dar aula de moral” e que defender seus valores em todas as circunstâncias (e, portanto, não fazer algo que não gosta só porque tá todo mundo fazendo) é ser um moralista conservador?

Como vão fomentar qualquer tipo de debate, se acreditam que “cada um faz o que quiser da sua vida e ninguém pode criticar nada”? Como vão valorizar a subjetividade, se acreditam que “tudo bem fazer o que não gosta se for pra ser aceito no grupo”?

Isso tudo me leva a ter certeza de algo que já suspeitava: o senso crítico é um dom, e não se aprende em curso nenhum.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Geração anos 90

Em muitas coisas a sociedade está evoluindo, isso é um fato. Alguns aspectos ficam melhores geração após geração; outros, ficam piores. Na realidade, cada geração tem suas peculiaridades, e cabe a cada um pesar os aspectos bons e ruins de cada uma.

Percebo, no entanto, muitas faces desanimadoras da geração que chamo de anos 90. Refiro-me aos adolescentes que estão hoje com 19, 15 anos, cuja faixa etária corresponde a um período de internalização de valores e de intenso consumo. Geração anos 90 é, portanto, o grupo dos que são hoje adolescentes e que tão logo serão adultos.

Muitos parecem ser os lemas dessa geração, mas um muito característico parece ser o de que “não dá nada”. Quantas vezes vocês já não ouviram essa frase de um adolescente? Se a mãe diz: “vá estudar, você tem prova amanhã!”, eles respondem: “ah, não dá nada!”. Se a educação sexual lhes garante que deve-se usar preservativo nas relações sexuais, eles pensam: “ah, não dá nada!”. Se o ideal é não jogar lixo no chão, eles jogam com o pensamento de que “não vai dar nada”. Se o som está alto e o vizinho pode estar incomodado, eles dizem com desdém “não dá nada”.

E isso remete a um outro lema: “o que importa é se divertir”. Na realidade, acho que este é o fundamento do lema “não dá nada”. São tempos de se viver o momento intensamente sem pensar nas conseqüências. O que importa é o eu. O que importa é o que isso traz de bom para si. Se para se divertir eles tiverem que incomodar o vizinho, eles incomodarão. Se para curtirem uma festa com os amigos eles tiverem que deixar certos valores na porta, eles o farão.

A geração anos 90 é, também, a geração das incoerências. Nunca uma geração levantou tanto a bandeira da não-violência, mas fumam um “baseadinho” nos finais de semana, como se isso não provocasse as mortes e a violência que o tráfico faz emergir. Atacam a cultura de “junk food”, boicotando redes como Mc Donald´s, mas tomam anabolizantes e complementos nutricionais totalmente industrializados para potencializar o resultado da academia. Se afirmam como “geração saúde”, mas tomam ecstasy na balada. As mulheres nunca almejaram tanto o trabalho e a independência financeira, mas o primeiro dinheiro que começam a ganhar, juntam para pagar uma cirurgia plástica. Ou gastam praticamente todo o salário mensal em shopping e salão de beleza. Nunca uma geração compartilhou tanto do sentimento anti-imperialismo norte-americano, mas cada vez mais o Brasil se torna cópia dos Estados Unidos, sendo isso claro no que se refere aos padrões de beleza e de comportamento. Escrever errado não é motivo de vergonha para eles; vergonha é ter uma barriguinha. Passar em 1º lugar no vestibular é legal, mas motivo de orgulho mesmo é conseguir ser capa da Playboy. Seguir religiosamente alguma coisa? Só os rituais de beleza.

Um terceiro lema, talvez o mais preocupante, é o de que “cada um sabe o que faz da sua vida”. Eles realmente acreditam que cada um faz o que quiser e ninguém pode meter o bedelho na vida de ninguém. É preciso ter liberdade, é verdade, mas a vida em sociedade se faz possível, primeiramente, pela renúncia de certos instintos individuais que seriam prejudiciais à vida em coletividade. Em segundo lugar, toda ação individual traz conseqüências para a sociedade, por mais pífia que seja esta atitude. Em terceiro, nossos comportamentos e personalidades são moldados pela convivência com os outros. É comum mudarmos de idéia, de valores, de opinião e de atitude porque alguém nos deu um toque que não estávamos na linha certa, ou porque alguém, discordando de nós, nos deu uma luz para refletirmos sobre nossos comportamentos, o que nos faz mudar. Mudar e evoluir. “Meter o bedelho” na vida dos outros às vezes é necessário, nós muitas vezes aprendemos com isso.

Esse lema, ademais, dá margem para o próximo lema: “libera geral!”. Já que cada um está liberado para fazer o que quiser e ninguém pode criticar nada, é proibido ter qualquer preceito moral. A palavra moral assusta. Moral é coisa do passado. Moral, para a nova geração, é sinônimo de moralismo, é coisa de gente careta que acha que pode apontar o dedo pros outros dizendo o que é certo e o que é errado. Ninguém mais pode fazer isso hoje. Criticar qualquer coisa é ser um moralista conservador. Tudo se justifica pela diversão e pelo dinheiro. “Se dá uma boa grana, por que não?!” é o que eles pensam. O senso crítico se dissipou faz tempo, afinal, ter senso crítico é refletir, questionar, criticar. E criticar é proibido. Tem que se aceitar tudo, caso contrário, você é um moralista conservador.

A permissividade exagerada, seja na vida real ou na mídia, é vista com extrema naturalidade, afinal, é a geração dos que, quando crianças, assistiram Banheira do Gugu com os pais nos domingos à tarde. É a geração das meninas que com cerca de 7 anos de idade dançavam “na boquinha da garrafa”, enquanto suas mães achavam a “brincadeira” extremamente simpática e inocente. É a geração das meninas que tiveram Tiazinhas e Feiticeiras como exemplo de mulheres de sucesso.

É a geração do consumismo, do culto neurótico ao corpo, da valorização de coisas superficiais e passageiras. É a idolatria de pessoas vazias. É o ter para ser. É a geração que se entusiasma mais com a votação para o paredão do Big Brother Brasil do que com as votações políticas. É ter como objetivo de vida uma oportunidade de fama na televisão, seja por que motivo for.

Seria fácil e cômodo, todavia, culpar esses adolescentes pelo cenário cultural que temos hoje. Entretanto, eles são apenas reforçadores de uma cultura que fora construída aos poucos por outras pessoas: a geração de seus pais.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Gripe suína é a bola da vez


Eu sempre percebi que as pessoas são marionetes da mídia, mas achava que essa condição se referia principalmente aos padrões de normalidade, beleza e música. Com essa história de gripe suína estou vendo que a condição de fantoches a que a sociedade está submetida vai muito mais além.


Tá certo, existe um vírus novo e mais de 200 pessoas já morreram no Brasil. Mas não é qualquer resfriado que te coloca na lista de pessoas com a nova gripe. Na esmagadora maioria das vezes, a gripe é apenas uma gripe comum. Eu mesma peguei uma gripe lazarenta semana passada, e sabia que não havia motivos para me desesperar. Não deu outra: ela já passou e eu estou aqui, vivinha da Silva.


As pessoas não saem mais às ruas, andam de máscara, passam neuroticamente álcool em gel nas mãos de 5 em 5 minutos, se afastam atemorizadas de quem dá a mais tímida tossida, como se fosse sair um alienígena da boca da pobre coitada da pessoa que tossiu. Se disserem no Jornal Nacional que comer cocô faz bem pra gripe, as pessoas vão comer.


E isso tudo tem a ver com ser fantoche da mídia simplesmente porque as pessoas só estão neuróticas em relação a essa nova gripe porque é a televisão que está colocando na cabeça delas que elas devem ficar neuróticas com isso. Existem muitas outras doenças muito piores que a gripe suína e ninguém tá nem aí. Ninguém ta nem aí porque não tá passando na televisão no momento.


O câncer de pulmão causa muito mais mortes e mais sofrimentos aos pacientes, e milhares de pessoas estão por aí fumando adoidado e, pior ainda, obrigando os não-fumantes a fumar passivamente. A AIDS é uma epidemia muito mais alarmante, e tá todo mundo transando com todo mundo sem camisinha, com aquele discurso narcisista de que “comigo não vai acontecer” ou, pior ainda, “eu confio nele”.


Se prevenir da gripe suína é preciso. Não há dúvidas. Tomar as medidas necessárias (e sensatas) como lavar sempre as mãos, não passar a mão nos olhos, deixar os ambientes ventilando, etc, é uma necessidade real. E a televisão está certa em mostrar isso para as pessoas. Mas o que não está certo é as pessoas só lembrarem das doenças (ou de qualquer outra coisa) quando falar delas estiver na moda. Não é porque é a gripe suína a manchete da vez que temos que pensar que ela é a única doença que existe no momento. Não podemos esquecer que existem muitas outras doenças, de prognósticos muito piores. Devemos nos vigiar, portanto, para não cairmos na tendência de só nos lembrarmos ou de só refletirmos sobre coisas depois que passar um especial sobre elas no Fantástico.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O preço da diferença

      


     Vivendo numa sociedade que dita padrões, valores, gostos, opiniões, dentre tantas outras coisas, as pessoas que são diferentes sabem o preço que devemos pagar por isso. Sempre tive uma personalidade transgressora, crítica, desvinculada dos padrões vigentes. Por isso desde criança senti na pele a angústia que é se sentir um peixe fora d´água no seu próprio mundo. Vários são os exemplos pessoais que posso dar para ilustrar isso.

       Por exemplo: a minha geração viveu o ápice da idolatria à Xuxa. Eu gostava dela, mas preferia a Mara Maravilha. E acho que o maior motivo dessa “transgressão” era porque eu não me identificava com a Xuxa porque ela e todas as paquitas eram loiras (a Mara era morena). É claro que naquela época esse motivo era inconsciente e eu não fazia idéia de como uma simples cor de cabelo podia agir como um símbolo de identificação. A questão é: as meninas loiras que adoravam a Xuxa se identificavam com ela porque captavam inconscientemente um símbolo que as tornava parecidas; as morenas, por outro lado, não apenas continuavam gostando da Xuxa, apesar de se sentirem diferentes dela, como sentiam emergir o sentimento de querer ser loira. Eu, percebendo que tinha traços que impediam minha identificação plena com a Xuxa, fui atrás de outro objeto de identificação, um que corroborasse com quem ou como eu era. As outras meninas, por sua vez, faziam questão de continuar vinculadas àquele objeto, mesmo que para isso tivessem que “se mudar”, mudar sua personalidade, mudar seu físico, para ser como o objeto que lhes era sugerido como identificatório.

       Outro fato: quando eu tinha 12 anos, enquanto as meninas da minha idade ouviam Só Pra Contrariar, eu estava curtindo meu CD do Pantera. Com 13, enquanto as meninas da minha idade liam revista Capricho ou Corpo a Corpo, eu lia a Rock Brigade. Com 17, eu planejava quantos cursos e quantos estágios eu faria durante minha vida acadêmica para me tornar uma profissional bem sucedida, enquanto tantas outras colegas já “namoravam pra casar”. A angústia delas em relação à profissão era pouca, já que não era a prioridade. A prioridade delas era, isso sim, encontrar aquele príncipe encantado que sempre prometeram que nós encontraríamos, e o resto.....bem, o resto era resto.

       Já cansei de ouvir coisas do tipo “você é muito branca”, “você é muito magra”, “você devia passar um batonzinho”, “mas como você foi à praia e não está bronzeada?”, “mas como você não gosta dessa música?Está tocando direto!”, “você tem que usar salto alto”, etc. Em outras palavras: “você tem que ser igual a mulher da capa da revista Boa Forma e ouvir o que toca nas rádios”.

       A mulher que não é fútil, que não é caça-marido, que não acredita que a beleza é a maior fonte de realização pessoal é taxada de lésbica. O homem que não gosta de futebol, que não acredita que tem que pegar o maior número de mulheres possível é taxado de viado. A mulher que não está pensando em fazer nenhuma cirurgia plástica é otária. A pessoa que não assiste novela é estranha. A pessoa que não gosta de perder tempo com conversas inúteis (lê-se: que não suporta papo de futebol, papo de novela e BBB) é chata. A pessoa que não gosta das músicas (enlatadas) que estão tocando nas rádios no momento é esquisita. A mulher que vai à praia e não fica torrando que nem um frango assado pra ficar bronzeada a todo custo é burra. A pessoa que não gosta de dançar tem que ficar se protegendo das pessoas que ficam tentando a arrastar pra pista de dança, já que "quem não dança é chato". O homem que se depila é bicha.

       Como mencionei no início do texto, sempre tive uma personalidade transgressora, então nunca senti a necessidade que as pessoas sentem de ter que ser aceita no grupo a qualquer custo. Eu sempre fui do jeito que me sentia bem sendo. Mas se assumir diferente não é fácil, causa angústia. No meu caso, eu não tive outra opção. Eu sou diferente e ponto final. Se a angústia é a conseqüência inerente a essa opção, não há como eu fugir dela. E uso aqui o termo angústia com uma representação semântica ampla para designar vários sentimentos: raiva, solidão, medo, vergonha.
       Só para ilustrar, me irrita ver as gurias super empolgadas por causa de um show da Ivete Sangalo. Me sinto sozinha por não poder conversar sobre as bandas que eu ouço com nenhuma mulher, já que elas nem sequer ouviram falar em nada do que eu curto (os homens geralmente conhecem as bandas que menciono); me enoja papo de novela; sofro andando horas à procura de um sutiã sem enchimento (leia isso); me entristece ver que sempre estou sozinha nadando no mar, apenas com homens e crianças, já que todas as mulheres não podem perder um minuto de torração no Sol; me cansa ouvir comentários que eu deveria usar batom e roupas coloridas, e ver que as gurias saem na rua parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo de tanta maquiagem e esse ser o padrão de normalidade.

       O problema é que percebo que pouquíssimas pessoas têm essa coragem de enfrentar a angústia que decorre do fato de ser diferente. Muitos homens que gostam de namorar por longos períodos acabam cedendo à pressão dos amigos para ser “O pegador”, pra encarar a mulher como um pedaço de carne, mesmo não se sentindo bem com isso. Muitas mulheres arriscam ficar com câncer de pele se expondo ao sol exageradamente “porque é pecado ir à praia e não voltar bronzeada”. A mulher que vê todas ao seu redor determinadas a fazer uma cirurgia plástica, por mais que não haja nada de errado com ela, acaba pensando “e o que eu estou esperando pra fazer também?Se todo mundo está achando que precisa, então eu também devo precisar de uma plástica”. Se a programação na televisão está um lixo, é mais fácil continuar assistindo sem questionar, porque dá trabalho ficar procurando por um programa mais interessante. Muitos homens sentem vontade de depilar o peito (e, se isso for servir de incentivo a alguém, eu odeio peito peludo) mas têm vergonha ou medo de pensarem que eles são gays, então preferem continuar se achando inadequados e suando desnecessariamente (sim, o pêlo faz suar mais).

     Ser diferente e se assumir de tal forma provoca angústia. Isso é um fato. Mas ser diferente e tentar se enquadrar a todo custo aos padrões impostos também provoca angústia. Mas esta segunda forma de angústia, infelizmente, parece ser a opção preferida pela maioria das pessoas. Isto é, parece ser menos doloroso carregar consigo uma angústia por ser diferente mas tentar se encaixar nos padrões, do que conviver com a angústia de ser diferente e se assumir assim.



       Ser diferente e aceitar essa angústia, ou ser diferente e tentar se igualar a todo custo, vivenciando também a angústia: eis a questão.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Porque sou contra o silicone

O erro de muitas pessoas é se posicionar perante a moda do silicone com um olhar sobre ser bonito ou feio. Se alguém não gosta de silicone, justifica dizendo que é “porque acha feio” ou “porque acha artificial”. A questão que coloco, no entanto, é a de que existe algo muito mais complexo (e invisível) fundamentando a moda do silicone. Minha posição contrária ao silicone é, portanto, muito mais sócio-cultural do que uma mera opinião sobre achar feio ou bonito.

Eu poderia julgar as mulheres que se sujeitaram e as que desejam se sujeitar a essa cirurgia como fúteis. De fato, eu acho que elas o são. Mas essa é apenas a percepção mais imediata do problema. Percebo, além do motivo da futilidade, variáveis sócio-culturais muito mais complexas que determinam essa vontade nas mulheres. E como esse tipo de percepção é de mais difícil acesso às pessoas, vou focar minha crítica neste ponto.

O silicone é o símbolo moderno do machismo, da subjugação das mulheres, da alienação, do consumismo, da falta de opinião própria, de bom senso e de questionamento. Sou contra o silicone porque me dói. Após a árdua luta pela emancipação que nossas antecessoras fizeram nos anos 60, me dói ver as mulheres procurando a independência financeira com o intuito de poder pagar a cirurgia plástica que a mídia as fez acreditar que precisavam, ou pra gastar metade do salário no salão de beleza.

Me dói ver as mulheres continuarem profundamente subjugadas, porém agora não mais aos homens em específico, mas subjugadas, fundamentalmente, à qualquer pessoa ou instituição que as diga como devem ser (e, para isso, muitas vezes, negar a si mesmas), para agradar a sociedade. Me dói ver que após todo o avanço que fizemos pela busca de sermos indivíduos plenamente ativos socialmente (coisa que não éramos há pouquíssimas décadas), as mulheres hoje acreditam que a beleza é a maior e/ou única fonte de aceitação social. Me dói ver que as mulheres são alienadas por um padrão de beleza imposto, que as fazem se olhar no espelho e se sentirem inadequadas consigo mesmas. Me dói ver que o sonho de muitas mulheres é se adequar a esse padrão imposto, nem que pra isso tenham que fazer cirurgias plásticas totalmente desnecessárias, enquanto os homens mais horrorosos não fazem questão nem ao menos de fazer um regime ou se vestir com roupas mais bonitas.

Me dói ver que as mulheres, desde crianças, têm seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico prejudicado pelas imposições que a sociedade em geral nos faz para atendermos aos requisitos estéticos que julgam serem essenciais às mulheres. Me dói ver mulheres acreditando que a feminilidade se mede pelo tamanho do peito ou da bunda. Me dói ver mulheres acreditando que quanto mais peito se tem, mais mulher se é (Para ilustrar isso, notem como é freqüente ver mulheres saindo nas fotos ou nas ruas usando mega decotes após colocar silicone, quase que dizendo: “olhe o QUANTO eu sou mulher agora”). Me dói ver mulheres, portanto, que não fazem a menor idéia do que é ser mulher.

Faço um apelo, portanto, para que as pessoas não mais se limitem a julgar o silicone como uma questão de “ser bonito ou feio”, mas que se atentem às diversas variáveis que estão implicadas nele: o machismo, a valorização das mulheres apenas através da beleza, as imposições que fazem com que as mulheres se sintam um ser eternamente faltante e as impele a se sentirem mal consigo mesmas, a alienação pela mídia e por modismos, o consumismo desenfreado, que sugere sutilmente que sempre precisamos comprar alguma coisa para nos sentirmos felizes e satisfeitos; e a falta de senso crítico e de questionamento.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Mulher e machismo: Ela é vítima ou colaboradora do sistema?

Existe uma pluralidade de abordagens filosóficas e psicológicas e muitas vezes acontece de umas serem epistemologicamente incompatíveis com as outras. Pensando no feminismo, há diversas correntes de pensamento que o abarcam. Algumas vinculam-se ao marxismo, ao vegetarianismo, à defesa animal e do meio-ambiente. Algumas adotam uma postura anti-pornografia; outras não fazem ressalvas contra ela, e assim por diante.

Algumas dessas correntes do feminismo, fazendo jus à diversidade de abordagens e embasamentos filosóficos, encaram a mulher como vítima de um sistema patriarcal e coloca o gênero masculino como o maior inimigo das mulheres. Minha opção de pensamento, entretanto, é vincular o feminismo ao existencialismo sartreano.

Embasando-se nessa abordagem temos que, o ser humano, condenado a ser livre, é responsável por seu projeto de vida, pelo significado que dá a sua existência, pela responsabilidade que assume diante de suas escolhas. Eximir-se da responsabilidade de seus atos, viver conforme o desejo do outro, desculpar sua situação diante das circunstâncias da vida, é agir de má-fé e negar sua liberdade. O discurso de vítima é, portanto, um discurso de má-fé.

A dominação baseia-se fundamentalmente em dois elementos: o dominador e o dominado, ambos sendo condições para a existência do outro. O discurso de vítima, portanto, não apenas nega o segundo elemento do processo de dominação, que é a abertura do dominado para se permitir existir como tal, como nega a liberdade humana.


A consciência é liberdade e é também, acima de tudo, possibilidade. Ela está disponível a todos, basta se permitir perceber que existe um mundo enorme fora do nosso próprio, no qual existem múltiplos valores com os quais nunca nos deparamos. Existem, certamente, instituições sociais que dificultam a percepção de que nosso mundo não é o único, mas, ainda assim, não somos obrigados a pensar de tal jeito. E nisso se baseia a escolha. A escolha é a premissa da liberdade, e mesmo que não estejamos escolhendo por alguma coisa, o não-escolher já é uma escolha. Portanto, o que somos é tão somente o que queremos ser. Não importa se o outro nos impõe algo, o que importa é o que fazemos com essa imposição.


Então, ao invés de abraçar teorias que me conferem um papel vitimizado diante das circunstâncias da vida e, portanto, um papel de sujeito determinado a partir de variáveis que me julgam incapazes de manipular, subjugando, assim, minha capacidade de escolha e meu livre-arbítrio para ser um sujeito ativo na própria construção de meu sujeito, me identifico, isso sim, com uma abordagem que me trate como um sujeito empoderado, com capacidade de subverter o que é dito ideal, uma abordagem que me encara como um sujeito que é capaz de causar mudanças, de negar os valores vigentes e, portanto, capaz de agir.

Acho uma pena que muitas mulheres (e muitas feministas também) continuem se apoderando do discurso de vítima e da fórmula simplista que explica todo o machismo pela máxima “a mulher é oprimida pelo homem opressor”, atribuindo única e principalmente à vontade masculina a responsabilidade pela manutenção do sistema. Encarar o homem como o ator mantenedor e único beneficiário dessa estrutura é simplista, ingênuo e cômodo. (Não é à toa que muita gente por aí pense que as feministas são “mulheres que odeiam homens”.) A todo momento percebo essa visão de que “é o homem que causa e mantém todo o machismo que há no mundo”, transformando a luta feminista numa luta, acima de tudo, das mulheres contras os homens. E não é por aí. E seria até bom e mais fácil se fosse tão simples assim.

Pensar que as mulheres são oprimidas e escravizadas por um sistema, totalmente alheio a sua vontade, criado por indivíduos que as execram e querem apenas sua subjugação e aniquilar a todo custo sua condição de sujeito ativo é ingênuo porque pressupõe que as mulheres não têm nada a ganhar com o machismo e o patriarcado.

Muitos homens são machistas porque as mulheres assim o exigem. Muitos não se apropriam de atitudes ou valores machistas porque acham que são superiores a nós e que devem nos dominar, mas, sim, porque, se não agirem assim, as mulheres não dão crédito a eles. Por exemplo: muitos homens discordam da cultura segundo a qual o homem deve pagar a conta em todas as situações. Mas estes homens muitas vezes acabam pagando porque sentem-se inseguros de sugerir a divisão e, assim, a mulher o julgar mal. Para muitas mulheres, o homem que não paga é mal visto, mal educado, “pão-duro”. Muitos homens já tentam romper com essa norma, mas quem a mantém são as mulheres que a reforçam e a exigem.

Da mesma forma que, se criticamos os homens que acham que tem que reproduzir o papel de “pai de família que dá segurança financeira para a mulher”, muitos o fazem porque, se não o fizerem, não despertam o interesse das mulheres. Os estudantes de medicina, de Engenharia, etc, são os mais cobiçados pelas mulheres. Eles são notavelmente mais cobiçados do que os homens que fazem cursos sem status social, ou seja, cursos que não lhes conferem o papel de homem provedor. Portanto, se muitos homens fazem questão de assumir esse papel de patriarca é porque isso lhes confere muito mais atração por parte das mulheres.

Inúmeros são os exemplos de como as mulheres contribuem para a própria estagnação social. Elas são, resumidamente, desunidas, cada uma tentando destruir a outra, sem convergir para um objetivo em comum. Enquanto há mulheres que querem estudar, trabalhar, e assim crescer profissionalmente, muitas acham que esse caminho pode e deve ser facilitado tendo um caso com o chefe; enquanto umas tentam se inserir social e profissionalmente pelas habilidades intelectuais, muitas fazem questão de ser mulher-objeto, de conseguir as coisas pelo corpo e pela beleza; muitas ainda reforçam a divisão sexual dos papéis, acreditando que papéis dicotômicos de gênero devem corroborar com os determinismos biológicos; muitas fazem questão de negar sua individualidade e até mesmo etnia transformando seu corpo a cada moda que aparece para se adequar ao padrão de beleza vigente, passando fome para emagrecer, fazendo cirurgias plásticas desnecessárias que a mídia propõe que necessitam, etc; muitas acatam, mesmo que passivamente, a cultura que institui que a beleza é a maior fonte de realização e felicidade de uma mulher, o que obviamente impede um desenvolvimento intelectual, físico e social pleno; muitas aceitam ou simplesmente não repreendem comportamentos machistas; muitas aceitam menores salários pois acreditam que “para uma mulher, está bom”; dentre muitos outros casos.


Num outro contexto histórico e sócio-político fomos vítimas, sim. Éramos proibidas de estudar, de votar, éramos proibidas por lei de ocupar determinadas profissões, éramos obrigadas a casar com quem não queríamos e ter filhos incessantemente pois, dentre outros motivos, não existiam pílulas anticoncepcionais, etc. Mas essa forma de opressão, declarada, pautada em normas legislativas, cuja subversão acarretava punições evidentes, não existe mais (ao menos no Brasil). Existem ainda, obviamente, regras simbólicas nesse sistema machista e patriarcal da atualidade, mas a peculiaridade de tais regras é que, embora sejam mais difíceis de perceber (pois, ao contrário das regras legislativas, são invisíveis, não há um estatuto em que elas estão escritas), elas são mais passíveis e flexíveis de se burlar.
Diante desse cenário, pouco importa se são os homens que criam as situações e os valores machistas se nenhuma mulher se levanta pra repreender. A maioria prefere pensar “homem é assim mesmo, o mundo é assim mesmo, então vou aceitar mesmo”. Não podemos esperar que os homens saiam imediatamente da zona de conforto que o machismo lhes confere (com exceção dos homens que sofrem com o sistema, uma vez que os homens que discordam de tais valores são também discriminados de inúmeras formas). Mas podemos, isso sim, esperar que as mulheres estejam lá pra serem as primeiras a repreender qualquer tipo de comportamento machista. Não repreender um comportamento tem o mesmo efeito de reforçá-lo. Dessa forma, qualquer omissão de posicionamento, por parte de uma mulher é, na verdade, uma forma de promover o sistema.

Tocar no ponto da responsabilidade feminina na manutenção do sistema machista enfurece muitas mulheres, incluindo muitas feministas, talvez porque faça avistar um novo paradigma, um paradigma em que a mulher também é atriz mantenedora do sistema e, por isso, detém sim o poder da mudança. Mas esse novo paradigma talvez seja rechaçado porque incomoda. Incomoda porque pressupõe que estamos com muito poder nas mãos, mas não estamos sabendo usá-lo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A culpa é da Anastacia!



Descobri a culpada pela moda dos “cabelos de canetinha”: é a Anastácia! Cabelo de canetinha é uma espécie de luzes que muitas mulheres estão fazendo atualmente, que consiste em pintar o cabelo com várias mechas de cores diferentes. Tem tom de tudo quanto é cor: loiro branco, bege, loiro escuro, castanho claro dourado, castanho claro acinzentado, etc. O resultado é medonho: parece aquelas figuras em branco que as crianças colorem e rabiscam com diversas cores de canetinha.


E como para as pessoas (influenciáveis) o lema é: “tá na moda, então é bonito”, Curitiba tá cheia de mulher com “cabelo de canetinha”. E como, para essas mesmas pessoas, o que preenche a alma é fazer o que está todo mundo fazendo, ou o que alguma pessoa da televisão está fazendo, suspeitei que provavelmente deveria ter alguma “mulher-canetinha” famosa promovendo esse cabelo pavoroso.
Foi quando me deparei com uma imagem da cantora Anastácia. Pensei: “pronto, concluí o quebra-cabeças. Taí a ‘peça-mãe’ que faltava pra explicar esse fenômeno”. Pode ser, talvez, que a coitada não tenha sido a pioneira dessa moda, mas como não estou por dentro das últimas novidades do mundo fashion, muito menos das “divas” que são referências no (fútil) mundo da moda, vou pegar ela como bode-expiatório mesmo, sinto muito. 


Mais exemplos de "caneta de canetinha".


Uma vez, num restaurante, vi uma dessas que me deu até pena. Senti aquela incômoda “vergonha alheia”. Ela parecia uma bruxa de 70 anos de tanta mecha de tom loiro branco contrastando com a infeliz cor natural castanho claro acinzentado. Só faltava o caldeirão na frente. Mas ela não foi a primeira, tampouco será a última vítima das modas que aparecem por aí que nada fazem a não ser transformar ridiculamente as pessoas em ovelhinhas de rebanho.


E é claro, não preciso nem mencionar com que roupa as “mulheres-canetinha” geralmente estão. Roupa de academia, roupa de academia e roupa de academia. Ah! Elas também usam roupa de academia às vezes. Olha só que criatividade!


Mas o fato de que todas saem iguais na rua (seja infestando o cabelo de luzes até que ele se torne multicolorido, seja saindo em todos os lugares com roupa de academia) é só mera coincidência, viu? Dizer que elas não têm individualidade e estão copiando umas às outras é uma injustiça imperdoável e você deveria se envergonhar por pensar uma coisa dessas.

sábado, 30 de maio de 2009

Pelo direito de me sentir bem com um sutiã P





Posso afirmar que, hoje, comprar sutiã é a tarefa mais difícil que existe pra mim. Mais difícil do que levar Pinscher no veterinário. Não encontro mais em lugar nenhum os bons e velhos sutiãs de algodão e sem enchimento que costumava-se fabricar. Hoje todos os sutiãs têm enchimento, exceto por aqueles modelos horríveis “de vó”. Isso pode parecer piada, mas não é; é muito sério.


É isso...

...ou isso.


Tive o desprazer de ouvir de uma vendedora, uma vez, que naquela loja só teria sutiã sem enchimento se fosse a partir do tamanho M. Os sutiãs de tamanho P, segundo ela, nem eram mais produzidos sem enchimento pela fábrica.

Qual é a mensagem oculta (mas cujos efeitos são indeléveis sobre a auto-estima de uma mulher) dessa indústria de sutiãs exclusivamente com enchimento, portanto? Bom, é a seguinte: “se você usa sutiã P, você está obrigatoriamente intimada a usar enchimento. E se você usa P e se sente bem com isso, pois deveria se sentir mal, tanto é que nem mais fabricamos os sem enchimento, pois é inconcebível uma mulher se aceitar assim. Você não é mulher se não tiver peito; portanto, obedeça, você é um lixo e deve se adequar a todo custo ao padrão de beleza que a mídia está veiculando. Como você ousa, aliás, ir contra a regra fundamental da atual ditadura da beleza?”

Ironias à parte, essa é, realmente, a mensagem que a indústria de sutiãs com enchimento (que caminha paralelamente com as tendências que a mídia estabelece) expressa simbolicamente às mulheres. A questão da mídia como instituidora dos padrões e da ditadura da beleza (e a influência negativa disso sobre as mulheres), no entanto, é tão ampla que merece um texto inteiramente dedicado a ela (e o farei mais tarde).


Há uma segunda questão importante que decorre da comercialização exclusiva de sutiãs com enchimento: eles fazem a pessoa se acostumar com algo que não é real. E quando nos acostumamos com algo, aquele elemento passa a ser nosso parâmetro. Por exemplo: se você rodar com uma Mercedez AMG C63 por um mês, certamente terá problemas em se readaptar a qualquer carro popular que não ofereça todo o conforto e a potência do visado carro esportivo. Seus parâmetros de conforto, potência, luxo, tecnologia, etc, serão formados a partir de sua experiência com o carrão, ou seja, você tomará como referência algo que não condiz com a sua realidade. Sob esse ângulo, todos os carros populares se tornarão insuficientes para satisfazer seu ego entusiasmado e iludido com uma realidade que não te pertence.


Tá bom, reconheço que é necessário ter um sutiã de bojo (mas os sem enchimento) para aquelas situações que o exijam, como pra usar com roupas muito coladas ou com aquela blusinha branca de algodão que só te faz passar vergonha se não estiver com um desses por baixo. O problema é quando sutiã com bojo e enchimento se torna acessório indispensável para o dia-a-dia. Promovendo uma ilusão sobre o seu corpo, eles criam um conflito com a auto-imagem quando você volta a ser você mesma, já que seu parâmetro do que é ficar bonita está condicionado a uma imagem com a qual você conviveu o dia inteiro, mas que não corresponde à realidade.


Uma moda nunca é apenas uma moda. Uma tendência de fabricação em massa de determinado produto nunca é apenas uma mera tendência. Toda forma de expressão social carrega consigo um significado, um valor e uma finalidade. No caso dos sutiãs hoje serem praticamente todos de enchimento (ou apenas bojo), o significado é claro: pregar que um seio pequeno não pode ser bonito. O valor é tácito: se você tem seios pequenos, não é mulher. A finalidade é evidente: fazer as mulheres cada vez mais insatisfeitas com o próprio corpo, fazendo-as acreditar que precisam recorrer a uma cirurgia de próteses para poderem se sentir felizes e bonitas.


Enquanto assisto a essa alienação massificada em que as mulheres estão tristemente incorrendo, continuo percorrendo os corredores dos shopping centers à procura de um sutiã que me dê o direito de me representar naturalmente. Pelo direito de ser feliz como sou. Pelo direito de não precisar ser milimetricamente perfeita. Pelo direito de ser humana.