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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O mundo é o Colégio Medianeira

          Estudei todo o ensino fundamental no Colégio Medianeira, de onde saí apenas aos 14 anos. Tive uma infância feliz, mas lembro do início da adolescência como um período perturbado; é quando a personalidade começa a se consolidar, as reflexões emergem, as opiniões se formam e você começa a descobrir quem realmente é.

          Aos 9 anos de idade, o presente de meus sonhos era um autorama ou um videogame com volante, mas nunca tive coragem sequer de comentar esse desejo com meus pais porque, pensava eu, eles brigariam comigo se eu pedisse um brinquedo “de menino”. Meu brinquedo preferido, inclusive, era o Jeep da Barbie, e tenho certeza que ele me entusiasmava muito mais pelo fato de ser um carro do que por ser um acessório da boneca.

Sim, eu brincava de carrinho. Já era a feminista latente dentro em mim, revolucionando conceitos sexistas mesquinhos.

Nesta mesma idade, me inquietava o fato de aprendermos sobre a evolução humana sob o paradigma do sexo masculino; não bastasse as figuras sempre representando tão somente a evolução do corpo masculino, a denominação da espécie humana se resumia no termo “Homem”. Eu questionava porque o ensino da humanidade excluía as mulheres ilustrativa, lingüística e simbolicamente e focava-se nos indivíduos masculinos. Lembro-me de comentar com minha mãe que meu pai havia sido um homem das cavernas. Ela me corrigiu, afirmando que nós – mulheres – também havíamos sido. Ora, para uma compreensão infantil pautada em interpretações literais, meu pensamento não estava tão equivocado assim.  Simbolicamente, era isso o que ensinavam.


O ensino da evolução humana é ilustrativa, lingüística e simbolicamente masculinista.

Aos 10 anos de idade, enquanto minhas colegas ainda brincavam de Barbie, eu pedi uma guitarra para minha mãe. É claro que ela não atendeu meu pedido; ela não levou a sério um desejo que, mais de 15 anos depois, continua efervescentemente vivo e jamais morreria.
Aos 11, já possuía um vasto conhecimento musical e sentia-me limitantemente acorrentada por não poder compartilhar do meu interesse pela música com meus pares. Meus colegas não ouviam música. Não com consciência. Eram daqueles que acreditavam que o melhor disco do ano tinha sido a compilação da trilha sonora da novela das 8 e que só conheciam o que tocava nas rádios e no programa do Faustão.

          Diferente das meninas da sala, eu nunca me interessei por aqueles meninos sem graça da turma, os “galãzinhos de 12 anos”. Eu sempre gostei de homens mais velhos, intelectualmente provocantes e esteticamente perturbadores. Um de meus maiores sonhos, inclusive, era casar com o Jon Bon Jovi, 24 anos mais velho do que eu.


Eu tinha um sentimento muito certeiro, quase profético, de que eu seria a próxima esposa do Jon Bon Jovi (!).

          Meu sentimento de inadequação era marcante. Eu não me identificava com os colegas. Eu sentia falta de inquietude nas pessoas; de angústia; daquele caos interior que te move a pensar a vida de forma diferente, buscar respostas, agir criticamente sem se contentar com o que quer que seja; de ânsia por decifrar os mistérios da vida e compreender essa existência turbulenta.

          Ao iniciar o segundo grau, imaginei que seria o momento ideal para mudar de escola. Mudar de vida. Conhecer gente nova, menos previsível. Reconheço que melhorou ligeiramente, mas fundamentalmente tudo continuou igual. Fui crescendo, saindo para o mundo, me inserindo em novos contextos, entrando para o mercado de trabalho, trabalhando em diversas empresas e conhecendo todo tipo de gente. Curiosamente, tudo continuou como era no Colégio Medianeira.


          As meninas, hoje adultas, não mais desejam brincar de Barbie. Regrediram: querem ser a Barbie. Os meninos, hoje crescidos, continuam infantis: respondem a códigos masculinos medíocres e fazem o que quer que seja, até o que não desejam, para afirmar sua suposta masculinidade. Homens e mulheres permaneceram na infantilidade musical: abdicam até mesmo de seu gosto musical genuíno para serem aceitos socialmente. Não aprenderam a ouvir música com consciência e continuam acreditando que gostam daquilo que a mídia sugere que devem gostar. As meninas que naquela época ouviam pagode e axé só porque estava na moda são as mesmas que hoje ouvem sertanejo universitário pelo mesmo motivo. Naquela época, elas abominavam sertanejo porque a mídia o colocava como “música de diarista”. Mas é melhor não enfatizar este fato para que elas não fiquem sem graça. Reconhecer que se leva uma existência inautêntica é humilhante demais; é mais fácil negar e se justificar com desculpas esfarrapadas.


          As pessoas continuam padronizadas: são passivamente moldadas para pensar, agir, se vestir, se divertir e se interessar pelo que a televisão impõe inconscientemente em cada momento. Agora, no entanto, elas não têm mais a desculpa de serem apenas adolescentes. Já são adultas.

          Muita gente continua vivendo sob a proteção de máscaras, negando – para si mesmo, muitas vezes – sua verdadeira identidade a fim de aparentar estar bem ajustado à sociedade: tímidos tentando ser falsamente sociáveis e, para isso, enfrentando o doloroso desafio de viver interpretando um personagem o dia todo; pobres fingindo ser ricos; tagarelas que falam demais pois não suportam seu próprio silêncio; morenas tentando ser loiras; pessoas passando fome propositalmente para fingir que são magras.


          Hoje sei que o problema não era o Colégio Medianeira; era a sociedade. Qualquer contexto, dentro dessa mesma sociedade, seria essencialmente igual. Em qualquer canto as pessoas continuavam previsíveis, infantilizadas, moldáveis, manipuláveis. É um traço comum à maioria.


          Minhas lembranças do Colégio Medianeira são tão ruins que, logo após mudar de escola, sonhei, alguns vezes, que algo ainda me prendia lá. Eram pesadelos nos quais eu havia tido que voltar a estudar lá ou que de lá não consegui sair. Acordava aliviada lembrando que havia, sim, me libertado.

          Em essência, eu não me libertei. No mundo lá fora era igual. O mundo era como o Colégio Medianeira. Aos 14 anos, quando decidi mudar de escola, eu era ingênua e pouco ainda conhecia do mundo lá fora. Eu esperançava que qualquer outro ambiente seria melhor e tinha certeza que eu poderia me ajustar. Eu era ingênua demais para cogitar que mudar de escola não resolveria, e inocente demais para encarar o fardo que teria que carregar: durante toda a vida, eu nunca sairia do Colégio Medianeira.




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meu sonho de ser aeromoça



A primeira profissão que quis ter, ainda quando criança, foi a de comissária de vôo. Abandonei a idéia conforme fui crescendo, mas no fundo sempre mantive a mesma atração por este trabalho. Na verdade, até hoje, quando me deparo com um destes profissionais, sinto um friozinho na barriga. É, deve ser amor.
A mulher e o mercado de trabalho nos anos 80 e 90

Minha infância se passou no final dos anos 80 e início dos 90. Apesar de ter tido uma mãe bem sucedida profissionalmente, muitas meninas da mesma idade ainda tinham mães donas-de-casa naquela época. Na mídia, especialmente nas telenovelas e comerciais, a imagem que se passava ainda era a de que as mulheres eram românticas, sonhavam com um marido (“bom partido”, de preferência), de que o ápice da vida de uma mulher seria o dia de seu casamento, de que eram elas as responsáveis pelo lar, etc.
Já era uma época em que as mulheres não enfrentavam relutância da sociedade em trabalhar fora –salvo em certas profissões – mas suas atividades profissionais ainda eram encaradas como sendo de menor relevância e direcionadas para ocupações consideradas “femininas”: subalternas, de baixa remuneração e geralmente ligadas a atividades de afeto. Não preciso lembrar que até hoje as meninas são direcionadas para as áreas que não envolvem raciocínio lógico e liderança.
De todo modo, os valores familiares ainda pregavam que o chefe da família era o homem; que quem “botava comida na mesa” era o marido; que a mulher, se trabalhasse, visava apenas ajudar nas despesas da casa. Daí obviamente surgia a noção, na mente das próprias mulheres, de que prescindiam de um emprego que exigisse grande responsabilidade ou grande remuneração. Poderiam ser secretárias ao invés de executivas, professoras primárias ao invés de professoras universitárias, enfermeiras ao invés de médicas...comissárias de vôo ao invés de pilotos.

Ser ou não ser comissária de vôo: eis a questão.
Aos 19-20 anos, já universitária, vivi um momento muito difícil, de muitas dúvidas, pois não me identificava com a profissão que havia escolhido. Cogitei largar tudo e fazer o que sempre amei, desde os 7 anos de idade: ser comissária de vôo.
       Foi quando finalmente procurei uma escola profissionalizante que desisti da idéia. Os homens iam até aquele estabelecimento para aprender a pilotar aviões. Eu, como mulher, estava indo para aprender a servir passageiros e tripulantes. Dentro do avião, os homens eram pilotos; as mulheres, as “mocinhas bonitas” que serviam as pessoas. Era um sentimento contraditório aos meus ideais feministas.  


Após muita reflexão, percebi que o que eu queria mesmo era trabalhar em escritórios, mexer com computador e papéis. Eu queria ser executiva! Como não tive muitos modelos de mulheres assim em minha infância, principalmente pela televisão, o que mais se aproximava disso era a imagem de comissária de vôo. Esteticamente, elas parecem mulheres de negócios. Entretanto, a falta de modelos me impossibilitou sequer cogitar esse desejo.

Comissárias de vôo e mulheres de negócios: não são parecidas?
O problema não é escolher uma profissão subalterna. O problema é escolher algo porque se é homem ou mulher.
Quero deixar claro que de forma alguma desmereço a importância das professoras primárias, enfermeiras ou secretárias. Todas as ocupações são importantes e gozam de grande mérito. O que coloco em questão é que existe uma incontestável estereotipia sexual de profissões, e muitos homens e mulheres ainda escolhem suas carreiras em função de códigos sociais e estereótipos de gênero.
A própria profissão de comissário de vôo é um grande exemplo. É uma profissão tão sexualizada, no sentido de generizada (gendered), que até pouco tempo atrás era uma ocupação quase que exclusivamente feminina. Felizmente, a flexibilização das diferenças de gênero possibilitou que muitos homens adentrassem no ramo. Isso afetou até a denominação do cargo: passou a chamar-se “comissário (a) de vôo”, e não mais “aeromoça”.
O perigo da sexualização de profissões.
Muitas mulheres ainda não ousam enveredar pelas ciências exatas, mesmo tendo habilidade para tal, por não se sentirem pertencidas àquele universo predominantemente masculino. Muitas se contentam com o curso de Secretariado Executivo, quando na verdade poderiam ter sido grandes empresárias e gestoras. 
Em contrapartida, a educação dos meninos os afasta de ocupações com pouco prestígo social e baixa remuneração. A sociedade rechaça os homens que não correspondem ao ideal masculino de sucesso: rico e bem sucedido. Tendo isso em vista, muitos homens amam a arte, mas optam pela carreira de Direito que a família tanto espera. Muitos seguem infelizes na profissão de médico, pois na verdade desejavam ser biólogos. Outros tantos cursam Engenharia, mesmo sem talento algum, apenas em função da identificação de gênero (Parece brincadeira, mas muitos ainda seguem a lógica: “Sou homem. Logo, serei engenheiro”). 

Ser médico ou biólogo? O status social conferido pela profissão de médico certamente pesará na escolha dos homens.

Identificações e estereotipias de gênero sempre haverá. Todavia, o que espero é que sejam reduzidas ao máximo, especialmente no que tange às ocupações profissionais. Só assim não veremos mais o simples fato de ser homem ou mulher restringir escolhas, sobretudo as profissionais. Só assim não veremos mais sonhos impedidos, desejos reprimidos, habilidades inutilizadas e talentos desperdiçados.



quarta-feira, 14 de março de 2012

O problema não é o sertanejo universitário

-->Uma das perguntas que não querem calar ultimamente é: “você gosta de sertanejo universitário?”. Minha resposta é um entusiasmado “não”, mas minha posição não se justifica por uma mera questão de gosto, seja porque as letras têm o mesmo teor de corno romântico, porque as vozes são todas parecidas, porque as batidas são sempre as mesmas ou qualquer outro valor estético. 

Alguma dupla sertaneja que não sei o nome, 
mas não faz diferença porque logo vai sumir.

Eu gosto de muita coisa da música country, especialmente as vertentes mais ligadas ao blues e southern rock (uma de minhas bandas preferidas, inclusive, é o Lynyrd Skynyrd) e curto  muitas músicas de nomes como Alan Jackson, Paul Overstreet, Travis Tritt e até Garth Brooks. Mesmo assim, não curto sertanejo, tampouco o universitário, apesar de nutrir certo respeito –apenas isso– pelo sertanejo verdadeiro, “de raiz”. 

Lynyrd Skynyrd é bom demais.



Sim, eu curto Alan Jackson.

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              O sertanejo universitário não é um problema per se.


Tendo em vista meu apreço por muitos cantores country, o sertanejo universitário não deveria ser-me tão repugnante. E confesso que, em termos simplistas de mero gosto, ele me soa muito “menos pior” do que axé e pagode, por exemplo. 
Mas o problema não é o sertanejo universitário. Não em si. O problema é que isso é só mais uma coisa que as pessoas ouvem porque está na moda. É só mais uma coisa que as pessoas veneram por que se popularizou devido ao apoio da grande mídia. É só mais um padrão de comportamento que as pessoas adquiriram para se sentirem adequadas socialmente. Poderia ser qualquer outra coisa em seu lugar, daí sua mediocridade.
Lembro-me com extrema lucidez quando, há cerca de 5 ou 7 anos, as pessoas me zombavam por gostar de alguns nomes da música country (estes que citei acima). Hoje, são estas as mesmas pessoas que se deliciam com o último DVD do Fernando & Sorocaba, ou que freqüentam, animadíssimas, bares como Vitoria Vila e Wood’s.
Nesta época, por volta de 2004, a música sertaneja ainda carregava consigo o estigma de “música de diarista”. Foi apenas quando os grandes empresários da indústria fonográfica e barões da grande mídia resolveram mudar o “posicionamento de mercado” do sertanejo (porque o sertanejo universitário é só mais um produto para vender rápido e, portanto, se orienta estritamente pelas lógicas do marketing) e lhe criaram uma nova cara, uma nova identidade, que seu público-alvo mudou. Nada de histórias a respeito da dura vida no campo. O termo “universitário” lhe confere, agora, um traço mais elitizado, mais jovem. Seriam músicas para o jovem das classes até as mais abastadas, que adoram curtir e se divertir com os colegas e amigos. 



Não coincidentemente, o funk, até os anos 2000, era “música de favelado”. O pagode, por sua vez, era “música de pobre” até o final dos anos 80. O reggae era “música de maconheiro” até meados dos 90. Julgo dispensável lembrar que todos já tiveram seus estereótipos transformados – por causa do apoio da grande mídia. Claro, sempre ela - e gozaram de anos de glória: o pagode na década de 90, o reggae no início dos anos 2000 e o funk dos anos 2000 até agora. 

Quando eu era adolescente, todo mundo era surfistinha e ouvia reggae. Menos eu, claro.



Hoje, essas mesmas pessoas cresceram e viraram isso. "Pura coincidência", lógico.
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Isso é tão ridiculamente óbvio que sinto-me até envergonhada por estar explicando de forma tão pormenorizada. Perdoem-me os leitores perspicazes que certamente já sabem disso, mas outros tantos que ainda não perceberam me obrigam a fazê-lo.

Comportamentos e valores moldados por tendências efêmeras: grande liberdade de pensamento!
Ora, onde estão as pessoas que adoravam reggae quando era este o estilo ditado pela moda? Onde estão as mulheres que tinham incontestavelmente no pagode seu estilo musical preferido, quando era este o estilo apadrinhado pela mídia? Cadê o povo que, para se divertir, esperava música eletrônica na balada, quando este era o padrão de comportamento? Pois é.

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Todos queremos fazer parte de um grupo? Certamente, e essa é a natural conseqüência de nosso instinto gregário. Mas há uma diferença enorme entre o desejo de se estabelecer relações sociais, buscar adequação e convívio social, e entre agir como uma marionete para se adequar ao que está em voga em dado momento, e ainda se julgar autêntico. Desculpem-me a franqueza, mas isso beira a imbecilidade.
Experimente perguntar a qualquer pessoa quais são seus artistas preferidos. Salvo raras exceções, a resposta será unânime: são aqueles que estão em visibilidade no momento, que recebem convites para tocar no Domingão do Faustão, que são entrevistados por repórteres da televisão, aqueles cujos videoclipes são exibidos na MTV e cujas músicas tocam incessantemente nas rádios.


É certo que nem todos se relacionam tão intimamente com a música. Muitos a vêem como uma simples forma de entretenimento, algo que não suscita grande importância. Daí se justificariam os repertórios tão limitados e padronizados. Fair enough. A questão é que esse comportamento não atinge apenas estas pessoas.
Isso não seria um grande problema se as pessoas admitissem que só gostam de determinada coisa porque está na moda e, quando não estiver mais, “esquecerão” que gostam. O problema é que elas não percebem isso. Elas realmente acreditam que seu gosto é genuinamente individual e que o fato de gostarem do que está na moda é mera coincidência. Nada extremamente relevante para aqueles que, como disse, pouco valor dão à música. De todo modo, qualquer tipo de expressão musical jamais será neutra em significação. Ao contrário, sempre estará solidificada em alguma rede de valores,  hábitos, comportamentos, pressupostos, ideais.

            O X da questão.

O perigo, todavia, reside no seguinte ponto: se as pessoas conseguem ser tão facilmente modeladas no que concerne a seus valores e comportamentos em relação à música, se mostram-se tão passivas e inconscientemente sujeitas aos poderes da grande mídia para fazer algo tão singelo e elementar como ouvir música, por que não o seriam em outros contextos, ainda mais complexos? Esse é o ponto-chave.    


sábado, 24 de dezembro de 2011

Tenho medo de gurias alaranjadas

Se tem uma coisa bizarra nesse mundo, é o tal do bronzeamento artificial. Não entendo por que alguém paga para se bronzear artificialmente depositando seu corpo naquela câmara claustrofóbica e assumidamente cancerígena. Pô, isso é Brasil! Nosso país de grandeza continental é quase que inteiramente banhado pelo Oceano Atlântico. E não precisa nem ir à praia pra pegar um solzinho: passe o domingo no parque, se estenda no quintal de casa, sei lá. Não tem desculpa para pagar por isso.

A idéia de ficar trancada dentro de uma câmara de bronzeamento artificial
 me dá tanto medo quanto ser enterrada viva. 

Mas a questão principal não é essa. A questão principal é que a pele bronzeada é uma das maiores imposições estéticas da atualidade. É mais um padrão de beleza que a mídia reforça, por meio de diversos instrumentos, e quem não atende a essa característica é ridicularizado por estar fora dos padrões. Tendo isso em vista, o bronzeamento artificial é mais uma coisa estúpida que as mulheres fazem, mesmo correndo riscos de saúde por isso, para se sentirem adequadas, pertencidas e, claro, bonitas, já que a esmagadora maioria delas está totalmente imbecilizada e realmente acredita que a beleza é a maior fonte de realização de uma mulher. 

Porque o que importa é ser loira, bronzeada e ter peito de plástico.
       Apesar de haver diversos homens que chegam a ter mulheres muito brancas - especialmente as de cabelo escuro - como um verdadeiro fetiche, esse padrão estético, via de regra, é muito rechaçado. Eu, que nunca vi ninguém mais branco do que eu (no máximo tão branca quanto) sei bem o que é isso. Mas eu nunca iria condenar meu tempo, dinheiro e principalmente minha saúde para me adequar a um padrão de beleza.

       Essa decisão é audaciosa, porém. A todo momento recebo os indícios de que estou andando na contramão do que é aceito socialmente. Muitas vezes já ouvi mulheres (morenas normalíssimas, alías) dizendo estarem envergonhadas por estarem tão brancas. Ora, isto dito na minha frente deveria soar como o quê? Um elogio? Toda vez que volto da praia as pessoas me questionam, consternadíssimas, porque não voltei bronzeada. Bem, quando vou para a praia, o faço para aproveitar o mar e nadar. Se for só pra ficar pegando sol, não é mais prático ficar na laje de casa? E não vou nem entrar em detalhes de todas as 57 mil vezes que ouvi comentários na rua sobre minha perna branquela. É “super gostoso” ficar ouvindo críticas sobre sua aparência, de pessoas que você nunca viu na vida, no meio da rua, quando só o que você quer é poder andar com suas pernas descobertas sob um calor de 30 graus. Resumindo: é preciso ter muita atitude e auto-confiança para enfrentar um padrão de beleza e ser você mesma. Mas em tempos de individualidades esmagadas e pessoas padronizadas, ávidas para se sentirem aceitas socialmente e seguir irrefletidamente o que é imposto como normal ou bonito, é raro ver alguém que tenha essa coragem de ser verdadeiro consigo mesmo e respeitar seu biotipo, fenótipo e até etnia.

       É desolador ver como as mulheres –normalíssimas, repito - vivem cercadas de neuras e complexos, especialmente para ir à praia. Os homens, em contrapartida, raramente têm vergonha de seu corpo e, mesmo que o tenham, é em nível muito inferior ao das mulheres. Canso de ver homens cheios de cicatrizes, pernas feias, barrigas imensas, medonhas costas peludas que dispensam cobertores para dormir, dentre outros exemplos, e nem por isso ficam constrangidos. Pelo contrário. Usam roupas que evidenciam suas cicatrizes e formas fora do padrão, vão à praia sem angústia de mostrar o corpo.

Dispensa comentários, né?

Reparem como só homens e crianças entram no mar, enquanto todas as mulheres ficam estiradas na areia. Chega a ser ridículo. Algumas eventualmente entram no mar, mas é muito rapidamente, e apenas para se refrescar e voltar à areia com a sensação de estar queimando mais devido ao sal.

Quando estiver na praia, troque a imagem das mulheres 
                            por esta em sua mente. Dá na mesma.

Certo dia passou na televisão uma matéria sobre bronzeamento artificial (a favor, claro). A apresentadora disse: “quem não quer ficar bronzeada, com essa cor de saúde?” Cor de saúde? Gente, essas gurias praticamente expelem raios ultravioletas! Tem que passar protetor solar pra ficar perto delas! Elas ficam alaranjadas e essa cor não é humana! Como isso pode ser saudável?!

O que a televisão não faz para sustentar um padrão de beleza patético, hein? Não só incentiva uma ferramenta de bronzeamento que causa envelhecimento precoce e câncer de pele (esses "detalhes" nunca são devidamente enfocados nas reportagens), como o associa à esbanjamento de saúde!
Vera Fischer, uma das maiores representantes da gangue
das garotas alaranjadas.
Para a maioria das pessoas, essas mulheres abaixo são muito mais belas... 


Paris Hilton, Fergie e Christina Aguilera.

...do que essas.

Ao centro, Nathália Dill, e em sentido horário:
 Nicole Kidman, Julianne Morre, Liv Tyler e Mayana Moura.



Se você ainda quiser insistir que pra ser bonito tem que ser bronzeado, que é seu “gosto pessoal” e que isso não tem influência externa nenhuma, tudo bem. Mas por favor, não tente dizer que isso....

 
Anne Hathaway após sessão de bronzeamento artificial para o filme "Noivas em Guerra".



parece  mais saudável do que isso...Seria insano. 

Anne Hathaway sendo ela mesma.






domingo, 30 de outubro de 2011

Criança dançar na boca da garrafa, pode. Tocar guitarra, não.

Em agosto deste ano, em São José do Rio Preto-SP, um menino de 8 anos foi repreendido pela diretora de sua escola por ouvir heavy metal (leia aqui). Ele foi encaminhado à diretoria por estar batucando na carteira, fingindo que tocava bateria. Ao contar à diretora que seu sonho era tocar guitarra com o Iron Maiden, ela o desincentivou severamente, mostrando a ele imagens de capas dos discos da banda que, segundo ela, eram imagens associados ao demônio, satanismo e à morte. Segundo o menino, a diretora ainda disse que os roqueiros sacrificam animais, cortam cabeças e fazem pacto com o demônio. A diretora se defende, afirmando que quis despertar uma reflexão no menino. Segundo ela, este é seu trabalho, já que as imagens não têm mensagem positiva.

Não vou nem entrar no mérito da questão da generalização que se faz do rock, em que acreditam que é tudo a mesma coisa, sendo isso evidente até na forma como o chamam. Os desavisados jogam no mesmo “caldeirão” coisas extremamente diferentes: Rolling Stones, Iron Maiden, Dimmu Borgir, Guns n’ Roses, Limp Bizkit, Red Hot Chilli Peppers, etc. Para eles, é tudo a mesma coisa. É tudo “rock”. Mas o rock se desmembra em diversos estilos, e cada uma das bandas citadas acima pertence a um diferente. Uma de suas subdivisões, inclusive, é o metal que, por sua vez, também se destrinche em vários estilos, como heavy metal, heavy metal melódico, power metal, thrash metal, black metal, white metal, etc. Existe até o termo “metal barroco”, que se refere ao estilo interpretado por Yngwie Malmsteen. Mesmo assim, o metal, de forma geral, é sempre chamado de “heavy metal” pela grande mídia. Isto já é pelo menos um avanço, pois há não muito tempo ela o denominava ainda mais pobremente de “rock pauleira”.

O que quero dizer com tudo isso (e olha que eu disse que não iria entrar no mérito dessa questão) é que existem, sim, bandas que fazem apologia ao satanismo e afins. Mas isso é uma vertente bem específica do metal, mais precisamente do black e até death metal. Cada estilo tem suas particularidades, mas, via de regra, as letras das músicas falam sobre sociedade, subversão, histórias de civilizações, temas políticos, contos, mitos, relações amorosas (sim, metaleiro fala de amor). O próprio Iron Maiden, em torno do qual se criou a polêmica na escola, é um exemplo de banda cujas letras remetem, principalmente, a histórias e mitos. O oculto é, de fato, muito explorado por eles, mas de forma alguma se faz apologia ao satanismo ou algo do tipo.

Também não vou entrar no mérito da questão sobre a atitude da diretora de questionar as escolhas do menino. Na verdade, a ênfase que a mídia deu ao caso foi em relação à reprovável atitude autoritária da diretora, ferindo o livre arbítrio do aluno, julgando o que ele deveria ou não ouvir. Para mim, não foi esse o problema. Em tempos de visível perda de autoridade dos pais perante os filhos e da total desorientação destes em diversos assuntos, não me incomoda ver alguém tentar direcionar as opiniões e valores de um jovem; pelo contrário. O que me incomoda é o fato da diretora ter feito isso em relação aos pré-conceitos que tem em relação ao rock.

É impossível não perceber que o funk, axé e até alguma coisa do pagode, estilos musicais descaradamente apadrinhados pela grande mídia, exercem influência muito mais negativa sobre as pessoas, em especial as crianças. E é bem sabido que as escolas, sejam elas de qualquer nível sócio-econômico, incitam as atividades de dança desses estilos, aceitando inclusive as mais grotescas.

A questão é: por que questionar as atividades supostamente anticristãs de um aluno, e não fazer o mesmo ao ver meninas de 8 anos dançando na boquinha da garrafa? Como é possível acatar meninas que ainda levam lancheira da Moranguinho, mas ao mesmo tempo vão para a escola com calças apertadíssimas especialmente ajustadas para delinear seus corpinhos de manequim tamanho 16? Como se pode aceitar meninas que ainda nem menstruaram dançando funk e venerando mulheres-frutas? Como aceitar que meninas do jardim de infância deixem de brincar por causa do sapato de salto que usam? Como encarar com normalidade o fato de meninas de menos de 10 anos serem o público-alvo cada vez mais crescente de distúrbios alimentares e/ou já pensarem nas cirurgias estéticas que “precisam” fazer para se adequar ao padrão de mulher-objeto que elas recebem da mídia e das músicas grotescas que ouvem? Tudo isso é fortemente reforçado pelo brega-popularesco que é veiculado e reforçado pela grande mídia. E é muito assustador que pensem que seja o rock (mesmo o metal) o vilão.

A sexualização precoce é gritante e, embora os pais sejam os responsáveis pela educação de seus filhos, a escola tem o poder – e o dever – de intervir nessas questões. Por isso o que me chateia – e me preocupa- não é o fato de a diretora questionar as escolhas de um aluno, mas quais escolhas ela questiona e quais deixa de questionar.


Isso...

Iron Maiden

...é bem diferente disso...

Marduk, banda de Black Metal

Mas ainda é realmente pior do que isso?



Olhem que "gracinha" essas crianças super sexualizadas (e incentivadas pela mãe, que faz até closes nas partes íntimas das meninas. Tenha fôlego para assistir o 2:44)  dançando axé. Os comentários dos pedófilos na própria página do youtube (leia aqui) são super fofos também, nem precisa ser fluente em inglês e espanhol para entender.

Mas hei, pais!Deixem seus filhos longe do Iron Maiden!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Insensato Coração": uma luz no fim do túnel?

       Antes de mais nada eu gostaria de adiantar que não, eu não gosto e não assisto novelas (inclusive já escrevi um texto sobre elas). Sei que apesar disso muitos irão pensar que estou mentindo, principalmente quando eu disser que vi alguns momentos de “Insensato Coração”, o que me permitirá tecer comentários sobre a trama. Apesar disso, eu não a acompanho pois tenho nojo de novelas. É que quando eu realmente reprovo alguma coisa, passo a ter nojo.

       É como comer carne, por exemplo (isso rende um post específico e caloroso, aliás). Parei de comer há mais de 5 anos e hoje sinto nojo de carne. Embora haja muitos motivos para defender que devemos ser vegetarianos (e explanarei sobre todos quando o post sobre isso sair), para mim um bastou: o sofrimento dos animais. É impossível assistir “Terráqueos” e não querer virar vegetariano – nem que seja por uma semana. A questão é: o objetivo de não comer carne (não abater os animais) está tão interiorizado em mim que eu deixo de comer não porque eu não possa, mas porque eu não consigo. Mesmo eu podendo comer carne (“teoricamente” eu posso, não posso? ) eu não quero porque me dá nojo, já que associei ao sofrimento animal. Às vezes, ao contrário, deixamos de fazer algo que não é lícito –seja por que motivo for – apenas porque não podemos (restrição por alguma norma ou lei), mas no fundo desejamos fazê-lo. Por exemplo: eu só não saio por aí com duas agulhas furando o peito de plástico das mulheres fúteis porque eu seria presa (Sim, só por isso). Quando realmente interiorizamos que não devemos fazer determinada coisa porque não é legal, entretanto, deixamos de fazer mesmo tendo a possibilidade e a permissão.

       A questão de assistir novela funciona sob a mesma lógica. Por mais que eu pudesse assistir, eu não assistiria. Não é que eu não possa, é que eu não consigo. Eu não consigo assistir a nada disso sem ficar extremamente irritada e enraivecida diante dos valores absurdos que são difundidos. Confesso até que, uma vez, ano passado ou talvez retrasado, tentei dar uma chance e assisti a alguns minutos de uma novela que não sei o nome. É claro que meu esforço foi em vão: eu peguei justamente uma cena em que a personagem da Cristiane Torloni espancava (!) a amante de seu marido, chegou em casa contando a aventura (!!) para sua empregada, contente que “agora ela não mais iria se engraçar pra cima do marido dela”, sem fazer absolutamente nada com o próprio marido (!!!), como se a culpa fosse só da amante e não do cara, marido dela (!!!!), que também fazia parte do caso (!!!!!).

      Não, não adianta tentar me convencer que eu sentei na frente da televisão na hora errada e no dia errado. Eu sei que as histórias sempre giram em torno desses mesmos valores porcos: os caras são sempre “fodões” bem sucedidos que comem todas (e as mulheres que fazem o mesmo são “vadias”); as mulheres são constantemente traídas, sabem disso e aceitam na maior submissão; as ricas (ou melhor, nunca existem mulheres ricas por si só. As mulheres sempre ficaram ricas porque casaram com homens ricos, o que é bem diferente) são sempre dondocas que vivem no shopping com as amigas igualmente dondocas; apenas as pobres trabalham, afinal, pras pessoas machistas (mulheres inclusas), mulher só trabalha quando “precisa” (leia-se “quando não casou com homem rico”); etc. Até podem ter mulheres que trabalham e são bem sucedidas, mas notem que é sempre numa profissão considerada “feminina”, e quase sempre ligada à moda. Isso sem falar nas enormes mansões, nos atores que fisicamente em nada se assemelham ao povo brasileiro, nas pessoas que são riquíssimas sem se ralar no trabalho, que mais nos faz pensar que estamos vivendo na Suécia.



       Por mais que eu tente viver no meu mundinho paralelo, alheio à toda podridão do mundo lá fora, algumas coisas acabam chegando até mim. Por exemplo, eu vou ao supermercado, então inevitavelmente me deparo com as revistas da estante do caixa rápido (“os segredos do corpão de [nome da atriz do momento]!”, “o chá que faz perder barriga!”, “o que rolou na ilha de Caras!”,”o que vai acontecer na sua novela preferida!”); eu ouço conversas na rua e nos estabelecimentos (“quem você quer que ganhe o BBB?”, etc); freqüento consultórios médicos; divido casa com mais gente e vou na casa de outras pessoas. Enfim, a televisão e as revistas estão em toda parte e por isso sempre acabo sabendo mesmo o que não quero.

       Tendo isso em vista, sei de muita coisa que aconteceu em "Insensato Coração" e já presenciei cenas que me chamaram atenção justamente por romper com os padrões até então vistos. Por exemplo: notei que nessa novela o estereótipo de mulher fútil é, por vezes, ridicularizado. Bem no começo da novela, o personagem de Antônio Fagundes disse a sua esposa que queria se separar pois "não a respeitava e não a admirava porque ela era fútil, não fazia nada na vida e quando engravidou só se preocupava com como aquilo iria estragar seu corpo".



       A personagem da Débora Secco, apesar de retratar um tipo de mulher que se dá bem no Brasil, é ridicularizada e criticada até por seus familiares e amigos. Seus recorrentes ensaios nus, além disso, são sempre retratados na trama como um ato de desespero de uma pessoa sem talento. Ela não é levada a sério por ninguém, e sua personalidade é bem marcada pelos traços da burrice, vulgaridade e interesse financeiro, o que é bem diferente da forma como a mídia anuncia as “Natalies” da vida real: muitas ex-BBB’s são tratadas como “mocinhas”, verdadeiras “namoradinhas do Brasil” (posto que Regina Duarte ocupara nos anos 70). O próprio intuito da criação deste personagem, ao meu ver, é justamente escarnecer este papel social bizarro. Ademais, o próprio personagem de Herson Capri a humilhou, certa vez, dizendo que “era preciso muito mais que um par de peito de silicone para fazer uma mulher de verdade”. Ora, quando que isso já foi dito alguma vez na televisão? A mensagem que sempre passam é justamente a contrária, de que basta ter peito de plástico para ser mulher!

A Natalie fictícia não recebe o carinho e o respeito que as
Natalies da vida real, apadrinhadas da Rede Globo, recebem.


       Uma das personagens mais ricas da trama é uma mulher (a personagem de Nathália Timberg), embora eu tenha um leve pressentimento de que ela herdou tudo de um marido, o que acabaria com minha alegria (alguém saberia confirmar isso?). O personagem de Gabriel Braga Nunes, inclusive, planejava casar com a personagem da Paola Oliveira apenas por dinheiro. Ora, quando que um personagem masculino seria retratado dessa forma? Por mais que os homens sejam ambiciosos, sempre desejam se sentir mais poderosos que a mulher, o que inviabiliza se casar com uma mulher rica por interesse. A personagem de Bruna Linzmeyer, além disso, é uma jovem determinada a encontrar prazer sexualmente, mesmo que isso signifique andar na contramão do que espera de uma “boa moça”.


       Não posso me animar demais porque muita mesmice ainda é repetida. Mas por alguns fragmentos que vi, acho que essa é a novela "menos pior" no que diz respeito à imagem da mulher. Não costumo ser otimista, principalmente no que se refere à televisão aberta brasileira, mas estou sentindo cheiro de mudança. Dessa vez, para melhor.